Sobre dois ensaios de Peter Handke, de Sérgio Telles

Sobre dois ensaios de Peter Handke (*)

Sérgio Telles

A outorga do Nobel de Literatura do ano passado ao austríaco Peter Handke suscitou polêmicas dado seu apoio a Milosevic Slobodan, o presidente sérvio acusado de genocídio na Bósnia, Croácia e Kosovo.
A obra de Handke inclui roteiros de cinema, peças de teatro, romances e especialmente ensaios, dos quais temos agora dois publicados pela Editora Estação Liberdade – “Ensaio sobre o cansaço” e “Ensaio sobre o dia exitoso (Sonho de uma noite de inverno)”.
Em “Ensaio sobre o cansaço” Handke descreve esse estado físico e/ou mental que, de tão corriqueiro, em geral pouca ou nenhuma especulação suscita. Enumera ele vários tipos de cansaço, como os de “dar medo”, os “malignos”, os “benignos” e os “belíssimos”. Esses últimos são quase uma exclusividade de trabalhadores que exercem tarefas fisicamente extenuantes, cuja dura faina os esgota, deixando a mente ocupada por inteiro com a consciência do corpo exausto, sem espaço para qualquer outra percepção, pensamento, preocupação, fantasia ou desejo. É um estado de quase plenitude e quietude, é um cansaço que, paradoxalmente, já é em si um descanso. Daí o autor falar do “povo do cansaço”, do qual se sente próximo e em comunhão, ao contrário do que sente em relação aos “incansáveis”, os dirigentes, os burocratas, tecnocratas, financistas.
Em “Ensaio sobre o dia exitoso”, a dimensão do ofício literário e a importância da linguagem são dominantes, a começar pela recorrente discussão sobre o adjetivo mais apropriado ao tema que pretende explorar – o dia seria “exitoso”, “ditoso”, “não completamente desditoso “, “proveitoso”, “despreocupado”? Há ainda uma grande quantidade de palavras entre aspas, mostrando a pouca confiança que lhes dedica o autor, por ter consciência da ambiguidade que lhes é inerente e das ressonâncias semânticas e fonéticas que desencadeiam no seu universo linguístico, podendo trair o sentido que ele lhes atribuiu ao escolhê-las em sua escrita, o que – de resto – é a preocupação de todo e qualquer escritor. Imagino os apuros enfrentados pela tradutora ao enfrentar tamanhos desafios.
A dificuldade em encontrar a palavra certa para designar esse específico tipo de dia (na tradução inglesa, “a successful day”, um dia “bem sucedido”) talvez reflita um problema maior – como colocar em palavras a vida, como nelas enclausurar o tempo (o dia) que escapa sem cessar?
Handke não aborda essa questão em termos grandiloquentes, mas através de uma miríade de imagens mnêmicas que registram a completa fragmentação do mundo percebido. A cola que vai unir esses cacos da memória é a própria vida, a procura de algum sentido e, com ele, a obtenção de um pouco de paz, do “cansaço” examinado anteriormente.
Talvez o “dia exitoso” seja aquele no qual prevalece a complacência consigo mesmo e com o próprio dia, sem exigir dele coisas extraordinárias, como epifanias que nos revelem grandes verdades; tal tolerância nos permitiria usufruir prazerosa e despretensiosamente suas humildes oferendas cotidianas e nelas redescobrir a beleza e o valor da vida. Carpe diem.
Os dois ensaios são organizados como um diálogo entre um interlocutor que provoca o narrador estimulando o desenvolvimento da conversa, especialmente sobre o escrever. Para Handke, o ensaio é uma forma específica de narrar que dispensa os recursos convencionais usados pela ficção – a criação de um enredo, personagens e ação. O ensaio se atém ao tema proposto, o registro e à descrição de imagens, consequentemente não é necessário temperá-lo com sentimentos e angústias, páthos e empatia – elementos imprescindíveis na ficção. A atenção concentrada no tema, própria do ensaio, possibilita a descoberta inesperada da dimensão épica existente nas pequenas coisas, no dia a dia, no trivial, no rotineiro.
Handke como que insinua que o ensaio é a produção literária por excelência, na medida em que dispensa as muletas usadas pela ficção para sustentar o texto, o que permite o puro fluir da transmutação de ideias em palavras escritas. É como se o ensaio estivesse próximo das equações matemáticas. Nestas o pensamento desenvolve a argumentação lógica e suas demonstrações através de símbolos próprios, naquele o pensamento monta a argumentação usando as opulentas vestimentas da linguagem. Ou seja, apesar de narrar no ensaio algo que o toca de perto, Handke prefere não diluí-lo numa trama fictícia e sim dissecá-lo diretamente na linguagem.
Em ambos os ensaios, Handke enfatiza a metamorfose da vida em literatura. Por exemplo, termina por dizer que, na verdade, não existe o “dia exitoso”. Ele é uma espécie de sonho que inventou. Ou melhor, o “dia exitoso” é o texto que escreveu, o ensaio que acabamos de ler. É fruto de um árduo trabalho, como testemunham “a borracha enegrecida e diminuída de tanto apagar erros” e as “aparas dos lápis”. Um trabalho imprescindível, um dos pilares da literatura, esse de metamorfosear uma “ideia de vida” em “ideia de escrita”.

(*) Publicado no jornal Valor Econômico em 18/12/2020