Velhice, tradução, humor

Velhice, tradução, humor (*)

Sérgio Telles

Velhice – Chegando tarde a uma grande festa de casamento, vimo-nos obrigados a compartilhar uma mesa com um casal idoso desconhecido. Seguindo as regras de civilidade, logo tentamos “entabular uma conversação”, expressão que bem poderia fazer parte do glossário de chavões ou clichês listado por Bouvard e Pécuchet, mas que não me privo de usar sempre que me dá na telha (outra expressão cabível naquela lista), sem me deixar intimidar pelos guardas de trânsito da língua, que querem tirar de circulação termos ou locuções tidas como lugares-comuns ou fora de moda, como se seu uso pudesse provocar engarrafamentos ou congestionamentos inconvenientes em discursos e relatos de variado gênero e teor. Eles não entendem que a vitalidade da linguagem está justamente nessa mistura de velhas palavras ou expressões caindo aos pedaços, saturadas de sentido e as reluzentemente novas, que passam chispando procurando estabelecer seus próprios valores e trajetos.

Dado o ensurdecedor volume da música, a conversa não progredia sem dificuldades, pois o velho senhor falava baixo e talvez não ouvisse bem. No que me dizia respeito, de vez em quando percebia que estava falando aos gritos. De longe, observávamos a beleza da juventude, que dançava com entusiasmo. Previsivelmente, falamos sobre a passagem do tempo e o choque de gerações, trocando as platitudes apropriadas ao tema e às circunstâncias. Era grande o barulho e eu não seguia bem as palavras do velho senhor. Lá pelas tantas, se entendi bem, ele afirmava que a maioria das pessoas se enganava ao pensar que não havia mais nada a aprender na velhice, que nessa quadra da vida não existia mais nada a ser descoberto, ali tudo se repetia e só restava usufruir a experiência decorrente dos anos vividos. Nada mais equivocado, dizia ele. Na velhice descobrimos, por exemplo, um novo corpo, o corpo velho, com novas exigências, novas rotinas, mudanças e adaptações.

O esforço de manter a conversa já começava a pesar e eu não estava disposto a acompanhar o tom grave que nela poderia eventualmente se instalar. O champanhe, a alegria pulsante da música e o tumulto animado da festa agudizavam em mim a consciência de que estar vivo naquele exato momento era um privilégio e que isso exigia uma celebração imediata. De forma inopinada, levantei-me e me despedi efusivamente do velho senhor e sua companheira, que ficaram a me olhar surpresos enquanto os deixava, rebocando minha mulher para a pista de dança e planejando procurar os amigos que deviam estar por ali, dispersos na multidão.

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Tradução – Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, de David Foster Wallace, foi lançado agora pela Companhia das Letras. Enfeixa seis textos encomendados por publicações como a revista Harper’s e o New York Times. O talento e a aguda percepção de Wallace subvertem os temas propostos, fazendo com que as reportagens se transformem em alentados ensaios onde expõe de forma patética a comédia humana.

Estava lendo o texto que dá título ao livro, quando tropecei num parágrafo que dizia “os rostos dos cavalos são compridos e por algum motivo lembram caixões”. Como assim, “caixões”? Seria um propositado nonsense, uma provocação por parte do autor? Haveria alguma significação que me escapava? Ou estaria ele se referindo a “caixão de defuntos”? Se assim fosse, o sentido logo se evidenciava, pois, de fato, eu nunca me apercebera disso até então (não sei se você, caro leitor, já percebera), vista de frente, a cara do cavalo lembra, sim e muito, um caixão de defunto. Procurei na internet e logo confirmei minhas suspeitas ao ler – “the horse’s faces are long and somehow suggestive of coffins”. “Coffin” – esquife, ataúde, féretro, caixão de defunto.

A rigor, a tradução não está errada, mas não facilita a compreensão da original imagem criada por Wallace, na qual a morte se insinua num lugar tão inesperado como a cara de um cavalo, animal usado habitualmente como símbolo de força vital. Além do mais, parece não reconhecer nesse fragmento a emergência de um elemento que se tornaria cada vez mais importante na obra do autor, especialmente quando se leva em conta seu suicídio aos 46 anos em 2008.

É claro que esse pequeno lapso não compromete a trabalho e a escolha de escritores como Daniel Galera e Daniel Pellizzari para traduzirem o livro de Wallace é a decisão correta nem sempre seguida por nossas editoras quando da tradução de textos literários de alto nível.

Agora mesmo me chamou a atenção o cuidado tomado pela Bellevue Literary Press (Nova York) e a Pushkin Press (Londres) com a tradução para o inglês do livro El Boxeador Polaco (O Boxeador Polonês) do escritor guatemalteco Eduardo Halfon, que vive entre seu país e os Estados Unidos, autor de vários outros livros e vencedor da prestigiada bolsa Guggenheim. Com cerca de 180 páginas, a versão em inglês de The Polish Boxer foi realizada conjuntamente por uma equipe de cinco tradutores.

Com um narrador que usa o mesmo nome do autor, Halfon deliberadamente confunde memória e ficção, contando poucas histórias – a descoberta do talento poético de um aluno de parcos recursos, o que coloca o narrador em contato com a cultura e a língua dos povos nativos de sua terra, excluídos dos padrões eurocêntricos dominantes; sua lamentável participação enquanto único professor do Terceiro Mundo num colóquio norte-americano sobre Mark Twain; o resgate da história de seu avô sobrevivente de Auschwitz e o relato, num registro menos ficcional, de uma palestra no festival literário Correntes d’Escritas em Portugal, onde, com o carioca João Paulo Cuenca, discorreu sobre o tema “a literatura rasga a realidade”.

Em seu texto mais longo, desmembrado em vários contos e no qual seguimos o narrador em sua obcecada procura por um amigo pianista sérvio desaparecido em Bucareste enquanto buscava sua remota e fugidia identidade cigana, talvez se encontre o grande tema do livro: a condição nômade, apátrida, exilada, “estrangeira” não do judeu – como costuma se pensar – e sim do artista, um ser desterrado, vivendo desde sempre um involuntário exílio num mundo regido por outras prioridades que não as suas e cujo desamparo o obriga muitas vezes a mendigar a custosa proteção de poderosos mecenas.

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Castigat ridendo mores –  É impagável o “Diário de Dilma”, na sempre ótima “Piauí”. São sem rivais a ironia e a comicidade do texto de Renato Terra.

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo” em 24/11/2012

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