75 folhas – o último manuscrito de Proust

75 folhas – o último manuscrito de Proust

Sérgio Telles

Em abril próximo passado, a Editora Gallimard publicou o derradeiro texto inédito de Proust, o rascunho mais antigo do que viria a ser o “Em busca do tempo perdido”.
Vem de longe a história desse manuscrito. Ao morrer em 1922, Proust deixou seus papeis para o irmão Robert. Em 1949, sua sobrinha Suzy Mante-Proust delegou ao editor Bernard Fallois da Gallimard a tarefa de garimpá-los e dali surgiram dois livros póstumos: em 1952, “Jean Santeuil” – um longo romance inacabado, com fortes elementos autobiográficos e a temática que seria desenvolvida na obra final; em 1954, “Contre Sainte-Beuve”, conjunto de ensaios e narrativas em que Proust polemiza com o crítico literário Sainte-Beuve. No prefácio do segundo livro, Fallois menciona a existência de 75 folhas com o primeiro esboço do romance monumental. Mas quando, anos depois, Mante-Proust doou todo o acervo para a Biblioteca Nacional da França, elas não faziam parte do conjunto. Houve uma grande decepção e temeu-se que elas tivessem se extraviado ou que nunca tivessem existido, a não ser na mente de Fallois. Com sua morte em 2018, as 75 folhas foram encontradas em seu espólio. Porque teria Fallois mantido por tanto tempo e em segredo a posse do manuscrito, frustrando as expectativas e a curiosidade dos estudiosos?
Nas 75 folhas, a matriz biográfica de “Em busca do tempo perdido” é explicita, pois muitos dos personagens mantêm os nomes verdadeiros. O narrador se intitula Marcel e fica claro que vários personagens foram transpostos diretamente da realidade para o livro, outros são compostos com as características de diversas pessoas de seu relacionamento.
Conhecedores apontam que nestas 75 páginas, Proust explicita algo que fica escamoteado na obra final – sua condição de judeu. São ali expostos os sobrenomes do lado materno – Berncastel e Weil, característicos de judeus da Alsácia. É verdade que a judeidade ocupa lugar proeminente na obra consumada, como mostram dois importantes personagens, Swann e Bloch, perfeitos antípodas. Swann é o judeu rico e sofisticado, bem recebido nas casas mais exclusivas e que não se intimida com a arrogância da aristocracia, Bloch é o judeu envergonhado das origens e subserviente frente aos poderosos, que termina por trocar de nome, assumindo uma falsa condição de nobre francês. A judeidade está ainda presente nas menções ao caso Dreyfus, que galvanizou a sociedade francesa na época. Mas, assim como com a homossexualidade que permeia o romance, especialmente através de Charlus e Jupien, o narrador em nenhum dos casos se implica diretamente, descrevendo-as como um observador externo. Mitchell Abidor pensa que o manuscrito agora publicado permite concluir que a figura ridicularizada de Bloch, equiparado por Proust a uma hiena, seria uma autocaricatura.
O manuscrito estabelece de forma cabal a importância decisiva da biografia na obra de Proust, muito embora essa é uma questão sobre a qual não restassem dúvidas. Justamente nesse ponto, a disputa de Proust com Sainte-Beuve é significativa. Falecido dois anos antes do nascimento de Proust, Sainte-Beuve estabeleceu os parâmetros da crítica literária tal como a conhecemos. Um procedimentos hoje corriqueiro, como estabelecer ligações entre a biografia e a obra do autor, foi uma inovação criada por ele, saudada pelos contemporâneos como uma atitude “cientifica”, pois transpunha para o mundo cultural (os estudos sobre a criação literária), métodos próprios da história natural, constituindo assim uma “botânica literária”. Com isso, Sainte-Beuve jogava luz num território fantasmagórico, até então ocupado por “musas” e “inspirações”.
Proust alegava que Sainte-Beuve desconhecia que, ao lado do “eu superficial” presente no convívio social, há um “eu profundo” do escritor, que vive apenas em sua arte. George D. Painter, autor da biografia definitiva de Proust, diz que, no final da vida, provavelmente o escritor teria reconhecido a correção das observações do crítico.
É compreensível o desconforto de Proust com a tese de Sainte-Beuve sobre a importância da biografia do autor para a compreensão de sua obra, pois todo seu projeto literário poderia ser considerado como uma evidência da justeza da opinião do crítico, mas, se levada ao pé da letra, tal tese o reduziria à expressão mais simples e vulgar, anulando a transcendência implícita pretendida pela obra, que não é apenas um mero registro factual do vivido e sim uma complexa recriação do mesmo, ampliando-o e universalizando-o, seguindo critérios estéticos e necessidades internas da obra e não as exigências da verdade biográfica.
As relações entre biografia do autor e obra literária, trazidas mais um vez à tona com a publicação de “75 folhas”, é um tema inesgotável e sempre atual, como mostram as discussões sobre a roupagem mais nova que o reveste, a autoficção.

(Publicado no caderno EU&FS do jornal Valor Econômico em 20/08/2021)