A massa e o artista frente ao lider

A exposição de  Gil Vicente na Bienal 2010

É inequívoco o teor político de “Inimigos” trabalho de Gil Vicente agora exposto na Bienal.  São “auto-retratos” do artista matando Lula, FHC, Rainha Elizabeth, Papa Bento XVI, Kofi Annan, Eduardo Campos, George Bush, Ariel Sharon, Jarbas Vasconcelos. Essa dimensão polêmica fica agora potencializada por coincidir sua exposição com o momento pré-eleitoral.

gil vicente

De fato, estas circunstâncias dão mais força a algumas imagens, como a de Lula sendo garroteado pelo artista e prestes a ser por ele degolado. Não poderia ser mais gritante o contraste que ela estabelece com a tão apregoada popularidade do presidente, que lhe garante 80% de aprovação dos eleitores.

Poderíamos ver este contraste como um exemplo da diferença entre o funcionamento psíquico próprio das massas em oposição à forma de pensar do sujeito fora das massas. A psicologia das massas se caracteriza por sua  identificação com um líder que ocupa o lugar de figuras paternas idealizadas. Isso faz com que as massas adotem uma postura infantilizada frente ao líder, que é visto como um “pai” ou uma “mãe” que as protege e conduz, fantasia inconsciente muitas vezes deliberadamente manipulado pelo poder.  Já o sujeito fora das massas – e ninguém mais que o artista para representar esta condição – mantém o espírito critico frente ao líder e, apesar de não estar isento de nele também fazer projeções, pode vê-lo com mais objetividade.  Para ele, tais “pais”ou “mães”são vistos como “inimigos” a serem “eliminados”. Ou seja, para o artista, a sociedade não deve ser regida por “pais” e “mães” onipotentes e sim por cidadãos como ele, a quem delega temporariamente o poder e de quem exigirá uma prestação de contas no seu devido tempo.

Em nosso caso brasileiro, à primeira vista podemos pensar que a posição infantil, dependente e acrítica das massas se deve a sua indiscutível ignorância. Tal idéia logo se mostra insustentável ao lembramos que esta mesma atitude foi tomada pelas massas letradas e instruídas da Europa frente a Mussolini e Hitler, no século passado.  A popularidade do líder depende dos elementos psíquicos inconscientes já mencionados, reforçados por fatores advindos da realidade sócio-econômico-cultural.

Mas a dimensão política dos “Inimigos” não pode ser confundida como uma estreita atitude panfletária ou partidária. O variado espectro ideológico dos lideres “assassinados” pelo artista mostra que o que está em jogo é algo maior, é a revolta crítica contra o poder instituído e seus infindáveis desmandos, é o cansaço e a saudável intolerância com os embustes e fraudes que se escondem nas pompas e circunstâncias que envolvem os mandatários.

A identificação daqueles que estão no exercício do poder com figuras paternas faz com que a observação dos “Inimigos” possa evocar nos espectadores a fantasia do assassinato do pai.

Tal fantasia ocupa lugar central na teoria psicanalítica, sendo detalhadamente explorada nas elaborações sobre o Complexo de Édipo (processo que estrutura o sujeito) e em “Totem e Tabu”(mito antropológico de larga envergadura criado por Freud para explicar a gênese da cultura).

De certa forma, podemos dizer que nestes dois momentos, o assassinato do pai tem conotações diferentes. No Complexo de Édipo, o pai é o rival frente ao objeto de desejo (mãe) e agente da interdição do incesto, o que possibilita o crescimento do filho, além de ser para ele um modelo identificatório. Em “Totem e Tabu”, o pai da horda primitiva é a encarnação da onipotência narcísica que impede o desenvolvimento dos filhos, vistos por ele como rivais a serem eliminados. Se o assassinato do pai teria efeitos catastróficos no Complexo de Édipo, em “Totem e Tabu” ele é a condição necessária para o aparecimento da lei, da religião, da moral e da organização social, pois ao assassinato se sucede a culpa dos filhos, o que leva à internalização das leis do pai morto.

Se temos este modelo freudiano em mente, a obra de Gil proporcionaria ao expectador uma dupla gratificação. Satisfaria seus desejos edipianos de matar o pai enquanto rival frente a mãe, ao mesmo tempo que remete ao assassinato do pai primevo, o tirano possessivo e violento que impõe seu desejo sem restrições, pois a lei só será instaurada após (e em função de) sua  morte.

Diríamos que os poderosos que Gil Vicente “assassina” não são “pais edipianos”, portadores e mantenedores da lei. Os políticos estão bem mais próximos dos “pais da horda primitiva”, onipotentes e vorazes usurpadores que se colocam num espaço acima da lei e que vêem o poder como a oportunidade para dar vazão ao narcisismo mais predatório.

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