PLATAFORMA DA PETROBRÁS, ACM E FHC

Todos às voltas com Doxa e Aletheia

Debord, em sua lúcida descrição da “sociedade do espetáculo”, diz que uma das formas usadas pelo poder para manter-se e para alienar as massas, é a criação de um presente “eterno”, onde não está ele ligado a um passado nem dirigido a um futuro. Com isso se pretende abolir a história e destruir o pensamento lógico, que possibilita conexões de causa e efeito, elementos que o poder deseja evitar pelo potencial contestatório neles implícito. Diz Debord: “Busca-se a dissolução da lógica, de acordo com os interesses fundamentais do novo sistema de dominação, por diferentes meios que sempre se apoiaram reciprocamente nessa ação”.

Tais idéias me vieram à mente ao ler recentemente três fatos noticiados nos jornais, que me fizeram pensar sobre o uso da linguagem e sua vinculação com a lógica e com a verdade.

Os três fatos noticiados são: o afundamento da plataforma marítima da Petrobrás; a fraudulenta manipulação do painel de votação do senado e, finalmente, as sucessivas consultas às pesquisas de opinião pública realizadas pelo presidente FHC para balizar suas condutas políticas.

No caso da Petrobrás, ficamos sabendo que três dias antes do “acidente” (explosão em uma das colunas, o que terminou por destruí-la) foram enviados relatórios dando conta de graves problemas funcionais que a colocavam em risco, relatórios que foram ignorados pelos responsáveis dentro da empresa. Pela lógica mais elementar, qualquer criança concluiria como óbvia a ligação entre a explosão e o defeito apontado nos relatórios. Entretanto, o que nos foi oferecido? Uma entrevista coletiva, onde os “responsáveis” da instituição se esforçavam pateticamente para negar o óbvio, afirmando que “não se sabia a causa do acidente, e que este provavelmente nada tinha a ver com o anunciado nos relatórios” . Qualquer bom observador constataria o visível constrangimento destes homens em fazerem tais afirmações.

No caso do senado, como foi amplamente noticiado, viemos a saber através de depoimentos de um promotor, que o famigerado ACM lhe teria afirmado ser conhecedor de uma lista dos votos secretos realizados pelos senadores. Após desdobramentos os mais exdrúxulos, uma comissão de técnicos diz que há 16 formas de fraudar o sigilo do painel eletrônico que registra os votos dos senadores, confirmando assim que o mesmo pode ser facilmente invadido e ter seus segredos devassados, embora seja impossível provar que isso tenha sido efetivamente realizado. Temos então os seguintes dados: as características de ACM, o fato de ter ele mesmo afirmado ter tal lista (coisa que logo depois passou a negar), a conclusão dos peritos de que se pode ter a tal lista pois o sistema é devassável. Frente a esses elementos, é impossível não concluir logicamente que ACM tinha a lista, mesmo que tecnicamente seja impossível prová-lo. O que vimos em seguida? Confiante na abolição da lógica, o senador afirma em alto e bom som ser “uma vitória pessoal” sua. o fato de que os técnicos tenham afirmado ser impossível provar que o sistema tenha sido devassado, apesar de ser isso facilmente exequível…

Quanto ao presidente, somos informados de seu alívio ao saber o resultado da última das muitas pesquisas de opinião pública sobre sua pessoa e sua administração.

Se essas constatações geram inquietações, elas não são exceção. Qualquer leitura mais atenta dos jornais oferece exemplos similares. Também estão longe de se constituirem como novidades. Na verdade, são a versão atual e circunstancial de um problema muito mais amplo e universal, que diz respeito das relações entre a palavra e a verdade, problema examinado com detalhe pelos gregos entre os séculos VI e V antes de Cristo.

Naquela ocasião, considerava-se que existia uma palavra sagrada portadora da verdade, Alétheia, só acessível ao aedo, ao poeta sagrado, que a ela tinha acesso após beber nas fontes de Mnemósine e do Lethes, da memória e do esquecimento. A Aletheia, era o não esquecimento das verdades apreendidas no mundo dos deuses, estando o poeta esquecido das agruras da vida humana. Era uma verdade velada, a ser descoberta e da maior importância.

