Pornografia – algumas idéias iniciais

Stoller visita os pornógrafos e os sado-masoquistas

Como escrevi recentemente (PORNOGRAFIA – ALGUMAS IDÉIAS INICIAIS), entre as muitas revoluções que a internet tem causado nos últimos tempos, está aquela vinculada com a pornografia. Desde há muito combatida e censurada como geradora de muitos males, a pornografia tem tido através da internet uma divulgação nunca dantes pensada, o que provoca uma salutar desmitificação da questão. A maior crítica à pornografia é que ela induziria ao aumento de crimes sexuais contra pessoas indefesas (mulheres, crianças). Como os sites de pornografia são vistos diariamente por milhões de pessoas, se isso fôsse verdade, os crimes sexuais teriam crescido assustadoramente.

Retomo hoje o assunto, seguindo as trilhas de Robert Stoller, o grande psicanalista norte-americano precocemente falecido num acidente de carro em 1991, precursor dos estudos sobre gênero sexual. Faço aqui uma resenha de seus três últimos livros. Em dois deles – PORN – MYTHS FOR THE TWENTIETH CENTURY (Yale University Press – New Haven and London – 1991) e COMING ATTRACTION – THE MAKING OF AN X-RATED VIDEO, em co-autoria com S. Levine )Yale University Press – New York and London – 1993), Stoller observa e analisa a indústria pornográfica. No outro livro – PAIN AND PASSION – A PSYCHOANALYST EXPLORES THE WORLD OF S&M(Plenum Press – New York and London – 1991) Stoller investiga a cultura sado-masoquista.

Nestes três livros, se evidencia de forma clara a preocupação de cunho epistemológico que Stoller tinha quanto à produção de trabalhos psicanalíticos. Essa preocupação advém do reconhecimento de que a psicanálise tem um acervo de conhecimentos que precisa ser mantido e desenvolvido, o que só é possível através de sua trasmissão. E é ai que está o problema, pois os métodos de investigação científica – tal como hoje são praticados – não são aplicáveis ao nosso conhecimento.

Esse é o problema que atinge todas as chamadas “ciências do homem”. O desafio epistemológico que todas elas têm de enfrentar é encontrar seus próprios meios de aferição de veracidade, sem se deixar intimidar pelo terrorismo neo-positivista que lhes nega o estatuto de ciência por não se conformarem ao padrão das ciências naturais.

Nestes três livros vemos a forma que Stoller propõe para viabilizar a transmissão da experiência analítica, seu registro e sua divulgação. Sua proposta é agir como agiria um antropólogo em tribos distantes, registrando suas experiências da maneira mais direta possível, numa forma clara, fora do jargão dos conceitos psicanalícos e sem confundí-las – as observações – com interpretações, que seriam produzidas um momento segundo.

O que Stoller tenta dizer é que para que os relatos analíticos cumpram com sua imprescindível função de transmitir uma experiência acumulada e produtora de conhecimento, ela deve – em primeiro lugar – discriminar o que é o relato do acontecimento e sua interpretação. Isso é fundamental para a transmissão de conhecimento, tanto dentro de nosso próprio campo, dividido em muitas escolas, como fora dela. Isso permite que quem lê o relato tenha suas próprias conclusões e as confronte depois com as interpretações dadas pelo autor.

Diz ele: “Antes de abordar o interessante material, quero enfatizar minha ignorância, com o objetivo de recomendá-la para os demais. Aqui estão palavras entre as mais respeitadas em psicanálise, que refletem a essência de poderosos conceitos e abrangentes conhecimentos: narcisismo, agressão, libido, neutralização, catexis, identificação, instinto de morte, sadismo e masoquismo. Esse vocabulário objetiva tirar de dentro da confusão das observações clínicas as formas puras necessárias para a construção da teoria. Uma citação típica (cheia de palavras indefiníveis e conceitos): ‘Narcisismo é o investimento da representação do self com catexe libidinal, enquanto no masoquismo uma fusão de energias libidinais e agressivas é direcionada contra a representação do self’. Mas me junto àqueles que pensam que tal linguagem mais obscurece que esclarece e nem todos que pensam assim são inimigos da psicanálise” (pg 4 – SM). ” Analistas, penso eu, deveriam resistir ao romântico apelo do mistério e ter como objetivo a coleta de observações detalhadas; há muitos elementos desconhecidos no comportamtento manisfesto onde nossa curiosidade poderá ser satisfeita” (pg 5 – SM). “Assim, explicações psicanalíticas deverão ser mais precisas, mais ancoradas em dados clínicos e mais modesta – sem tantos elementos vagos como ‘libido anal’ ou ‘investimento narcísico da figura paterna reprimida e idealizada’ ou outros conceitos altamente compactos que podem esconder deficits de dados (clínicos)”(pg 9 SM).

