Pensando a respeito da pedofilia (abusos sexuais infantis) e da teoria da sedução

Imaginemos que, num dia qualquer do ano de 2002, um analista encontra um rapaz que está naquela idade onde as pessoas decidem o que vão fazer da vida e que lhe diz: “Existe uma organização que só permite que eu nela ingresse caso eu abdique de minha sexualidade, prometa obediência irrestrita às suas determinações e que eu me comprometa em não ter ambição alguma quanto a bens materiais, procurando deliberadamente uma condição de pobreza. Pensei bem e resolvi que aceito tais condições e, desta forma, nela ingresso. Vou ser padre”.

Ao ouvir isso, penalizado com o destino rigoroso que esse rapaz se impõe a si mesmo, o analista perguntaria o porquê de tal decisão, o que o levaria a abrir mão de forças vitais tão intensas e prezadas na existência de qualquer ser humano, já que é assim que a maioria das pessoas considera a vida amorosa e a prática sexual, o desejo de crescimento e independência, a ambição de realizar seus desejos e sonhos. O analista perguntaria o que espera ganhar com tal escolha.

O rapaz responde que o analista incide num erro. Não é que ele não tem sonhos ou ambições. Eles os tem na mais alta intensidade. Também não é verdade que ele não quer exercer uma liberdade e uma autonomia próprias de uma condição de independência e crescimento. São justamente essas as premissas que o autorizam a usar da liberdade e da independência para fazer a escolha, que no fundo é extremamente ambiciosa. Ela implica num transcender a condição humana mais corriqueira, dirigindo-se para uma vida mais elevada, distante dos bens materiais e do mundo, ficando dessa forma mais disponível para ouvir o apelo de Deus e seguir seus desígnios. Diz ainda o rapaz a ele só interessa fazer o bem para os outros, seguir a palavra divina e que tudo o mais é ilusão.

Ao ouvir isso, o analista se cala. Mas seu pensamento, despertado pela conversa, segue em frente e, usando dos conhecimentos teóricos e práticos advindos da descoberta freudiana, começa a estabelecer uma hipótese para entender a escolha do rapaz.

Tendo como premissa a existência do inconsciente e a radical revolução na compreensão do psiquismo que ele trouxe, o analista lembra que as escolhas feitas pelos seres humanos não são decorrências exclusivas de deliberações conscientes. Nelas, como em todos os processos mentais, se imiscuem inadvertidas moções inconscientes cujas insuspeitas força e intensidade muitas vezes terminam por determinar a conduta do sujeito, mesmo que disso ele não se aperceba.

Assim, o analista refletiria que o rapaz que acabou de lhe declarar seu projeto de vida encontra-se irremediavelmente perdido num labirinto, sem ter outra saída do que aquela por ele revelada. O analista pensa que ele está com grandes problemas psíquicos referentes aos desafios que a idade adulta lhe propõe. Ele deve assumir sua identidade sexual e pessoal, deve sair do ambiente protetor familiar e enfrentar o grande desafio de organizar e dar sentido à sua própria vida. Frente a essas exigências, ele – incapacitado e sem ter elementos para atendê-las – faz um movimento regressivo: abdica da própria sexualidade, abdica da autonomia e independência e se refugia numa instituição que o poupa destes embates, mantendo-o numa posição infantil, regido por autoridades que substituem muito de perto as figuras paternas.

O analista pensa que esse rapaz deveria fazer uma psicanálise e que, se esta prosperasse, o rapaz teria mais recursos para lidar com seus desejos inconscientes sexuais e agressivos, podendo exercê-los de forma socialmente aceitável. Isso faria com que afastasse totalmente seu desejo de se refugiar numa vida religiosa, podendo retomar o curso de sua vida leiga.