Em contraposição a Alétheia, se organizava a Doxa, a Opinião. A Doxa, a Opinião, foi muito desenvolvida pelos sofistas, que dessacralizaram a palavra, desvincularam-na dos deuses e da verdade, deram-lhe um estatuto humano, transformando-a num instrumento de persuasão na luta de interesse em conflito. Isso deu nascimento à dialética, ao diálogo. Mas rompeu de uma vez por todas a mítica relação da palavra com a verdade.

Alétheia foi abandonada. A palavra agora procura persuadir, levar os interlocutores a concordarem com determinados pontos de vista que, obviamente, dizia respeito a interesses em jogo, sem nenhuma preocupação em vincular-se à verdade.

Como a Opinião não tem outro sustentáculo além da persuasão, muitas vezes esta degenerava em coação ou pura violência. Platão tenta resolver a questão, estabelecendo uma diferença entre Doxa (Opinião) e Episteme (conhecimento). Doxa, a Opinião, diz respeito à certeza subjetiva sobre determinado tema e Episteme, ao conhecimento objetivo sobre esse tema.

Assim, se os antigos gregos já estavam atentos ao problema, ele só fez crescer no correr da história, na medida em que a circulação da informação foi-se intensificando e ampliando, até a implantação dos atuais poderosos e onipresentes meios de comunicação de massa.

Supostamente esses meios de comunicação de massa deveriam ilustrar o maior número possível de pessoas, dar-lhes informações necessárias para o exercício de suas vidas privadas e em sociedade, ajudando-as a exercer uma presença política eficaz e pertinente dentro da democracia..

Mas o que é a “informação”? Estaria ela mais vinculada a Aletheia ou a Doxa? Indubitavelmente, a informação é a Doxa levada às últimas consequências. Não está ela preocupada em expressar a verdade. A informação está sempre enviesada pelos inevitáveis interesses em jogo. A informação, portanto, é a matéria prima da Doxa, é a Opinião executando seu trabalho de persuasão, defendendo os poderosos interesses econômicos que financiam os grandes meios de comunicação de massa.

A doxa tem sua versão mais refinada na propaganda, a publicidade. É a forma sutil de persuasão usadas nas democracias ocidentais para alimentar o grande capital, criando falsas demandas, instituindo a civilização do consumo. Nos países totalitários, a propaganda política foi implacável e impôs à força bruta a doxa oficial, a ortodoxia do partido. Em ambos os casos, o resultado é o que Debord chama de “desinformação” imposta deliberadamente pelo poder.

Platão mostra sua repulsa frente à prevalência da Doxa (Opinião) em detrimento de Aletheia (verdade) num trecho famoso de sua “República”, quando a chama de “Grande Animal”. Diz ele: “Que cada um desses particulares mercenários, a quem essa gente chama de sofistas e considera como rivais, nada mais ensina senão as doutrinas da maioria, que eles propõem quando se reunem em assembléia e chamam a isso ciência. É como se uma pessoa, que tenha de criar um animal grande e forte, aprendesse a conhecer suas fúrias e desejos, por onde deve aproximar-se dele e por onde tocá-lo, e quando é mais intratável ou mais meigo, e por quê,e cada um dos sons que costuma emitir a propósito de cada coisa, e com que vozes dos outros se amansa ou irrita, e, depois de ter adquirido todos esses conhecimentos com a convivência e com o tempo, lhes chamasse ciência e os compendiasse, para fazer deles objeto de ensino, quando na verdade nada sabe do que, dessas doutrinas e desejos, é belo ou feio, bom ou mau, justo ou injusto, e emprega todos esses termos de acordo com as opiniões do Grande Animal, chamando bom àquilo que ele aprecia, mau o que ele detesta, mas sem ter nenhuma outra razão para tanto, antes designando por justo e belo o inevitável, poquanto nunca viu qual é a diferença essencial entre a natureza da necessidade e a do bem, nem é capaz de a apontar a outrem”.