Assim, os três livros são constituídos praticamente com a transcrição de fitas gravadas com pessoas envolvidas quer seja na produção de filmes pornográficos (PORN e COMING ATTRACTION) ou praticantes do sado-masoquismo, quer seja em sua versão comercial quer seja em prática privada (PAIN AND PASSION).

Tais entrevistas são extremamente reveladoras, sem que sejam necessárias rebuscadas e abstrusas interpretações que – como diz Stoller – muitas vezes mais depõem contra a inteligibilidade do texto e a confiabilidade na acuidade das observações relatadas, despertando dúvidas nos leitores, mesmo aqueles dentro do nosso campo, o que não dizer daqueles de fora dele.

Claro que Stoller está ciente das dificuldades da empreitada, todas ligadas à imparcialidade do observador, sua capacidade de registrar, de selecionar e cortar o material (entrevista), ou a ausência de um número maior de casos a serem estudados. No caso específico, os três livros parecem usar, com ângulos um pouco diferentes, os mesmo informantes.

Deixando de lado as preocupações epistemológicas de Stoller, vemos que nestes três livros, tem ele por objetivo o desmitificar a pornografia e o sado-masoquismo, áreas tabu até mesmo os psicanalistas. São como que áreas remotas e desconhecidas, cuja existência é reconhecida mas poucos se atrevem a fazer incursões em território tão perigoso.

Lendo seus relatórios, vamos ver como – com exceção dos produtores financeiros, ligados em sua maioria ao crime organizado, aos quais não teve acesso – todos os demais paricipantes da atividade ligada à pornografia foram crianças trauamatizadas, vítimas de abusos os mais variados, provenientes de famílias gravemente comprometidas. Os relatos de Stoller exsudam uma compaixão por dramas humanos. Talvez num esforço oposto ao denegrimento sistemático advindo do preconceito que cerca as pessoas envolvidas nessas atividades, Stoller chega a dizer, quando aborda a prática do sadomasoquismo, que não vê doença naqueles com quem falou. Qualquer leitor – mesmo sem informação psicanalítica -discordaria dele, ao tomar conhecimento dos comportamentos compulsivos autodestrutivos impressionantes ali descritos.

Stoller deseja mostrar que todos – mesmo nós analistas, com nossos jargões – temos preconceitos moralistas contra as patologias onde a sintomatologia se expressa a nivel do comportamento sexual, tendendo a denegrí-las, coisa que não acontece com as demais patologias. Como essa área – a sexual – está permanentemente sob censura, tudo que a ela se relaciona passa a ser objeto do mesmo mecanismo repressivo e reprovador. O mesmo não se dá com sintomas que atingem outras áreas do comportamento humano. Devemos lembrar que inúmeros sintomas tem uma manifestação muito mais discreta, praticamente invisível para um observador leigo, como as neuroses de caráter, e que podem ter repercussões tão danosas sobre o destino de seu portador quanto uma exuberante manifestação de um homossexual com identificação feminina – a chamada “bicha louca”.

Uma forma – a meu ver, equivocada – de lidar com esse preconceito foi negar o estatuto de patologia para os desvios sexuais ou trocar-lhe o nome: ao invés do “perversão” (que efetivamente está carregado de conotações simbólicas denigratórias morais e culturais), fala-se de “parafilias”. Embora a questão da linguagem seja da maior importância, não se muda a realidade se a denominamos de outra forma. Não se pode negar o sofrimento psíquico inerente a tais condições, assim como não se pode negar a necessidade de tratamento e acompanhamento que muitos apresentam.

A forma correta de focalizar o problema é a que Stoller escolheu – mostrar como tais pessoas foram fruto de condições as mais adversas, e em sua luta para controlar o trauma, organizaram-se desta forma, assim como poderiam ter desenvolvido outros traços ou sintomas, tão danosos para suas personalidades quanto os que apresentam, apenas mais silenciosos ou menos visíveis socialmente.

