Cabeça de Medusa, de Caravaggio

Cabeça de Medusa, de Caravaggio (*)

Sérgio Telles

Como expor obras-primas? Como educar o grande público para a importância do inestimável acervo artístico-cultural guardado nos museus? Como transmitir para as novas gerações esse legado e fazê-las respeitá-lo, admirá-lo, preservá-lo para as que virão no futuro?

Questão central que ocupa os responsáveis pelos museus e que me veio à cabeça ao ingressar na soturna montagem da exposição do Caravaggio.

Seria realmente necessária aquela solenidade sombria que evoca o temor reverencial com o qual se ingressa em lugares sagrados? Seria a melhor forma para facilitar o contato do público com as obras, ou se estaria criando uma mistificação que intimida, afasta e inibe qualquer proximidade afetiva com o mundo mental do artista e o talento com que soube representá-lo? Seria assim que se constrói uma ponte entre o gênio do barroco italiano e adolescentes do Terceiro Mundo que – provavelmente cumprindo com obrigações escolares – vão ali para vê-lo?

Com seus ares funéreos, a exposição não celebra o mistério da criação presente na obra de um grande artista, que deveria ser motivo de regozijo para todos nós, na medida em que ela aponta para a vida e o triunfo do gênio humano sobre a destruição e a morte.

É certo que obras antigas e valiosas como as de Caravaggio devem ser protegidas contra uma iluminação inadequada ou excessiva, mas isso não justifica o clima lúgubre da mostra.

De qualquer forma, não se pode negar que é um privilégio poder ver quadros tão representativos. Particular interesse me despertou a Cabeça de Medusa.

Uma das três irmãs górgonas, Medusa tinha serpentes como cabelos e seu aspecto aterrador petrificava quem a olhasse. Contando com a ajuda dos deuses, Perseu a matou e decapitou. A cabeça de Medusa manteve o poder de aterrorizar e com esse fim foi usada por Perseu contra seus inimigos até o momento em que a ofertou para a deusa Atena, que a colocou em seu escudo, deixando-o ainda mais eficaz. Foi na condição de decapitada e aposta ao escudo de Atena que Caravaggio escolheu representar Medusa e não no vivo exercício de sua monstruosidade.

Embora conhecesse a pintura por reproduções, ao vê-la diretamente percebi algo que até então me passara despercebido – a expressão aterrorizada de Medusa, oposta à expressão aterrorizadora que deveria exibir e que era a que eu esperava. Essa considerável mudança de perspectiva me levou a pensar que Medusa não só aterrorizava os que a olhavam, mas que ela também se horrorizava consigo mesma. Ao contrário dos seres que se comprazem com a própria maldade, exercendo-a sem conflitos ou impedimentos, Medusa teria consciência de sua monstruosidade e com ela se assustava. Assim como há grandes criminosos e psicopatas que não se abalam com seus próprios atos execráveis, há outros que não conseguem evitar realizar coisas que consideram monstruosas, o que os jogam em abismos da culpa. Medusa estaria nessa categoria. Ao pintá-la assim, Caravaggio lhe dava uma dimensão psíquica mais rica e ambígua.

Mas logo lembrei que a Medusa de Caravaggio é a do escudo de Atena, ou seja, morta e decapitada. Então, aquela expressão aterrorizada em seu rosto não provinha da consciência de própria monstruosidade, e sim do encontro com a morte ao ser decepada por Perseu.

Caravaggio propõe uma Medusa aterrorizada e não aterradora, mais próxima da humanidade, com ela compartilhando o medo da morte. Como mesmo aterrorizada mantém seu poder de aterrorizar, isso derivaria não tanto da monstruosidade que a distancia dos homens e sim da proximidade com eles, por mostrar o pavor da morte, comum a todos os mortais.

Enquanto divagava sobre as razões de a Medusa de Caravaggio parecer aterrorizada ao invés de aterrorizante, não perdia de vista a clássica e engenhosa interpretação de Freud sobre esse assunto. Para Freud, o pavor provocado pela visão da cabeça de Medusa reside no complexo de castração.

As crianças elaboram teorias para explicar as diferenças anatômicas entre os sexos. Partem do princípio de que todos os adultos, homens e mulheres, têm um falo. Não se importam com o fato de muitas delas – as meninas – não o exibirem, pois acreditam que se ele não está visível, é porque – tal como os dentes, que antes não existiam em suas bocas e a partir de um determinado momento apareceram, o mesmo acontecerá com o falo. Essa crença desmorona de forma traumática quando se deparam com o genital de uma mulher adulta, habitualmente a mãe. A constatação da ausência do falo não é entendida como algo natural e sim como efeito de uma castração, o que dá a essa visão a conotação aterrorizante.

É justamente a visão traumática do genital “castrado” da mãe, o terror de ver a ausência do falo, o que o mito da Cabeça de Medusa simboliza, usando para tanto de determinados mecanismos inconscientes.

Em primeiro lugar, há o chamado “deslocamento para cima” – experiências sensoriais e afetivas fortemente carregadas que ocorrem abaixo da linha da cintura, ou seja, na região sexual, são deslocadas para regiões mais “indiferentes” acima da cintura, como o rosto. Dessa maneira, a face passa a representar os genitais e os cabelos (no caso de Medusa, as serpentes), representam os pelos característicos daquela região do corpo.

Em segundo lugar, se a visão aterradora foi a ausência do falo no corpo da mulher, a Cabeça de Medusa oferece uma transformação no oposto: vê-se uma grande quantidade de falos-serpentes afirmando não ser verdade que a mulher não tem falo, ela os tem em quantidade. Ainda assim, no fato de ser uma cabeça decapitada de mulher, retorna o reprimido, a temida e negada castração.

A petrificação causada pela visão da cabeça tem um duplo significado. Por um lado, representa a ameaça de morte com o que a castração é equiparada. Mas também simboliza o contrário, pois evoca a ereção, temerária reafirmação do pênis em desafio à castração.

Sob esse prisma, minhas observações anteriores adquirem outra conotação, pois se Medusa aterroriza os homens ao lembrar a castração, isso não impede que ela mesma, enquanto mulher, fique aterrorizada em se ver “castrada”, para sempre enredada na inveja do pênis.

A compreensão freudiana da Cabeça de Medusa é um belo exemplo da interpretação de conteúdos inconscientes presentes em mitos e obras de arte, disfarçados pelos processos simbólicos.

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo”  em 15/09/2012

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