O analista lembra que foi exatamente isso que ocorreu em 1963, na famosa experiência do Mosteiro da Ressurreição, em Cuernavaca, México. Ali, o abade e seus sessenta religiosos se submeteram a uma terapia de grupo conduzida por dois analistas (um homem e uma mulher) da International Psychoanalytical Association (IPA). Ao cabo de dois anos, o abate e quarenta religiosos abandonaram o hábito. A experiência foi condenada por Paulo VI, que fechou o mosteiro.

O analista pensa como o conhecimento freudiano se evidencia novamente no escândalo sem prescedentes que a Igreja Católica atravessa nos Estados Unidos. Ali, o que mais causa indignação geral não é tanto a ação dos “predator priests” (“padres predadores”), mas a política sistemática da Igreja, que até recentemente acobertava e protegia tais padres, apesar do pleno conhecimento de seus atos. Prevaleceu sempre o interesse em preservar a instituição frente ao dano a inúmeros adolescentes, muitos deles levados ao suicídio.

O analista continua refletindo e vê como isso tudo, mais uma vez, mostra a total antinomia e incompatibilidade entre a religião e a psicanálise freudiana.

Entretanto, prossegue seu pensamento, essa impossibilide de convivência é escamoteada pelos próprios psicanalistas. Isso acontece em parte como uma estratégia de sobrevivência – a religiosidade é de tal modo arraigada nos seres humanos, faz parte de poderosos mecanismos identificatórios pessoais e grupais, sua contestação é vivienciada como uma ameaça à própria integridade psíquica, ficando o constestador (o analista, no caso) em franca desvantagem, objeto de hostilidade e intolerância. Não podemos esquecer episódios da história da psicanálise, onde a Igreja Católica se opôs frontalmente contra ela, considerando-a um perigo semelhante ao comunismo ateu. Para maiores detalhes, vide Roudinesco, no “Dicionário de Psicanálise”, verbete “Igreja”, sobre episódios na França e Itália. Como existe hoje uma espécie de armistício entre essas duas potências, não parece ser muito político mexer neste vespeiro.

Por outro lado, as impossibilitades de convivência entre o pensamento freudiano e a religião são escamoteadas pelos próprios analistas por que, enquanto sintoma, muitos deles ainda o portam, não o tiveram suficientemente analisado. Afinal, como sabemos, temos nossos escotomas inanalisáveis. A religiosidade, ou seja, a força que faz com que os seres humanos se agrupem em congregações que organizam práticas que possibilitam a satisfação de arcaicos desejos de amor incondicional e proteção, visando restaurar ilusoriamente o narcisismo primário, a fusão inicial com a mãe, ou a proteção fornecida pelo pai forte tal como era visto na infância, essa força atua em todos, mesmo nos analistas, eles que deveriam estar mais atentos a tais desejos e mecanismos inconscientes.

Mais ainda, mesmo quando criticam as religiões oficiais, muitos analistas não abandonam o comportamento e a atitude religiosa em suas próprias instituições. Ali escolhem deuses e dogmas, aos quais se aferram, e organizam lutas religiosas fratricidas mortíferas, onde predominam os ‘assassinatos de alma’: os inimigos não são trucidados fisicamente, mas “assassinados em suas almas”, são desautorizados, desconsiderados, declarados “psicóticos” , “psicopatas”, “anti-sociais”, “narcisistas”,” vorazes”, “invejosos”. Os termos variam com a crença religiosa em questão, mas a função é a mesma – denegrir e desautorizar o outro.

Falávamos acima sobre não ser político exacerbar as contradições entre a psicanálise e religião, quebrando um armistício tático. Mas talvez isso se faz necessário, na medida em que o campo da psicanálise no Brasil está invadido por esdrúxulas misturas religiosas que acolhem o fanatismo e o charlatanismo. E impõe-se, para que a psicanálise não seja confundida com tais práticas ilícitas, que discriminações sejam estabelecidas, tendo em vista não só sua preservação, como também a proteção de incautos leigos que poderiam ser explorados por tais praticantes.

