Resenha de “Cloro”, de Alexandre Vidal Porto – Sérgio Telles

Resenha de CLORO, de Alexandre Vidal Porto (*)
Sérgio Telles
CLORO, de Alexandre Vidal Porto, é um livro de poucas metáforas e “cloro” é a mais abrangente delas. Representa o arco da sexualidade de Constantino, que se inicia aos 8 anos com o confuso despertar de um interesse erótico pelo professor de natação, segue pelo odor de água sanitária, cloro e esperma na mancha deixada nos lençóis pelo cunhado no “quarto dos rapazes”, e se fecha com sua morte súbita numa sauna gay, onde os empregados estão fazendo a manutenção das piscinas com cloro.
Tal como Bentinho (personagem de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis) mas sem a mesma verve e verbo, Constantino Curtis, o personagem central de CLORO, conta-nos sua história após sua morte. Depois das descobertas nas aulas de natação, percebe na escola que “ser bicha não era bom”, dado a carga de preconceitos e agressões que acompanhavam tal condição. Resolve então diligentemente adquirir os emblemas próprios da heterossexualidade – namoradas, casamento, filhos. O desejo homossexual apresenta pequenos lampejos de voyeurismo com o cunhado mas fica latente durante anos. O sexo matrimonial, que se mantinha de forma débil e protocolar, cessa de vez com o assassinato do filho homem. A libido retorna de forma inesperada (e pouco convincente para o leitor) ao ver um episódio do seriado da Netflix “House of Cards”, no qual Frank e Claire Underwood transam com o segurança Edward Meechum. Passo seguinte, Constantino descobre a internet, os sites pornôs e os aplicativos de encontros sexuais do smartphone. Dessa abertura tardia, são relatados três episódios – a iniciação com um estranho num hotel onde ambos estavam hospedados, o sexo pago com um garoto de programa e a grande paixão por Emilio, um funcionário diplomático. O caso amoroso não tem continuidade pois Emilio é transferido para um país distante. Traumatizado com a separação, numa viagem ao Japão, Constantino procura uma sauna gay onde a morte vai buscá-lo, sob a forma de um acidente vascular cerebral.
Sem alçar grandes voos, CLORO é uma exposição de como Constantino organizou sua vida dentro de uma normalidade que julgava ser esperada pelos outros, alienando-se de sua realidade e de seu desejo. Mas é como se seu empenho em se enquadrar, a necessidade de decoro e discrição que o fizeram adotar uma vida postiça persistissem ao relatá-la, mesmo estando no além. Os conflitos, as dores, os sofrimentos, a paixão, a loucura, a angústia que supostamente acompanhariam tal escolha mal aparecem no relato comedido de Constantino. Da mesma forma está excluído o aspecto aventureiro e eventualmente perigoso do sexo casual com estranhos que os aplicativos oferecem. É como se nem a morte o liberasse de uma censura excessivamente pudica, que continua podando qualquer eflorescência mais exuberante de sua sensualidade.
Sabe-se que o autor declarou haver muito de autobiográfico nesse livro. Disse ele:
“A segunda peculiaridade do livro é que se trata de meu trabalho mais autobiográfico. Nunca havia escrito sobre um homem homossexual reprimido – coisa que eu, por quase três décadas, fui. Contar essa história me obrigou a revisitar várias experiências intensas de minha infância, por exemplo. Experimentei um desgaste emocional que não tinha enfrentado nos meus livros anteriores. Constantino e eu nascemos no mesmo ano. Ele era uma pessoa que eu poderia ter sido, mas não fui”.
As fronteiras entre o ficcional e o biográfico são uma questão delicada e cabe a cada escritor encontrar a forma de resolvê-la. No caso de CLORO, o leitor fica com a impressão de que o texto foi excessivamente depurado, saneado. Como se os elementos mais sombrios e sofridos, as impurezas, a desmedida do gozo e suas exigências tivessem sido senão eliminados, atenuados. O livro fica a meio caminho entre um depoimento documental sobre a superação de uma alienação e a assunção do próprio desejo – tema pertinente nesse momento em que as identidades sexuais perderam a antiga estabilidade e a moral sexual sofreu grandes modificações, como bem mostra Constantino ao comparar a forma como ele e Emilio (15 anos mais novo) encaram a homossexualidade – e um truncado romance gay.
Uma última pergunta se faz o leitor. Porque o autor resolve matar Constantino aos 51 anos, quando teria ainda bastante tempo para usufruir de sua sexualidade recém-conquistada? Porque não deixá-lo recuperar o tempo perdido?

(*) Publicado no suplemento EU&FIM-DE-SEMANA do jornal “Valor Econômico” em 14/12/2018