Considerações psicanalíticas sobre o conto “O desenho do tapete”, de Henry James

Considerações psicanalíticas sobre o conto “O desenho do tapete”, de Henry James (*)

Sérgio Telles

Henry James (1843-1916), escritor norte-americano que viveu muitos anos na Inglaterra, é um dos mestres da língua inglesa e sua extraordinária obra foi muitas vezes equiparada à de Proust. Em ambos autores se evidenciam a densidade da compreensão psicanalítica do caráter e dos conflitos vividos pelos personagens, a aguda descrição das condições socioculturais, além da ininterrupta reflexão sobre arte, a condição do artista e o próprio ato de escrever.
Seu pai, Henry James Sr., também era escritor, assim como seu irmão William James – famoso por seus estudos psicológicos sobre a consciência – e sua irmã Alice, que num diário deixou vislumbres do que era viver nessa família tão letrada .
“O Desenho do Tapete” é um conto que gira em torno de tema caro a Henry James, o oficio do escritor, a luta para a construção de uma obra, a relação da mesma com o público.
O narrador, cujo nome permanece desconhecido até o final, é um jovem com pretensões literárias e admirador de Vereker, o escritor que faz grande sucesso em Londres naquele momento. Sua obra é complexa e possibilita discordantes leituras, motivo pelo qual muitos se dedicam a estudá-la e interpretá-la. Como o narrador, seu melhor amigo Corvick também se dedica à obra de Vereker e pretende escrever um trabalho que, de forma definitiva, esgotaria as polêmicas em torno da mesma; como não pode se empenhar nessa empreitada imediatamente por ter de realizar uma viagem, delega a missão ao narrador, que de bom grado a assume, dedicando-se com afinco ao trabalho e escrevendo um apanhado crítico que é publicado numa revista literária de prestígio. Numa feliz coincidência, é convidado para passar o final de semana na casa de campo de uma amiga que também havia convidado Vereker. O narrador se aproxima do escritor e percebe que ele não lera o texto, que está numa das revistas à disposição dos hóspedes. Durante o café da manhã, a anfitriã chama a atenção de todos, dizendo ter lido o artigo e ter gostado muito, pois nele estavam expressas de forma clara todas suas impressões sobre Vereker que ela mesmo nunca soubera formular. Ela insiste para que o escritor o leia e o comente no dia seguinte, sem saber que o autor do artigo estava ali presente e era um de seus convidados.
Ansiosamente o narrador espera o dia raiar, julgando que ouviria elogios de Vereker à sua crítica, grato que estaria por ter sido objeto de uma leitura perspicaz que desvendava os meandros e sutilezas de sua obra. Para sua decepção, Vereker ridiculariza o artigo, dizendo ser apenas mais uma das bobagem publicadas a seu respeito. Mesmo ferido em seu orgulho, o narrador faz saber que é o autor do texto desprezado. Vereker pede desculpas por sua involuntária grosseria e diz que se sente muito infeliz, pois apesar de tentar deixar muito claro em sua obra os objetivos artísticos que o guiam, constata que até o momento não conseguiu se fazer entender, como bem ilustrava o artigo do narrador, que, apesar de inteligente e articulado, não atinara com o “desenho do tapete”, as linhas gerais que sustentam o arcabouço de seus livros. Apesar de ficar encantado com a atenção que Vereker lhe dedica, o narrador fica acabrunhado e com redobrado empenho propõe-se a empreender novos esforços para desvendar o segredo dos escritos do autor, no que é vivamente desencorajado por Vereker.
O narrador avisa de seu fracasso para Corvick, que havia voltado da viagem onde cuidara da mãe de sua namorada Gwendolen, que, com sua doença, impedia a concretização do casamento da filha com Corvick devido a pobreza deste. O amigo o acusa de não ter se esforçado o bastante na tarefa e declara que ele mesmo a realizará durante a longa viagem de negócio que fará pela Índia, quando terá tempo disponível para tanto. Ficando em Londres, o narrador se aproxima de Gwendolen, também grande conhecedora da obra de Vereker, e juntos acompanham o desenvolvimento do trabalho de Corvick através de suas cartas.
Em certo momento, o narrador recebe um convite de Vereker, que reitera suas opiniões sobre a incompreensão de sua obra e pede sigilo sobre o que lhe dissera, pois não gostaria que o teor de suas confissões fosse difundido. O narrador pede desculpas e diz ter relato suas conversas para Corvick e Gwendolen. Vereker diz não ter importância, especialmente porque – por ser mulher – ela jamais poderia desvendar os mistérios de sua obra. Vê-se que na opinião dele, as mulheres em geral e alguns homens não teriam como entender sua obra.
