O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II

APRESENTAÇÃO

O PSICANALISTA VAI AO CINEMA II, DE SÉRGIO TELLES

Sua proposta é divulgar o conhecimento psicanalítico para quem ainda não o tem, utilizando para isso esse meio privilegiado que é o cinema.
O Psicanalista vai ao Cinema II
O psicanalista e escritor Sérgio Telles nos brinda com um novo livro de artigos sobre psicanálise e cinema. Com a mesma desenvoltura e elegância da coletânea anterior (2004), apresenta-nos 26 filmes, abrangendo estilos, épocas e nacionalidades diversas.

Sua proposta é divulgar o conhecimento psicanalítico para quem ainda não o tem, utilizando para isso esse meio privilegiado que é o cinema.

Os textos aqui contidos certamente instigarão a sensibilidade e a inteligência do leitor.

O autor privilegia produções recentes, mas ao mesmo tempo reserva um espaço importante ao século XX, com obras realizadas pelos antológicos Leni Riefenstahl, Max Ophuls, Ingmar Bergman, Alain Resnais, Pier Paolo Pasolini.

Dentre os filmes recentes, encontram-se os brasileiros Tropa de Elite e Santiago; os europeus Volver e Lucia e o Sexo; o norte-americano Segredos da Noite; o mexicano O Labirinto do Fauno.

O PSICANALISTA… (EXCERTO)

“SANTIAGO” DE JOÃO MOREIRA SALES (2006) – UMA MEDITAÇÃO SOBRE A MEMÓRIA

Sérgio Telles

Recentemente, o filme “Santiago”, de João Moreira Salles foi adquirido pelo MOMA de Nova York, honra concedida a poucos, e ganhou mais um prêmio em Londres.

Aparentemente, “Santiago” é um documentário sobre o ex-mordomo dos Moreira Salles, um capricho de menino rico filmando um velho empregado.

Na verdade, “Santiago” é uma refinada meditação sobre o passado, e seu correlato, a memória, expressa quer seja nas lembranças afetivas pessoais, quer seja no registro formal dos documentos.

Em “Santiago”, o passado nos é apresentado em várias camadas superpostas – o passado de João Moreira Salles, tentando recordar a infância através do mordomo e suas lembranças; o passado pessoal do próprio Santiago, suas recordações sobre os parentes italianos e a imigração para a Argentina; o passado sedimentado na história de antigas dinastias e impérios que Santiago copia obsessivamente, tentando captar-lhes o sentido e o perdido esplendor. E há o passado recente do diretor, o intervalo de 11 anos entre as filmagens e a efetiva realização do filme, tempo que lhe possibilita uma reflexão sobre os objetivos que tinha na ocasião em que filmava e como os vê ao retomar os registros para finalizar a obra.

A grande questão que João Moreira Salles aborda diz respeito à fidedignidade de nossas lembranças e registros do passado. O que lembramos efetivamente ocorreu na forma como o registramos? É possível um registro objetivo e factual do passado ou o que resta dele é uma inevitável mistura de fatos, fantasias, recriações, imaginações? Quanto foi excluído, calado e negado nas lembranças que restaram do que foi vivido, dos fatos acontecidos?

Desta forma, o filme “Santiago” indaga em que um documentário – e, por extensão, os documentos históricos – efetivamente se diferenciam da ficção.

O que está implícito no tratamento da memória e do passado é o tempo e sua passagem, causadora de perdas e mortes. Tanto o mordomo Santiago como o diretor Moreira Salles lembram, têm consciência da fugacidade de tudo e da presença incontornável da morte. Várias vezes, Santiago diz – “estão todos mortos!”. E é justamente a consciência e a aceitação das perdas implícitas na morte o que permite a criação de uma obra de arte, que resgata do esquecimento o passado.

Os problemas ligados à memória interessam de perto a psicanálise, tanto em sua vertente pessoal como histórica.

A distância entre a realidade material e a memória dela guardada é sempre grande devido as inevitáveis repressões de tudo aquilo que provoca desprazer e dor, o que provoca distorções de diversa intensidade.

Numa análise pessoal, o sujeito tem oportunidade de se confrontar e entender os motivos de suas repressões e distorções concomitantes de sua memória, podendo recuperar e integrar elementos até então desconhecidos de sua história.

No plano coletivo e social, os processos de desconstrução também permitem a recuperação de elementos da realidade social que foram escamoteados em função de jogos do poder, que reprime e tenta excluir tudo aquilo que o coloca em risco.

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