“Voyeur” (2017), documentário de Myles Kane e Josh Koury

Voyeur (2017), documentário de Myles Kane e Josh Koury

Sérgio Telles

Encontra-se disponível no Netflix o documentário Voyeur (2017), de Myles Kane e Josh Koury, centrado no imbróglio causado pelo último livro de Gay Talese, The Voyeur´s Motel (2016).
Gay Talese é escritor norte-americano de grande prestígio, um dos criadores do New Journalism, como Truman Capote, Joan Didion e Norman Mailer. O New Journalism é uma forma literária de jornalismo na qual o jornalista se envolve pessoal e profundamente com o tema que trabalha e onde, apesar de supostamente privilegiar a “verdade” acima dos “fatos”, os limites entre ficção e realidade perdem a nitidez e talvez até mesmo a relevância, pois o que importa mais é a qualidade estética do texto. Isso é o contrário da prática usual, quando o jornalista colhe a informação da forma mais objetiva possível, mantendo-se neutro, sem deixar que suas opiniões intervenham no teor da escrita.
Talese é autor de inúmeros best sellers, entre eles o famoso “A mulher do próximo”, (Thy neighbor wife, 1981 e revisado em 2009)
Atualmente com 84 anos,Talese voltou há pouco ao modelo com o qual ficou famoso, acompanhando as experiências de Gerald Foos, um cidadão que dizia ter comprado um motel no Colorado com o fim explícito de observar secretamente os usuários praticando sexo.
Talese afirma que, durante décadas, recebeu correspondência de Foos, que não conhecia, com descrições muito detalhadas do que ele mesmo chamava de suas “pesquisas” e “experiências”, ou seja, sua prática voyerista, chegando a organizar planilhas minuciosas nas quais marcava a frequência e as modalidades sexuais preferidas por seus hóspedes. Ao confessar para Talese suas atividades masturbatórias, visava convencê-lo a escrever um livro no qual ele seria a tema central.
Era óbvio o desejo de fama de Foos. Em seu afã de ser uma celebridade, não tinha crítica de seu comportamento e vencia qualquer constrangimento em expor sua própria perversão, chegando a dizer que queria deixar para os pósteros seu “legado”, como se seu voyeurismo fosse algo valioso, que não poderia ficar desconhecido do grande público nem esquecido pelas gerações futuras.
Sua persistência terminou vencendo a relutância de Talese, que acedeu e se dispôs a escrever o livro. Mantendo seu método de trabalho, procurou Foos e participou com ele de vários episódios de voyeurismo, observando as atividades sexuais dos hóspedes do motel.
Quando o livro estava pronto, para promover sua divulgação, Talese enviou um capítulo da obra para a revista The New Yorker. Por ser polêmico o teor do texto e potencialmente perigoso, desde que o voyeurismo tem implicações legais, como a invasão de privacidade de terceiros, a revista caprichou ainda mais no conhecido rigor com que exerce os procedimentos de aferição da veracidade das informações contidas em suas publicações.
E foi aí que tudo veio abaixo. Constatou-se então que muitas afirmações não procediam, a começar pela mais escandalosa delas. Foos dizia teria presenciado um assassinato enquanto observava a intimidade de um casal e nada fizera: no dia seguinte a faxineira encontrara o corpo e a polícia fora acionada. Esse era um “fato” descrito no livro facilmente verificável, pois se havia ocorrido um assassinato no motel numa data especifica, tudo deveria estar registrado nas delegacias, o que não se confirmou.
A partir daí outras grandes falhas na narrativa se evidenciaram, como a constatação da existência de um sócio que Foos tinha no motel e que nunca fora mencionado por ele para Talese.
O mal-estar decorrente dessas descobertas foi tamanho que Talese, de imediato, renegou o livro, dizendo ter sido enganado e traído em sua boa-fé, jogando toda a culpa em Foos. Passado o vendaval, Talese voltou atrás, disse que tinha exagerado na reação e que, apesar de tudo, seu trabalho era válido.
O documentário “Voyeur” conta essa história. Provavelmente planejado antes do escândalo e prosseguindo durante e depois dele, o filme contem cenas recentes, outras nas quais Foos aparece mais jovem e sendo credulamente atendido por Talese, e umas que mostram reconstruções e simulações, como as que usam maquetes do motel para explicar o modus operandi do voyeur.
Kane e Khoury, diretores do documentário, centram sua atenção não tanto na patologia de Foos e sim na ambivalente posição de Talese durante todo o episódio e, de modo sutil, deixam claro que Talese não é muito convincente em sua argumentação defensiva. Tentando se isentar da acusação de participante da fraude, Talese alega que seu erro foi ter baseado todo seu trabalho em dados fornecidos por uma única fonte, o próprio Foos, sem checá-los com outras. Tal afirmação é problemática, pois seria ela pertinente no tipo de jornalismo que faz? A levar ao pé da letra o que diz, o que o leitor/expectador poderia pensar de seu magnum opus, ”A mulher do próximo”, se ele repousa completa e exclusivamente no seu próprio relato? Teria ele cotejado as informações ali despejadas, sua veracidade teria sido checada?
