O PSICANALISTA LÊ OS JORNAIS

1. As Fotos da Tortura no Iraque

São várias as fotos. Não as tenho agora sob minhas vistas e as descrevo de memória. A primeira coisa que nelas chama a atenção é a nudez dos prisioneiros, contrastada com a pesada vestimenta militar dos soldados americanos. Numas fotos, eles estão amontoados uns sobre os outros, como uma pirâmide de corpos nus, observados por soldados. Noutra, os prisioneiros estão enfileirados e um deles manipula os próprios orgãos genitais, no que é observado por uma soldada que parece se divertir com a situação. Mais uma e vemos a mesma soldada apontando para os genitais de um prisioneiro, como que ridicularizando-o. Uma outra: um soldado sentado sobre o corpo de prisioneiro deitado no chão. Cães retidos por soldados ameaçam atacar um prisioneiro despido. Prisioneiros simulam relações sexuais. Aquela soldada, a mesma que aparece em várias fotos e que depois viemos a saber que se chama Lynddie England, segura uma coleira presa ao pescoço de um prisioneiro despido, que se arrasta pelo chão.

Pergunto-me porque me esforço em descrever fotos que circularam e foram vistas pelo mundo inteiro. Pareceria um trabalho desnecessário. Mas penso que, ao descrevê-las, ao escrever sobre suas características, eu as retiro do registro visual e as recodifico na linguagem escrita. O efeito imediato sobre isso é o escapar do fascínio que a imagem – qualquer imagem – sempre nos provoca. A imagem nos seduz e nos suga para seu interior, tornando mais difícil o sempre penoso trabalho de pensar. E o que pretendo aqui é justamente pensar sobre essas fotos. Não apenas me revoltar com a violência da situação ou – mais secretamente – gozar com as cenas sado-masoquistas ali representadas.

Como disse acima, o que logo atrai nosso olhar é a nudez dos prisioneiros. Porque ela nos atrai o olhar tão intensamente? Porque ela nos escandaliza mais que os corpos mutilados e mortos, vitimados dos bombardeios e tiros decorrentes das ações da guerra? Por que a nudez é usada como instrumento de tortura? (…)

O texto completo encontra-se no livro “Visita às casas de Freud e outras viagens” – Casa do Psicólogo, 2006.

2. A candidatura de Maluf e a sociedade de espetáculo, o reino do simulacro.

Recentemente soubemos pela imprensa que autoridades suiças confirmavam a entrada, em um único dia, de 155 milhões de dólares em contas de Paulo Maluf naquele país. Tal informação vem dar prosseguimento a um processo que se arrasta há anos e que o acusa de desvio de verbas de obras públicas.

Pela lógica, frente a tal situação, deveríamos concluir que a candidatura de Maluf estaria impugnada pelo próprio partido, que não teria interesse em ser associado a um político corrupto. Além do mais, pensaríamos que ele seria rejeitado por qualquer eleitor com um minimo de neurônios.

A realidade, entretanto, não poderia estar mais distante das proposições lógicas desenvolvidas acima. O que vimos foi Maluf impor sua candidatura na convenção do partido e proferindo para o público, através da midia, um discurso no qual promete dar o dinheiro “a quem achá-lo”, afirmando que tudo não passa de calúnias contra sua candidatura vitoriosa.

Esse episódio nos faz pensar muita coisa.

Constata-se aí uma dissociação completa entre fatos comprovados e um discurso que os ignora. Isso caracteriza o discurso do político, de modo geral. É um discurso sem nenhum compromisso com a verdade, que visa exclusivamente a consecussão de objetivos pragmáticos ligados à conquista do poder.

Vivemos hoje numa sociedade do espetáculo (Debord), na qual, cada vez mais, importam as imagens ou os simulacros e não os fatos, situação possibilitada pelo desenvolvimentos das midias eletrônicas e pelas pesquisas de opinião pública. No caso em pauta, o partido de Maluf não está preocupado primordialmente com o fato de ser comprovada ou não sua corrupção. A preocupação primordial é avaliar a resposta do público a essa informação, através das pesquisas de mercado. É a partir dessa reação do público, ou seja da imagem que o público faz do ocorrido, que o partido irá agir.

Como se sabe, essa é a base da propaganda politica e da publicidade comercial. Distante da verdade, os discursos próprios dessas produções miram objetivos específicos – o acesso ao e a permanência no poder, por parte dos partidos políticos e o aumento do consumo, por parte da indústria e do comércio.

Seguindo essa lógica, entendemos porque os governos investem tanto em publicidade. Por exemplo, se há uma queixa da população de que a educação está sendo negligenciada – não há investimentos na formação de professores, não há remumeração digna, faltam salas de aula, etc., – o governo não reconhece publicamente essas falhas, nem toma providências para saná-las. Pelo contrário, vai criar um mundo fictício na midia que afirma o contrário do que ocorre na realidade – são produzidas propagandas que mostram alunos impecáveis, em escolas magnificas, com alegres e bem dispostas professoras. Essa situação de total distanciamente da verdade nos faz viver num simulacro de realidade.

Voltando a Maluf, é importante frisar uma frase que ele sempre usa quando é acusado de corrupção. Ele lembra que todas as suas contas foram aprovadas pelo Tribunal Regional de Contas. Deixando claro o que Maluf está dizendo: se suas contas foram fraudulentas e permitiram o desvio comprovado de 155 milhões de dólares numa única conta no mesmo dia (o que não exclui outras contas, outros milhões, outros dias), a fraude ocorreu com plena anuência e cumplicidade dos senhores juizes daquele ínclito tribunal.

Para que sejam desbaratadas as redes de corrupção instaladas no estado, são organizadas comissões de inquérito e investigações várias, que têm o objetivo precípuo de nada descobrirem ou investigarem, configurando assim um outro excelente exemplo de `simulacro’.

Diz Baudrillard: “Quando as coisas, os signos, as ações, são libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar, ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito. Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo. (…) mas as conseqüências dessa dissociação podem ser fatais. Qualquer coisa que perca a própria idéia é como o homem que perdeu a sombra – cai num delírio em que se perde”.

(A transparência do mal – Papirus Editora – 7ª edição – 2003 – p. 12)

3. “Pântano” (La Ciénaga)

Li em algum lugar como é gritante a diferença entre as crianças dostoieviskianas e as crianças freudianas. As primeiras sofrem o diabo nas mãos de seus pais e mães, pessoas loucas e malvadas. As crianças freudianas, por outro lado, são cheias de ódio e luxúria, desejam a mãe e querem matar o pai. Embora caricata, parece-me pertinente essa descrição, no que ela evidencia ênfases diferentes. Dostoievski aponta para a realidade factual e concreta que envolve as crianças, seus pais loucos e violentos que os atormentam de várias formas. Freud aponta para a realidade interna dos desejos e fantasias inconscientes.

Podemos entender que Freud precisou enfatizar esse ângulo para ressaltar sua descoberta do inconsciente e da psicanálise, ocasionando com isso uma certa desconsideração pela realidade externa. Gabrielle Rubin vai mais longe e diz que Freud ignorou a realidade externa, ou seja, a família, em função da vergonha que a sua lhe trazia, sob vários aspectos. (Gabrielle Rubin – Le Roman Familial de Freud – Paris – 2002 – Psychiatry on line Brazil – fevereiro de 2003)

O texto completo de “Pântano” encontra-se no livro O Psicanalista vai ao Cinema II – Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, SP