Ninguém tem preconceitos contra graves histéricas ou obcessivos, ou contra delirantes paranóicos. Ou se os tem, são muito diferentes dos preconceitos ligados às parafilias.

Evidencia-se também, a partir da leitura destes três livros, a postura teórica de Stoller, que não valoriza os esquemas metapsicológicos freudianos clássicos em torno da pulsão, descartando-os como um desvio biologizante (pg 292 SM) e enfatizando a importância da realidade na estruturação do psiquismo, revalorizando a teoria do trauma, sem entretanto entrar em reducionismos simplistas, pois reconhece que o uso do trauma como explicação causal da sintomatologia não se sustenta inteiramente, na medida em que muitos passam pelo mesmo trauma sem organizar o mesmo sintoma.

É justamente nesta impossibilidade de prever os efeitos do trauma sobre o psiquismo onde reside a importância da psicanálise e sua ênfase sobre o estudo da fantasia, sobre a forma expecífica e singular de cada um em organizar e vencer a experiencia traumática.

Que o trauma real é importante, não se discute: hoje em dia é corriqueira a consideração de que muitos pedófilos foram crianças abusadas, que muitos travestis foram vestidos como mulheres por suas mães, etc.

Diz Stoller: “Reconhecendo a importância dos fatores biológicos e culturais, podemos voltar para aquilo que é o forte dos analistas, ou seja, a descrição de como os elementos psicodinâmicos contribuem para a origem e a forma dos comportamentos perversos. Não vou – não ousaria – rever a literatura analitica sobre perversão, mas expressarei minha opinião de que ela é na maioria das vezes inadequada para explicar o que acontece de fato com pessoas vivas e reais. Vamos nós analistas ater-nos àquilo que conhecemos melhor, vamos parar de biologizar (e.g. instinto de morte, energia psíquica, e investimentos – conceitos que Freud pensava como entidades físicas) e, garantida que a a biologia tem sua parte, com aquilo que temos competência de estudar: a fantasia. Fantasia, na forma de scripts, memórias , imagens, significados e afetos (sentimentos, humores e emoções) que dão vida às fantasias. Não digo que a fantasia seja tudo, apenas afirmo que nós analistas quando trabalhamos não temos acesso a nada a não ser a fantasia. As fantasias existem, investimentos (a suposta energia física ligada a uma idéia, a uma parte ou função do corpo, a um objeto, a um lugar – a qualquer coisa) não existe. Quando ficamos seduzidos a filosofar acerca da biologia, perdemos nosso foco em nossa realidade: o clínico” (pg.41 SM).

A importância que Stoller atribui ao trauma é reafirmada em vários momentos, dando a ele importância não só na gênese do sado-masoquismo, como no comportamento sexual geral. Diz ele: “… as áreas que mais me interessam: as origens do roteiros sado-masoquistas. Infelizmente, não tenho sólidas bases, apenas indícios que apontam para a necessidade que todos temos de vencer e controlar os traumas e frustrações que emanam dos “sádicos” de nossa infância: nossos pais. Tenho entretanto um indício a ser desenvolvido como hipótese a ser confirmado clinicamente: os maiores traumas e frustrações da primeira infância são reproduzidos nas fantasias e comportamentos que animam o erotismo adulto, sendo que desta vez a história tem um final feliz. Desta vez, ganhamos. Em outras palavras, o comportamento erótico adulto contêm o trauma primitivo. Os dois se complementam: os detalhes do ‘script’ adulto contam o que aconteceu com a criança. Nós, analistas, somos então detetives tentando rastrear os eventos originais. (pg 25 SM)

Ampliando ainda mais o leque, Stoller diz: “Algumas vezes penso que as perversões adultas são desordens de estresse postraumático da infância. Ou será que, mais simples ainda, a vida adulta é um PSTD (Post traumatic stress disorder – disordem de estresse pós-truamático) da infância? (pg. 25 SM).

No que diz respeito especificamente ao sado-masoquismo, Stoller mostra a importância de doenças graves na infância que envolveram massiças intervenções médicas sobre o corpo da criança, fixando a experiência de intensos cuidados e muito sofrimento.