Mesmo algumas de suas afirmações mais pontuais são difíceis de acreditar, como quando conta um episódio quando acompanhava o voyeur em suas práticas no motel. Segundo relata, estavam dentro do duto de ar condicionado olhando um casal fornicando quando foi advertido por Foos de que sua gravata havia passado através da saída de ar, podendo ser percebida por eles. É algo pouco verossímil. Além do mais, custa a crer que alguém estaria vestido de paletó e gravata dentro de um duto de ar condicionado, mesmo se esse alguém é Talese, reconhecidamente um dândi, um janota, alguém que se veste com apuro um tanto afetado.
Em seu documentário, Kane e Khoury apontam para questões relevantes na atualidade.
A primeira delas diz respeito à relação entre realidade e ficção, verdade e mentira, a forma como as mídias impressa e social (internet) tratam essas categorias. O termo Fake News, popularizado por Trump, dá uma medida do problema. As mídias deveriam estar cônscias de sua responsabilidade social, no sentido de divulgar informações verdadeiras, checadas, despidas de distorções decorrentes de interesses políticos, ideológicos, econômicos etc.
Vemos em “Voyeur” a força da cultura da celebridade, o empenho em ser famoso a qualquer custo, o querer estar na mídia, desejo compartilhado igualmente por Talese e por Foos. O caso de Talese é mais complexo, pois, como jornalista e escritor, procura um outro tipo de fama. Como o documentário mostra, em sua busca pela notoriedade, Talese não hesitou em expor sua intimidade em “A Mulher do próximo”, relatando extensivamente suas vivências durante meses numa colônia de nudismo e sexo grupal, na qual ingressou com o objetivo de colher material para escrever sobre a liberação sexual nos anos 60 e 70, criando possíveis constrangimentos para sua mulher e filhas.
A questão implícita em “Voyeur” é a ética. O que teria acontecido se ao invés de publicar na The New Yorker, com seu severo padrão de aferição de dados, Talese tivesse escolhido uma outra publicação mais descuidada ou mesmo se tivesse lançado diretamente o livro? Teria publicado como verdadeiro um material fraudulento, esperando que as falhas não se fizessem evidentes? Pois, como vimos, é difícil acreditar que as incongruências da narrativa de Foos lhe tivessem passado desapercebidas, desde que trabalhou com essas informações por décadas. Psicanaliticamente falando, poderíamos perguntar: ao escolher para a publicação do capitulo do livro a The New Yorker, conhecida por seu rigor, estaria Talese expressando um desejo inconsciente de que a fraude fosse detectada?
Vemos também em “Voyeur” uma mudança da moral sexual. Há não pouco tempo, um voyeur esconderia sua perversão, teria vergonha do peso social que lhe acarretaria se conhecida publicamente. Foos faz o contrário, a expõe e com isso se revela como exibicionista, pretendendo educar as novas gerações com seus feitos.
Voyeurismo e exibicionismo têm conotações amplas em nossa cultura regida pelas imagens visuais, transcendo o aspecto estritamente sexual. Um setor da indústria do entretenimento se alimenta do voyeurismo do grande público frente a intimidade de famosos e de celebridades. De certa forma, as celebridades são um produto dessa indústria. São elas criadas para fornecerem factoides que espicaçam e satisfazem o apetite das massas, alimentando, de forma circular, a própria indústria que as criou. Digamos que uma revista de fofocas “inventa” uma “celebridade” que vai produzir “notícias” para as páginas da revista, aumentando suas vendas.
“Voyer” dá elementos para desfazer a confusão entre realidade e ficção, entre jornalismo investigativo e criativo (supostamente a proposta de Talese) e a produção de uma farsa ou uma ficção. Mas qual seria efetivamente o interesse do público? Estaria ele preocupado em saber se o relato das aventuras de um voyeur que lê é uma obra de ficção ou um relato de fatos reais?
Nós mesmos, que vemos o documentário, queremos discutir questões ligadas à ética do jornalismo e da literatura, da fraude do que é noticiado como verdadeiro, da distorção dos fatos em função de interesses variados? Ou, independente da veracidade ou não do que vemos, o que esperamos secretamente é gozar voyeristicamente com a sexualidade de um exibicionista?

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