O ESTADO DE SÃO PAULO

Domingo, 23 julho de 2006

Um caldeirão de afetos e rivalidades

Sérgio Telles: Psicanalista

Andréa Barros

O pai abusou sexualmente da filha, a menina virou uma escrava sexual do namorado. O casal se excedia na bebida, os filhos fumavam maconha. A mãe e o pai tinham casos extraconjugais, a filha se decepcionou com a primeira transa. O namorado queria o dinheiro dos futuros sogros, a namorada pagava tudo para ele. Bia Falcão! Loira má! Menino de rua! Mau caráter! Galinha dos ovos de ouro! Ofensas, verdades e mentiras – quem saberá? – ditas no tribunal, com sucessivos ataques à família. Até espíritos foram invocados na semana passada para tentar explicar o assassinato dos Von Richthofen na madrugada de 31 de outubro de 2002, quando o engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia foram golpeados com barras de ferro enquanto dormiam. No centro de todas as atenções, a “loira e linda” Suzane Richthofen, ré confessa do assassinato dos seus pais. Como coadjuvantes, seu ex-namorado Daniel Cravinhos e o irmão dele Christian, também réus confessos. Na madrugada de sábado foi lida a sentença: 39 anos de reclusão e 6 meses de detenção para Suzane e Daniel e 38 anos de reclusão e 6 meses de detenção para Christian. Do ponto de vista jurídico, o crime está resolvido. “Do ponto de vista da psicanálise, só longas sessões individuais poderiam explicá-lo”, diz o psicanalista Sérgio Telles. Mas o julgamento mais esperado, comentado e assistido de todos os tempos deixou de novo um sentimento estranho nas pessoas. Afinal, o que leva alguém a matar seus pais? Nascido em Fortaleza, com mais de 20 anos de clínica e cinco livros publicados, entre contos e psicanálise, Telles explica o que Freud tem a ver com isso. Sempre falando em hipóteses, ele comenta sobre o que há nos caminhos do inconsciente – das pessoas e das famílias.

Quais são os mecanismos mentais que fazem com que uma pessoa comece a imaginar, urdir, planejar, o assassinato dos pais? De que porões do inconsciente isso sai?

O assassino rompe com toda a repressão própria da cultura. Para vivermos em sociedade, Freud diz em O Mal Estar na Civilização, que é necessário reprimir as pulsões agressivas e sexuais. O chamado “mal-estar” é justamente o preço que pagamos para que isso seja possível. Quando alguém mata, algo de muito sério aconteceu em seu psiquismo. Jacques Derrida acha que no futuro qualquer crime será entendido efetivamente como uma doença, a não ser em situações de defesa. A motivação de um crime passa a ser muito complexa a partir da inclusão dos fatores inconscientes. Freud, por exemplo, fala dos criminosos por sentimento de culpa. Ou seja, a culpa não apareceria depois do crime e sim seria seu motivador. Otto Rank foi um discípulo de Freud que se dedicou bastante à ligação entre criminologia e psicanálise, tendo interessantes trabalhos sobre a confissão. Ele afirma, entre outras coisas, que muitos criminosos, por serem regidos por motivação inconsciente, a rigor não sabem por que exerceram o crime. De modo geral, podemos considerar que, para a psicanálise, um assassinato é sempre um ato onipotente e narcísico de intolerância diante de um outro, em quem não se toleram as diferenças e divergências.

Mas por que alguém mata os pais?

Todos nós, estruturalmente, temos o complexo de Édipo, que é – falando de forma simples – justamente o desejo de matar o genitor do mesmo sexo para ficar com o do sexo oposto. Nos anos 30 houve um assassinato em Viena realizado por um homem chamado Halsmann. A alegação do advogado de acusação foi de que o filho havia matado o pai por causa do complexo de Édipo. Freud foi chamado a dar um parecer e disse que tal afirmação era equivocada, pois o complexo de Édipo é uma estrutura inconsciente universal e sua resolução impediria justamente que as fantasias e desejos nele expresso se transformassem em atos na realidade. Assim, no caso Richthofen, ou no de qualquer parricida, podemos concluir que houve graves distorções na constituição dos complexos de édipos desses sujeitos, distorções provavelmente decorrentes de peculiaridades de suas famílias, pois é justamente nas famílias onde nos constituímos como sujeitos. É ali onde você aprende a controlar a lidar com a agressividade e o erotismo, fundamente enraizados no inconsciente.