Depois de uma impaciente espera por parte do narrador e Gwendolen, finalmente Corvick afirma laconicamente, numa carta para a namorada, ter desvendado o segredo da obra de Vereker e estar fascinado com a descoberta. Com a curiosidade espicaçada, ambos querem que ele lhes conte imediatamente o que descobriu. Mas, para frustração dos dois, Corvick diz que só o dirá pessoalmente, quando voltar de sua longa estada no exterior. Frente a insistência de Gwendolen, Corvick diz que só poderá contar para ela olhando-a nos olhos e depois de casados, o que exclui, é claro, o narrador.
Antes de retornar da Índia para a Inglaterra, Corvick passa por Veneza, onde Vereker está morando. Este o recebe e, ao ouvir o relato de seus estudos, fica emocionado e grato ao ver que finalmente alguém o havia entendido plenamente. O “desenho do tapete” havia sido finalmente reconhecido.
Nesse ínterim, morre a mãe de Gwendolen, que, vendo-se livre, parte para encontrar Corvick em Veneza, onde se casam. Infelizmente, num passeio durante a lua de mel, Corvick sofre um acidente e morre.
Quando, tempos depois, a viúva volta para Londres, o narrador passa a visitá-la como amigo e companheiro no interesse pela obra de Vereker, sempre na expectativa que ela lhe conte o que Corvick havia descoberto. Como ela nunca aborda o assunto e tendo esgotado sua paciência, o narrador pergunta-lhe diretamente sobre a tão bem guardada informação sobre Vereker. Para sua surpresa e decepção, Gwendolen diz que jamais lhe dirá, apesar de usufruir desse conhecimento, de vivê-lo no seu dia-a-dia.
Ele se pergunta se deveria se casar com Gwendolen para que ela pudesse lhe revelar o segredo, desde que assim fizera Corvick. Curiosamente, o narrador não toma essa iniciativa, apesar das circunstâncias favoráveis – o fato de considerá-la bonita e inteligente, compartilharem a devoção por Vereker e o ter ela ficado muito rica com a herança da mãe.
Como a polêmica sobre a obra de Vereker persiste, um outro escritor, considerado pelo narrador como uma figura de menor importância, resolve também escrever sobre o autor, que então já havia falecido. Tal escritor se casa com Gwendolen e o narrador fica imaginando que ela lhe contara o segredo que lhe estava para sempre vedado. Gwendolen, por sua vez, falece no segundo parto deixando para o marido sua fortuna. O narrador fica esperando que na obra medíocre do viúvo surjam os indícios da descoberta de Corvick. Como isso não acontece, ele finalmente o aborda e pergunta o que ele sabia sobre Vereker e as descobertas de Corvick. Para a perplexidade de ambos, o homem desconhecia completamente o assunto e fica acabrunhado ao tomar conhecimento de que ficara excluído do que teria sido o elemento mais importante da vida de sua mulher. Nada mais resta ao narrador do que o prazer dessa pequena vingança ao inocular no viúvo as mesmas insatisfação e frustração que o consomem, forçado que está de se conformar com a impossibilidade de tomar conhecimento daquilo que tanto gostaria de saber.
James estrutura seu conto em torno de um segredo inexpugnável, um enigma a ser descoberto, algo paradoxalmente à vista de todos e mesmo assim não percebido, não reconhecido. Desenvolvendo o enredo através de sinuosos avanços e retrocessos, em meio a infindáveis adiamentos, sua técnica literária faz com que personagens e leitores fiquem submetidos àqueles que são os detentores do segredo, que os obrigam a uma longa espera, numa postergação infindável que desemboca na impossibilidade de acessar o conhecimento ansiosamente aguardado.
Um olhar psicanalítico capta alguns indícios camuflados deixados por James. Em primeiro lugar, chama a atenção que o segredo não pode ser transmitido por aqueles que o conhecem. Vereker, Corvick e Gwendolen não divulgam seu teor, mesmo quando solicitados. O segredo tem de ser descoberto num esforço, numa vivência pessoal e intransferível. Em segundo lugar, fica evidente que há no segredo algo ligado à sexualidade e à morte. Vereker afirma que uma mulher jamais poderia descobri-lo. Corvick diz para Gwendolen que só poderá compartilhá-lo com ela depois de casados. A incapacidade de seduzir Gwendolen depois da morte de Corvick apontaria para uma inibição, senão uma impotência, por parte do narrador. Sua inépcia permite que outro pretendente a arrebate de suas mãos, casando-se com ela, procriando e herdando sua fortuna. E parece haver algo letal no segredo, pois todos os que o conhecem morrem, sendo que as mortes de Corvick e de Gwendolen estão diretamente ligadas ao sexo – ele falece durante a lua de mel, ela no parto do segundo filho.
Que seria esse segredo ao mesmo tempo exposto e não sabido, ligado à morte e a sexualidade? Sabemos que esses dois elementos estão profundamente interligados na tragédia edipiana. Seria o conto algo como uma memória encobridora, uma elaboração secundária, uma forma de representar a maneira como as crianças se posicionam frente ao mistério do falo, da diferença sexual, da castração, da sexualidade sua e dos pais?