Iniciamos falando do caso hipotético de um rapaz que anuncia seu desejo de ser padre, para tanto fazendo grandes renúncias através dos votos de castidade, obediência e pobreza. Dissemos que um analista veria essa escolha como sintomática de uma fuga frente aos desafios da vida adulta, o ter de lidar com as pulsões sexuais e agressivas. Passo seguinte, lembramos do caso do mosteiro de Cuernavaca que confirmaria essa hipótese. Como essa fuga corresponde a uma tentativa de repressão e negação, a isso corresponde o retorno do reprimido, que é visto escancaradamente no escândalo da pedofilia na Igreja Católica nos Estados Unidos e provavelmente em muitos outros lugares do mundo.

Queríamos com isso dizer que as fugas (repressão e negação) frente a sexualidade e a agressividade, frente aos desafios de assumir o próprio desejo, desalienando-se do desejo do Outro, que a impossibilidade de emergir das relações narcísicas para as relações objetais e toda a rica sintomatologia de cunho sexual ou não daí decorrente são privilégios de uma população enclausurada por motivação religiosa e que os leigos, os que vivem no mundo, de tudo isso estão isentos?

Claro que não. E é importante salientar isso para que fique claro que as repressões, negações e regressões frente a sexualidade e a agressividade têm uma imensa gradação que vai desde a fuga literal para uma comunidade enclausurada, como é o caso dos religiosos, até expressões mais sutís, como, por exemplo, um homem que mantem em seu casamento uma relação de submissão e dependência de sua mulher, reatualizando nela a figura materna, com quem satisfaz seus desejos infantis de proteção.

Isso fica evidente no próprio caso que estamos abordando, o da pedofilia – apenas uma entre várias patologias da sexualidade. Temos um exemplo imediato fornecido pelo famoso pediatra que recentemente foi aqui flagrado com os filmes onde registrava suas práticas. E lembramos dos milhares de pedófilos (leigos, não religiosos, casados ou não) que mantêm os circuitos do turismo sexual infantil nos países pobres.

O que isso significa? Do ponto de vista mais amplo, que, para a psicanálise, a sexualidade é a expressão privilegiada da conflitiva inconsciente e suas gradações e implicações são extremamente complexas. No caso da pedofilia, o que é importante salientar é que o abuso sexual de crianças é algo que não pode ser negado. Tem uma maior visibilidade agora devido a uma censura menor na circulação da informação. Podemos supor que é uma prática que sempre existiu, um aspecto da sexualidade perversa humana.

A questão da pedofilia, ou seja, dos abusos sexuais infantis, nos interessa, a nós psicanalistas, muito de perto, pois lembramos dos momentos inaugurais da psicanálise, quando Freud descreveu sua “teoria da sedução”. Sabemos que as reminiscências das quais as histéricas padeciam diziam respeito a ataques sexuais que teriam sofrido por parte de seus pais. Freud inicialmente acreditou na realidade fática destas lembranças, até perceber, dado sua insistência, que ela seria um produto da fantasia, fazendo-o privilegiar a realidade interna, quase descuidando da realidade externa.

Vivemos um momento histórico diferente daquele vivido por Freud, diferença essa – aliás – que ele mesmo ajudou a instaurar. Neste momento, a realidade brutal dos abusos sofridos pelas crianças, sejam sexuais ou agressivos, não mais estão reprimidos ou negados.

Nós analistas devemos estar atentos a isso. Sabemos que os abusos, na grande maioria dos casos, acontece no ambiente familiar. Isso significa que nestas famílias as funções paterna e materna estão deficitárias ou inexistentes.

Nestes tristes casos, os adultos, os pais, não conseguem exercer a paternidade de forma a assegurar uma boa estruturação psíquica a seus filhos, não fornecem imagens identificatórias que organizariam seu mundo interno. Mantêm com os filhos relações indiscriminadas, parciais, narcísicas.