Em seus relatos sobre o sado-masoquismo, Stoller acredita que esse é um comportamento básico erótico, presente em toda relação sexual, perversa ou não. Estudando a dinêmica da excitação erótica, encontra aí a origem do processo de fetichização, que prefere chamar de desumanização do objeto.

O sado-masoquismo, mais do que qualquer prática humana, levanta importantes questões morais. Stoller propõe uma solução pragmática ao afirmar que na medida em que é praticado por adultos e de forma consensual, ele é moral. Considera-o uma grande encenação teatral cujo objetivo maior é reviver as cenas traumáticas do passado, de forma absolutamente controlada, numa tentativa nem sempre bem sucedida de evitar a efetiva dor e angústia subjacente, ligados à perda da onipotência narcísica.

Stoller mostra como as fantasias e desejos sexuais são diferentes em homens e mulheres:

“A necessidade de orgasmo é mais peremptória na maioria dos homens, a necessidade de intimidade nas mulhers:aconteceria isso por diferentes intensidades de andrógeno? Anatomia é o maior foco de interêsse no homem; nas mulheres, o psiquismo. O olhar com objetivo erótico é mais poderoso e impositivo nos homens; os outros sentidos, nas mulheres. Como resultado disso, homens heterosexuais fetichizam mais seriamente a anatomia das mulheres (e os homens gays a anatomia dos homens), julgando toda a personalidade pelo, digamos, o tamanho e a forma dos seios ( no caso de homens gays, pelo tamanho e forma do pênis) enquanto as mulheres heterossexuais se interessam mais e avaliam mais seriamente a personalidade dos homem (e a lésbica, a da mulher). (pg 224 P)

Essas diferenças se evidenciam com facilidade na produção da pornografia heterossexual por ele estudada, que, por ser toda produzida por homens, revela justamente as fantasias masculinas sobre sua própria sexualidade e o que os homens pensam serem as fantasias sexuais femininas.

Essas observações de Stoller mostram como a pornografia masculina – no caso, aquela veiculada em vídeos e filmes – por valorizarem intensamente a imagem visual, consequentemente o voyerismo e a fetichização da anatomia, tanto masculina quanto feminina, não interessa própriamente às mulheres. O equivalente pornográfico feminino, no sentido daquilo que provoca fantasias eróticas nas mulheres, seriam os romances adocicados, água-com-açucar, ou seu sucedâneo, as novelas de tv.

Stoller considera que o descompasso decorrente de como cada sexo produz suas fantasias eróticas é o gerador de muita hostilidade e mal-entendido entre os mesmos, ao mesmo tempo que é responsável pela intensidade das relações. Esse descompasso pode ser extremamente estimulante numa relação nova, mas em relações antigas podem cristalizar impasses que levam ao desastre. Nestes casos, diz Stoller, “diz-se que a pornografia tem muito mais melhorado as vidas eróticas de muitos casais heterossexuais do que levado homens a atos brutais” (pg 225 P).

Stoller traz uma variante sobre a visão freudiana sobre as consequências psicológicas das diferenças anatômicas entre os sexos, classicamente centradas no complexo de castração, cujo encaminhamento se dá no curso do complexo de édipo. Propõe a existência, nos bebês de sexo masculino, da necessidade de lutar contra a feminização implícita no desejo de manter uma relação simbiótica e fusional com a mãe, ameaça inexistente nos bebês de sexo feminino.

Baseando-se no fato de haver muito mais comportamento perverso (fetichismo, voyerismo e exibicionismo) entre os homens do que entre as mulheres, Stoller sugere a existência de um sistema de fantasias específicamente masculino, que ele chama de “ansiedade de simbiose” (symbiosis anxiety) ou “ansiedade fusional” (merging anxiety).

Diz ele: “Com isso quero me referir ao fato de que os meninos precisam realizar um ato de saparação frente à mãe que as meninas não têem necessidade de fazer. Esse ato imaginário estabelece, dentro dos meninos, uma barreira contra o desejo primitivo de permancerem fundidos com suas mães, de não serem indivíduos separados de suas mães e, assim, de não poderem ter certeza de serem efetivamente machos. Em outras palavras, eles temem se transformar em mulher. Muito da masculinidade em todas as culturas deriva deste conflito: a ênfase no falo, o medo da intimidade com as mulheres, o medo de ser humilhado pelas mulheres, a necessidade de humilhar as mulheres, de fetichizá-las (pg. 42 SM).