Essa hipótese fica mais fácil de ser articulada se entendermos o narrador como o personagem central do conto. Por não ter conseguido atravessar adequadamente o édipo e a castração, o narrador fica nas antessalas da sexualidade adulta, impossibilitado de deter o falo e tomar posse do desejo masculino. Preso na cena primária, fixado eroticamente à figura paterna, limita-se à escoptofilia, esperando que os homens lhe ensinem aquilo a que não tem acesso. Excluído do perigoso mas incontornável jogo do amor, dos embates com a vida e sua finitude, fica na ignorância do “desenho do tapete”, mas também escapa da morte.
As declarações de Vereker levam a crer que o segredo tem algo a ver com a masculinidade. Ele estaria falando da potência fálica, que ele e Corvick detêm e que está ausente nas mulheres (elas não a entendem, mas podem dela usufruir – como diz Gwendolen para o narrador) e em alguns homens (como o narrador, que nem ao menos tenta conquistar Gwendolen, quando supostamente tinha tudo para fazê-lo).
As teorizações atuais mostram uma compreensão mais complexa do falo na economia das diferenças de gênero, mas James aqui paga tributo a seu tempo, quando o poder patriarcal era incontestável.
Kanzer lembra que Vereker, Corvick, Gwendolen e o narrador podem evocar a constelação familiar de James. Esses personagens seriam os representantes de seu pai, James Sr, e dos irmãos William e Alice, ficando ele mesmo na posição do excluído das preferências paternas. James Sr e William, que escreviam sobre teologia, filosofia e psicologia, consideravam a escrita literária à qual Henry se dedicava como algo irrelevante, sem importância .
A disputa em termos das diferentes escritas, na qual o pai e o irmão William se apoiam e rejeitam a produção de Henry, esconderia algo mais profundo ligado ao campo das identificações. Henry se sente excluído pelo pai, que acolhe apenas o irmão William no universo masculino.
De fato, a importância do aval (paterno) de Vereker é decisivo nas escolhas do narrador. Ao se ver não reconhecido e desencorajado pelo escritor em seus esforços para entender sua obra (o universo masculino), desiste de continuar tentando e passivamente espera que Corvick realize aquilo em que fracassou. É significativo que a consumação da relação amorosa de Corvick com Gwendolen ocorra imediatamente após a aprovação (confirmação da masculinidade) de Corvick por Vareker. O ciclo se fecha com sua morte no acidente.
Não apenas o narrador é um homem impotente e castrado, impossibilitado de deter o falo. O mesmo se dá com o viúvo de Gwendolen, e de modo ainda mais radical. Ele teve a posse física da mulher, mas ela não lhe entregou o mais precioso, o conhecimento, o amor. O embate final entre ele o narrador, é um pequeno triunfo que este consegue amealhar, induzindo o viúvo a vivenciar os mesmos sentimentos de inferioridade aos quais se via condenado.
Até aqui levantamos a hipótese de que o conto poderia ser uma elaboração secundária sobre as teorias sexuais infantis, a curiosidade frente a sexualidade dos pais, o acesso ou a interdição ao falo.
Veremos agora o que o conto nos fala sobre a criação artística. Como foi dito, o leitor passa pelo mesmo suplício do narrador, mas ainda mais agravado, pois enquanto esse conhece a obra de Vareker e pode especular sobre seus sentidos ocultos, o leitor está no escuro, nada sabe a respeito dela. O que está em jogo é a relação entre o autor, a obra e o leitor. Aquilo que o autor considera o mais valioso e importante em sua obra coincide com a apreciação da mesma pelo leitor? Veja-se que Vereker era um autor extremamente reconhecido e bem-sucedido, louvado pela crítica e pelo público, e, no entanto, dizia com todas as letras que ninguém tinha entendido sua obra, ou seja, os motivos pelos quais ficara famoso e importante nada tinham a ver com aquilo que ele próprio valorizava e prezava em seus escritos.
A questão proposta por James é extremamente atual, presente em Derrida e Barthes. O autor não tem controle total sobre sua obra nem pode determinar como o leitor deve entendê-la, pois ele próprio desconhece as motivações inconscientes que se juntaram às conscientes no momento em que a produzia. Por isso a obra sempre dirá mais (e menos) do que o pretendido pelo próprio autor. Ela será analisada e desconstruída pelos leitores, que nela descobrirão conteúdos ignorados pelo próprio autor.
Assim, provavelmente Henry James ficaria muito surpreendido com a leitura que propomos aqui de seu conto.
A criação da obra de arte é um mistério para o público, como já dizia Freud ao citar o cardeal Ippolito d´Este interpelando Ariosto, mas o é também para o próprio criador. Ele tampouco sabe de onde lhe vem a inspiração assim como ignora de que modo sua obra será recebida pelo público.

(*) Publicado em Psychiatry on line, novembro 2016

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