Sobre “Julieta”, de Almodóvar

Sobre JULIETA, de Almodóvar (*)
Sérgio Telles

“Julieta”, o último filme de Almodóvar se afasta completamente dos excessos presentes em seu estilo kitsch e em seu universo ficcional, habitualmente povoado por personagens beirando a marginalidade e a criminalidade, vivendo situações emocionais de alta voltagem e problemas ligados ao gênero sexual. Desta vez seguimos dramas e conflitos menos extravagantes e mais próximos à vivência do expectador médio. Tal mudança se deve ao fato de ser o roteiro baseado em três contos do livro “Fugitiva” de Alice Munro, escritora canadense vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2013.
Os três contos de Munro focalizam momentos diferentes da vida de Julieta. O primeiro a mostra como uma jovem esforçada que encontra um emprego temporário como professora num colégio particular para meninas ricas. Está voltando para casa de férias e para tanto tem de fazer uma longa viagem de trem de muitas horas, dias. Planejara usufruir da solidão para ler livros e refletir sobre sua vida. Mas é abordada por um homem mais velho, a quem ele repele de forma um tanto brusca, abandonando o vagão onde ambos estavam. Isso a faz lembrar de abordagens anteriores mais incisivas e persistentes às quais não tivera coragem de reagir, teme ter conseguido livrar-se desta apenas pelo aspecto frágil e inseguro do homem. Ele não representava nenhuma ameaça agressiva ou sexual, parecia querer simplesmente companhia, alguém para conversar. Atravessam uma grande extensão despovoada e tomada pelo inverno inclemente quando o trem para e todos descem para ver o que impedia o prosseguimento da viagem, um obstáculo nos trilhos. Nesse ínterim, Julieta tivera que trocar o absorvente íntimo e fora ao banheiro. Ao dar descarga no vaso sanitário lembra que não poderia usá-lo estando o trem parado. Teme então que sua menstruação seja percebida por todos, o sangue na neve branca. Depois de algum tempo a viagem reinicia e mais uma vez o trem empaca. Descobre-se que um dos passageiros não embarcara e se jogara embaixo da composição. Imediatamente Julieta imagina que o suicida seria o homem que rejeitara com rispidez, suspeita logo confirmada. Arrasada pela culpa, Julieta fica aliviada quando um homem senta a seu lado e puxa conversa. Ela, que momentos antes concluíra que jamais poderia falar com alguém sobre esse acontecimento, conta para ele, que a ouve compassivamente. Apresenta-se como pescador e diz ter uma mulher muito doente, inválida, de quem cuida com a ajuda de amigos.
Logo depois. Julieta recebe uma carta desse homem no colégio onde ensina e toma a iniciativa de ir visitá-lo. Ao chegar à cidadezinha, descobre pelo taxista que a mulher dele havia falecido e que o enterro havia sido no dia anterior. Todos haviam comparecido, dado sua grande popularidade. Julieta chega à casa e é recebida por uma das amigas do casal, que diz estar ele ausente e só retornará no dia seguinte. De forma hostil, recomenda que ela parta, o que ela não aceita, pernoitando ali e assim se inicia a relação dos dois. Julieta engravida de uma menina, abandona suas pretensões profissionais e fica como dona de casa, enquanto ele continua em suas atividades como pescador, dono de um barco. Do conto depreende uma sutil avaliação da condição da mulher na sociedade.
O segundo conto mostra Julieta indo mostrar a filha, já com um ano e pouco , aos pais, na cidadezinha onde vivera. Fica claro o distanciamento que mantinha com os pais. Julieta fica chocada ao descobrir que o pai mantém um relacionamento com a cuidadora mexicana da mãe demenciada. Fica também surpresa que o pai, que sempre vira como um admirado e querido professor de ginásio, havia abandonado o ensino e se dedicava agora à plantação e venda de legumes. Percebe o quanto havia idealizado sua inteligência e a cultura, na medida em que o vê agora como um homem simples, sem sofisticação intelectual. Passeando com a criança pela cidade, encontra um antigo colega de escola, alguém de uma família importante local, e, de forma desafiadora, diz não ser casada com o pai de sua filha, algo escandaloso naquele tempo (os anos cinquenta). Para sua surpresa, descobre que o pai havia sido demitido da escola por tê-la defendido numa discussão onde censuravam seu comportamento, tido como imoral. Julieta deixa a casa dos pais volta para casa desconcertada, pois não podia imaginar que sua conduta pudesse ter efeitos tão destrutivos na vida dos pais. Está abalada também com a decadência física e mental da mãe e com a relação do pai com a empregada – que talvez a remetesse ao que ocorrera quando conheceu o pai de sua filha, ocasião em que teve relação sexual com ele, que era ainda casado com uma mulher inválida. Dá-se conta de como sua família sempre fora um tanto excêntrica, não se encaixava bem na mentalidade estreita e ignorante de todos, a mãe usava roupas estranhas que ela mesma criava. O conto parece ser uma despedida das ilusões da infância, um ingresso definitivo na vida adulta.