Como se vê, é um texto extremamente atual, na medida em que nossas sociedades pós-modernas levam a Doxa a extremos nunca dantes imaginados, como se observa na excessiva importância atribuida às “pesquisas de opinião pública” pelos politicos e publicitários, que tentam manipulá-la, formá-la, usá-la oue a ela se submetem, processos esses que nada tem a ver com a preocupação com a verdade.

Muito antes de Debord descrever a sociedade do espetáculo, a assustadora presença da Doxa na sociedade foi detectada por Karl Kraus, escritor austríaco que produziu no período entre as duas grandes guerras mundiais. Durante quase trinta anos, Kraus manteve seu pequeno jornal “Die Fackel” (A Tocha), mostrando a distorção da linguagem e da lógica na imprensa austríaca em nome dos interesses do poder. Dele disse Benjamim: “Sem se deixar reconhecer, como Harum-Al-Rashid, ele vigia de noite as construções linguísticas dos jornais e por trás da rígida fachada das frases feitas espia seus interiores, descobre nas orgias da “magia negra” o estupro, o martírio ds palavras” .

Como diz Calasso em seus instigantes ensaios, Kraus apontou para uma das poucas, senão única, formas de combater a Doxa imperante, evidenciando sua fraudulenta essência, fazendo com que surja o conhecimento e a verdade: a análise sistemática da linguagem.

Uma outra forma de combater a Doxa é o pensamento psicanalítico. Ele trouxe importantes e novas contribuições para a compreensão das vinculações complexas entre palavra e verdade.

A psicanálise descobriu que a verdade do desejo do sujeito encontra-se escondida e só é encontrada após um longo trabalho de busca e desvelamento, tal como a antiga Aletheia. O próprio sujeito a desconhece, cercado que está de “opiniões”, da “doxa” do Outro (alienado no Outro).

Como diz Garcia-Roza, a procura da verdade feita pela psicanálise tem um trajeto muito próprio, numa inédita combinação de Aletheia e Doxa, produzindo a verdade única do inconsciente. Para o filósofo, a verdade está no princípio da não contradição; para o religioso, está na verdade revelada residente no interior de cada um; para o artista ela está na decifração dos signos mundanos. Nesta procura, a psicanálise faz um trajeto único, pois para ela a verdade não se contrapõe inteiramente ao erro, não segue o princípio da não-contradição, surge do equívoco, dos lapsos, se aproxima da visão dos artistas, ao decifrar os signos mundanos.

Diz Garcia-Roza: “Freud recupera, assim, a via da opinião (doxa) que havia sido rejeitado pelo discurso conceitual, e o faz não no sentido de mostrar que verdade e erro não são excludentes, posto que é precisamente na dimensão do erro e do equívoco que a verdade faz sua emergência. Enquanto produtor de um discurso teórico conceitual, ele se insere na tradição platônico-aristotélica, mas enquanto produtor de uma prática clínica que lida sobretudo com a ambiguidade da palavra, ele se inscreve numa tradição sofística. O psicanalista é esse “dikranoi” que se situa no cruzamento dos dois eixos – da verticalidade e da horizontalidade – com o olhar e a escuta voltados simultaneamente para as alturas platônicas e para a horizontalidade dos acontecimentos, à espreita das irrupções do inconsciente. O que Freud faz é recuperar o valor da palavra ambígua, da palavra sem sentido, ao mesmo tempo que revela, oculta a verdade, e faz isso sem sacrificar o rigor conceitual de sua construção teórica. Mistura de aedo e sofista, ele redimensiona o estatuto da palavra e da verdade (p. 117)

Assim, do ponto de vista individual, o sujeito vive uma Doxa, uma Opinião de si mesmo, que é o desejo do Outro, no qual está alienado. Sua verdade, sua Aletheia, seu Episteme, lhe são desconhecidos. Trabalhando o discurso, o analista desmonta a Doxa e deixa entrever a verdade de seu desejo. Ao fazer isso, possibilita que a nível social , o sujeito também desmonte os discursos do poder – Doxas – e procure atrás deles a Aletheia, o Episteme da efetiva realidade.