Em termos freudianos, isso aconteceria posteriormente. Seria o abandono do desejo incestuoso edipiano pelo amor narcísico ao próprio pênis, o desejo de não ser castrado.

Especificamente sobre a pornografia, Stoller sintetisa as questões mais importantes.

“Quando pensam sobre pornografia, os críticos separam dois fatores na sua contabilidade do bem e do mal: quanto está na natureza mesma da pornografia de fazer – e não só representar – o mal e quanto este mal é decorrente de outros fatores? Exemplos de questões do primeiro ítem são essas: Quão frequentemente a pornografia, por seu poder de excitar, induz a agressão sexual? Ou, pelo contrário, quão frequentemente ela abranda os maus instintos por induzir a masturbação? Quanto que ela instiga o ódio e a perfídia e quanto que ensina de anatomia, comportamento erótico e livre disposição para o prazer? O que é mais capaz de estimular e promover a violência ea degradação: programas de televisão e filmes em geral? A pornografia traria à tona o estuprador presente em todo e qualquer homem? A pornografia seria mais prejudicial que, digamos, o álcool, as drogas, a participaçao em quadrilhas de ruas, o racismo branco, as guerrras patriótics fanáticas?

Exemplos da segundo fator – o mal extrínseco à natureza da pornografia mas gerado indiretamente por ela – a ameaça da disseminação da AIDS através de seus praticantes e o contrôle da industria pornográfica pelo crime organizado”.

Stoller lembra que tais questões envolvem o preconceito e ideologia e tem tido respostas políticas pouco objetivas. Reconhece evidentemente os problemas da disseminação das doenças sexualmente transmissíveis, o problema do crime organizado e a questão da pedofilia, mas quanto à pornografia em si, acha inócua e afirma com certa ironia:

“A pornografia, com poucas exceções, tal como ao usar crianças, faz pouco bem e pouco mal, se por “bem” queremos nos referir a algo que promova a saúde ou o bem-estar geral e por “mal” que ela promova a manipulação pérfida de pessoas no mundo real; se devemos banir a pornografia por ela “fazer mal” (o que é um argumento familiar) , então devemos também banir o álcool, automóveis, filmes não pornográficos, leis, políticos, vitaminas, sapatos de saltos altos, computadores, dinheiro, a prática do ski, o uso de animais em laboratórios, a religião do outro e a luz do sol (pg 215 P)

Stoller diz que se alguém é prejudicado pela pornografia são seus atores, que – como vimos nos relatos das entrevistas – são homens e mulheres fragilizados, traumatizados, vítimas de antigos abusos, expostos às doenças sexuais e ao consumo de droga, em contato permanente com a marginalidade e o crime organizado.

Como a pornografia tem sido um alvo preferido das feministas, que a vêem com uma expressão máxima da degradação da mulher pelo homem, Stoller mostra como essa é uma visão equivocada e sintomática, a mesma que descreve o “orgasmo múltiplo feminino”. Stoller considera-o uma “lenda”, criada pela “literatura feminista utópica”, com o objetivo de intimidar os homens.

A pornografia e as perversões sexuais (parafilias) envolvem problemas legais. Stoller lembra a extraordinária relatividade do conceito de pornografia, que tem conotações e faz referências a coisas muito diferentes se consideradas do ponto de vista da geografia, da época, da cultura. Lembra que nos anos 50, nos Estados Unidos, uma foto com uma mulher de sutiã era altamente pornográfica. Estas fotos hoje aparecem nos anúncios comerciais de sutiã em todos os jornais diários. Recentemente vi na tv uma mulher brasileira que mora num país muçulmano afirmar que esconde sua nacionalidade, pois naquele pais onde vive as brasileiras são consideradas prostitutas pelas danças e pela forma como exibem o corpo em trajes sumários de banho.

Assim, o truísmo muitas vezes repetido de “reconheço o que é material pornográfico ao me deparar com um deles” é falho, pois o que é efetivamente “pornográfico” – no sentido de provocar uma excitação sexual – depende estritamente das fantasias de cada um. Por exemplo: quem diria que a visão de mulheres enforcadas em árvores poderia ser sexualmente excitante? Pois tem uma porção de gente que assim pensa.

Sem comentários.

Deixe seu comentário