É nesse sentido que é necessário repensar teóricamente – como analistas – a importância da realidade “externa”, levá-la sempre em conta, coisa que anteriormente talvez não fôsse feita com muita acurácia por haver uma ênfase quase exclusiva na chamada realidade “interna”, no “mundo interno” do paciente.

Penso que essa “realidade externa” que tem de ser levada em conta faz parte do arsenal teórica de Lacan, ao enfatizar a importância fundamental do Outro e seu desejo alienador sobre o sujeito, assim como do conceito de “teoria da sedução generalizada” de Laplanche.

A importância do Outro, da sedução “generalizada”, a compreensão de que há pais incapazes de exercerem as funções paterna e materna, com efeitos catastróficos sobre os filhos, tudo isso aponta para a importância da família como objeto de estudo e pesquisa da psicanálise. A relutância ou mesmo a negação desta evidência me faz pensar que deriva de certos mal-entendidos, centrados nos necessários reparos a serem feitos na metapsicologia freudiana, o sanctu sanctorum que todos tememos profanar. Mas fazer eventuais reparos, ao invés de destruir o edifício teórico tão penosamente construído por Freud, será como uma manutenção necessária para tirar as goteiras e as rachaduras. Em nada põe em perigo a descoberta princeps de Freud, o inconsciente.

Bons exemplos de reparo na metapsicologia são alguns conceitos lacanianos, assim como o conceito de “objeto-fonte da pulsão”, concebido por Laplanche.Se lembramos que, para Freud, a pulsão – conceito extremamente operacional, fundamental para a compreensão da dinâmica de seus modelos de aparelho psíquico, a força que os impele a funcionar – é conceito limítrofe entre o corpo e o psíquismo, caracterizado por uma fonte (excitação somática, tensão), uma meta (descarga da tensão e excitação) e um objeto (via onde a pulsão atinge sua meta, realiza a descarga.). Vemos que ao propor um “objeto-fonte da pulsão”, Laplanche está provocando uma virada de 180 graus. A fonte não é mais somática, interna, biológica, passando a ser externa, estranha, vinda do objeto ou sua representação. Apenas sublinhamos a grandeza desta proposta, mas não a desenvolveremos agora.

De certa forma, isso já está também no próprio Freud, a questão da realidade externa e interna, especifiacada no conceito das “séries complementares”. Mas, às vezes, penso que Freud estava tão cioso com a descoberta do inconsciente e a criação de seus modelos metapsicológicos, que temia estragá-los caso desse qualquer importância à realidade externa…

A falta de atenção para o complexo jogo entre realidade externa e realidade interna, entre fantasia e acontecimento fático, pode ter consequências catastróficas por duas vias. Ou por desacreditar um trauma real que passa a ser visto como mero produto da realização do desejo. Ou por ver como real um produto da fantasia.

Exemplo disso ocorreu nos Estados Unidos nos anos 80 e parte dos 90, com a chamada “síndrome das lembranças recuperadas”. Num arremedo do ocorrido com Freud no final do século XIX, as pacientes norte-americanas do final do século XX começaram a “lembrar” que tinham sido vítima de abusos sexuais por seus pais. Teriam sido violadas por pai e/ou mãe, teriam sido obrigadas a participarem de rituais satânicos, onde presenciaram sacrifícios humanos. Outras diziam ter sido abduzidas por extra-terrestres, que as teriam usado para experiências sexuais e inseminação para a criação de raças interplanetárias.

Devemos nos admirar que tamanhos absurdos tenham sido considerados relatos verdadeiros, levando ao descrédito inúmeros profissionais da linha psicológica, além de desencadear incontáveis (alguns dizem que milhões de pessoas foram envolvidas nesta onda) tragédias, nas quais famílias se despedaçavam no embate das acusações de filhos contra pais e mães.

Ou isso seria o retorno do reprimido, mais uma evidência do evanescente inconsciente, que ao ser expulso pelos neuro-transmissores, retorna com inaudita violência?

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