Bispo na Bienal

Bispo na Bienal (*)

Sérgio Telles

Talvez se confunda a criatividade do gênio e do artista com as excentricidades do louco, porque nenhum deles segue à risca as convenções sociais compartilhadas pela maioria. Mas a loucura supostamente impede a criatividade, pois a mente do psicótico está comprometida por mecanismos defensivos que impedem seu livre funcionamento, restringindo-o a padrões rígidos e estereotipados, dos quais o modelo maior é o delírio, crença inabalável e impermeável às críticas e às considerações racionais. À liberdade e flexibilidade criativa do artista se contraporia a rigidez imutável do delírio.

Mesmo assim, constatou-se que os loucos também criam. No início do século 20, a produção de doentes mentais internados em grandes asilos e instituições psiquiátricas europeias começou a ser notada e valorizada por críticos e conhecedores de arte.

Haveria uma essencial diferença entre a arte produzida pelos doentes mentais e aquela realizada por criadores reconhecidos como artistas pelo grupo social ao qual pertencem? A questão é interessante, pois a produção dos doentes mentais nasce distante de qualquer conhecimento dos pressupostos estéticos e seus autores não têm pretensão nenhuma de cunho artístico, querem simplesmente expressar de forma plástica seus estados mentais, as ideias e afetos presentes em seus psiquismos. O curioso disso tudo é que, em assim fazendo, por um lado, alguns terminam por criar soluções visuais de grande apuro formal, e, por outro, expressam com frequência elementos míticos dos quais eles mesmos não tinham conhecimento, o que dá provas da universalidade dos conteúdos inconscientes da mente humana.

Esse tipo de produção foi inicialmente chamado de “arte psicopatológica”. O caráter discriminatório dessa denominação foi reconhecido nos anos 50 pelo pintor francês Jean Dubuffet, que o substituiu por “art brut”. Mais recentemente (1972), o crítico inglês Roger Cardinal propôs o termo “outsider art”, de abrangência maior, pois nele inclui várias outras manifestações excluídas do mercado convencional de arte.

Um bom exemplo dessa questão é a obra de Bispo, agora exposta na Bienal. Sua visão provoca um choque no observador e remete irrevogavelmente à sua biografia, às condições pessoais em que a produziu – a loucura, o confinamento institucional, a limitação de recursos. Expressão direta de seu delírio, a obra tinha para ele mesmo a função utilitária de ajudá-lo no fim dos tempos, ocasião em que se encontraria Deus e lhe prestaria contas do mundo, daí seu caráter inventariante.

É fácil nela rastrear os vestígios da psicose. A fragilidade e a desestruturação de seu psiquismo, que se evidenciam na falência de sua identidade, reconstruída delirantemente no registro místico e megalomaníaco, estão presentes em muitas de suas criações. A compulsão a ordenar e classificar os elementos materiais à sua volta, remeteria ao desejo de superar o caos interno de sua vida mental. Mais tocante é o grupo de objetos revestidos por fios, os bordados e a escritura em tecidos. Entre várias interpretações possíveis (cobrir a “nudez” dos objetos, protegê-los contra a destrutividade, etc.), prefiro pensar que o revestimento representa a defesa simbólica para um ego que ameaça desfazer-se, desorganizar-se, dissolver-se, e que, portanto, precisa ser protegido, contido, nem que seja por essa pobre armadura fabricada com tênues fios. Quem sabe, dotado assim de uma pele ou casca que o deixe mais firme e consistente, esse ego consiga resistir melhor às intempéries da vida. O bordar imagens e palavras me fazem pensar em sua tentativa de fixar sentidos, sinais e signos que ameaçam escapar e desaparecer. As catalogações e descrições de objetos parecem indicar a necessidade de recolher e fixar o evanescente significado das coisas, num incansável trabalho de tecer e bordar, para prendê-lo de forma mais concreta e confiável do que a mera escrita em papel poderia oferecer. Uma batalha sem tréguas visando a reter os restos de uma realidade assolada por grandes ondas de delírio. É como se Bispo se agarrasse com desespero aos objetos que produzia para manter-se minimamente lúcido, para não soçobrar de vez no mar da insanidade.

O observador capta na obra a dimensão trágica dessa luta pela sobrevivência psíquica. Nela há um comprometimento total, a expressão de algo imprescindível, urgente, uma torrente que não pode ser impedida de fluir.

Confrontado com a criação de Bispo e o contexto da própria Bienal, fica difícil não concordar com um comentário de Dubuffet sobre “art brut”: “Aqueles trabalhos criados a partir da solidão e de impulsos criativos puros e autênticos – nos quais as preocupações com a competição, o reconhecimento e a promoção social não interferem – são, justamente e por causa disso, mais preciosos do que a produção de profissionais. Depois de alguma familiaridade com essas manifestações de febril exaltação vivida tão completa e intensamente por seus autores, não podemos evitar o sentimento de que, em relação como essas obras, a arte cultural em sua totalidade se assemelha a um jogo de uma sociedade fútil, um falacioso desfile”.

De fato, percorrendo as demais dependências da Bienal, percebem-se as consonâncias da obra de Bispo com parte da produção atual, mas não se encontra com facilidade a gravidade e intensidade impostas por ele à sua criação. Pelo contrário, tem-se uma impressão geral de que a criação artística assume uma faceta lúdica, virou uma piada contada à exaustão. Se, por um lado, essa atitude desmistifica a excessiva reverência que cerca a “grande arte”, levada ao exagero cai no erro oposto – a avacalhação generalizada de todos os referenciais, uma superficialização temática, a autocomplacência e autocondescendência do artista que cria gadgets, bugigangas e quinquilharias aos quais atribui um valor estético e uma profundidade conceitual que dificilmente se justificam e que não se sustentam, a não ser como sintomas de um momento de completa anomia. Mas essa é apenas a impressão de um mero curioso no assunto.

Para mim, a obra de Bispo propõe um enigma difícil de decifrar – quanto do forte impacto por ela causado decorre de sua conotação “psicopatológica” e quanto se deve às suas intrínsecas qualidades artísticas?

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo” em 10/11/2012

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