O terceiro conto se passa muitos anos depois. Julieta é uma conhecida apresentadora de TV e encontra na rua, por acaso, uma antiga amiga da filha, que diz tê-la visto recentemente noutra cidade, com seus cinco filhos, fazendo compras. Sem demonstrar surpresa, Julieta age com naturalidade, faz algumas perguntas e se despede. Sabe-se então que fazia muito tempo que a filha havia desaparecido e que Julieta havia respeitado seu desejo de não ser encontrada. Num flashback, vemos que aos dezoito anos a filha fora fazer um retiro espiritual de três meses, no fim dos quais Julieta deveria buscá-la. Ao chegar no local, Julieta é avisada pela responsável que a filha tinha partido para outro lugar e não queria que a mãe tivesse conhecimento de seu paradeiro ou que a procurasse. Espantada, discute com a mulher e ela a acusa de nunca ter percebido o desespero da filha, que teria chegado ao retiro em frangalhos. Julieta tenta entender a conduta da filha e rememora alguns momentos, como a morte do pai dela. A filha teria uns 12 anos e tinha ido passar uns dias na casa de uma colega, quando Julieta descobre por acaso que, quando fora visitar os pais e mostrar a filha, anos antes, o marido tinha tido uma relação sexual com a antiga namorada, atualmente grande amiga do casal. Julieta faz uma grande briga com o marido, que diz não entender a atitude dela. O fato, a seu ver, não tivera nenhuma importância e acontecera tempos antes, em nada alterara a felicidade que tinham enquanto casal. Mas Julieta insiste e ele, apesar das notícias de mau tempo e possibilidade de tempestade, sai no barco para pescar e morre. Julieta tem dificuldade de avisar a filha da morte do pai e quando o faz fica chocada ao ouvir uma conversa na qual a filha diz para a amiga, de forma fria e indiferente, que praticamente não conhecia o pai. Julieta estranha, pois se lembra como os dois eram próximos, a filha muitas vezes ia pescar com o pai e dizia querer ser pescadora quando crescesse. A própria Julieta parece dissociada, pois aceita ficar como hospede na casa da amiga da filha enquanto os donos da casa viajam por umas semanas. Durante anos Julieta espera a filha se manifestar e ela no início o fazia apenas no dia do aniversário, quando mandava um cartão em branco, deixando de fazê-lo depois. Em algum momento, resolve mudar e ir morar com o novo namorado em outro lugar, decisão que abandona ao ouvir a conversa da amiga da filha, retomando a esperança que ela se manifeste. Com o correr dos anos, ela perde o emprego na televisão, é esquecida pelo público, abandona os estudos formais e projetos acadêmicos, embora continue leitora voraz e pesquisadora da cultura grega. Vive modestamente e trabalha como garçonete numa lanchonete e tem uma vaga esperança de que um dia a filha se manifeste.
O roteiro de Almodovar se estrutura como um grande flash back, começando, pois, pelo terceiro conto, no qual Julieta encontra casualmente na rua a grande amiga de sua filha. Ela, que estava se preparando para mudar para Lisboa, desiste de tudo, decide ficar em Madri e esperar a filha. Resolve escrever-lhe uma carta contando tudo sobre a vida deles. Em sequência cronológica os elementos dos três contos se sucedem. Almodóvar faz substanciais mudanças no original de Munro. A primeira delas é introdução de um final feliz. No filme, a filha rompe o silêncio após a morte de um de seus próprios filhos por afogamento (como ocorrera com o pai), diz entender o sofrimento que havia infligido à mãe ao desaparecer e não dar notícias. Nos contos, o rompimento da filha persiste e fica em aberto se haverá uma reconciliação. A mudança maior está na passividade de Julieta nos contos, que não toma nenhuma iniciativa de procurar a filha, submetendo-se ao mandato da mesma de que não deveria ser procurada. No filme, Julieta luta para encontrar a filha, apelando para a polícia e advogados, sem sucesso. Almodóvar faz com que a filha desapareça como reação ao fato de a mãe nunca lhe ter dito que havia tido uma briga antes da decisão desatinada de seu pai de ir pescar em plena tempestade. Aquele fato nunca mencionado, ao ser descoberto, teria gerado uma vingança irrefreável. Almodóvar introduz também um homossexualismo entre as duas adolescentes não existente no original.
Os contos de Munro são multifacetados, sempre imersos numa reflexão sobre a condição da mulher mas não adotam o radicalismo simplista de um feminismo militante, pois miram um alvo mais amplo, que é a condição humana. A culpa que permeia a vida de Julieta – anunciada ao repelir o homem no trem, reiterada ao ser responsabilizada pelo afastamento do pai da função de professor, pela morte do marido, pela mulher que a acusa de desleixo com a filha, desde que nunca notara seu desespero – seria responsável pela atitude masoquista frente ao desaparecimento da filha, deixa que ela a castigue sem se mover, sem se defender. Temos também um vislumbre de sua vida familiar. Era filha única de pais excêntricos, com uma mãe que tinha comportamentos levemente bizarros, elementos que talvez expliquem a vida meio nômade, desenraizada que ela levava.
Para Almodóvar, o conflito fica centrado no fato de ter sido negado à filha a informação da briga dos pais antes do afogamento. Ao descobrir a história, a filha culpa a mãe e a pune com seu desaparecimento. Em Munro, a ênfase está no onipresente sentimento de culpa de Julieta, que culmina com o comportamento masoquista frente ao desaparecimento da filha, aceito como um castigo merecido, contra o qual não seria possível esboçar qualquer reação.
As diferentes ênfases no tratamento do drama podem ser atribuídas às peculiaridades psíquicas dos autores e às dificuldades na transposição de texto literário para a linguagem cinematográfica. Em sendo o cinema, além de uma arte, um entretenimento de massa, as imposições mercadológicas tem um peso maior, fazendo com que o roteiro se adapte, evitando elementos mais complexos e melancólicos, introduzindo um final feliz, o que o torna um produto mais vendável para o grande público.

(*) Publicado em Psychiatry on line, setembro 2016

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