Não existe então uma regra?

Todo assassinato decorreria de uma falha nos mecanismos repressivos estruturais decorrentes, em última instância, da resolução do complexo de Édipo. É através dele que o psiquismo se organiza e nos constituímos como seres humanos, estabelecemos nossa identidade, aprendemos a lidar com o princípio do prazer e da realidade, abandonamos o narcisismo e aprendemos a controlar nossas pulsões. Quando isso não ocorre adequadamente, várias perturbações se instalam, como as psicoses, as neuroses e as perversões. No caso em pauta, pareceria ser o assassinato mais ligado à perversão, dado que não aparecem elementos característicos de psicose. Assim, voltando à sua pergunta, o assassinato dos pais segue a mesma regra, talvez com maior intensidade ainda que os demais assassinatos.

Casos de filhos que matam os pais aparentemente se tornaram mais comuns nos últimos anos, como os da Rua Cuba, de Gil Rugai, da Suzane. Por que eles se proliferam? Antes havia censura?

Não acho que isso tenha aumentado. Esses casos citados são de classe média. Mas existem dados do LACRI (Laboratório de Estudos da Criança do Instituto de Psicologia da USP), que mostram o lado oposto, da quantidade de pais que matam filhos. É importante entender que a família é um grande caldeirão de afetos que não deve ser idealizado, é preciso reconhecer que, além do amor, há nela uma dimensão de agressões, ódios e rivalidades. E, quanto mais isso é negado, mais é prejudicial. Toda família tem dificuldade, não podemos esquecer que na primeira família, que está na Bíblia, um irmão mata o outro, Caim mata Abel. Essa corrente de afetos, em situações ideais é elaborada, reprimida e se estabelece um superego que controla suas manifestações. Numa família disfuncional várias patologias se organizam.

A família é, então, um laboratório de patologias?

É um laboratório de patologias e de não-patologias. É um cadinho onde as pessoas vão se constituir de maneira boa ou não em função de como esta família está organizada. Poderá ser um laboratório de muita normalidade, de muita saúde. Tudo depende de como a família está estruturada. Como se estrutura? Do ponto de vista da psicanálise, se estrutura com o recorte do Édipo, de como o filho se relaciona com os pais. A criança quando nasce tem uma relação absolutamente fundida com a mãe e a mãe com ela. Para que se rompa essa dupla narcísica é absolutamente necessária a presença de um terceiro, que poderá ser o pai, o namorado da mãe. De certa maneira as crianças se ressentem e desencadeiam um ódio pelo pai, mas há também um enorme alívio porque ela deixa de estar presa à mãe, uma figura onipotente, poderosa. Mais recentemente, psicanalistas que se dedicam ao estudo da família ampliaram a visão do Édipo, incluindo o Édipo dos pais. Se o Édipo dos pais não está bem resolvido, isso necessariamente se reflete na relação com os filhos. Por exemplo, quando um pai se alia à filha contra a mãe. Esta quebra de hierarquia, quando uma geração se alia com a debaixo, já provoca imensas reações no funcionamento da família como um todo, no psiquismo da criança.

Antigamente, quando se falava tanto em choque de gerações, a filha em atrito com os pais até preferia fugir de casa com o namorado. Será que hoje há um pensamento de “essa casa é minha, eu tenho direitos e não quero sair daqui”? São crimes econômicos?

Eu não acredito. De fato, esse é um dos argumentos que têm sido publicados nos jornais: de que eles queriam ficar com o dinheiro, com a herança. Seguramente não terá sido isso, muito embora o que você está falando, de filhos extremamente narcísicos seja verdade. (Elizabeth) Rudinesco tem um trabalho muito interessante, em um livro chamado A Família em Desordem, onde ela sintetiza o que muitos pensadores falam sobre o final da família patriarcal. A gente às vezes não reconhece a grandeza que foi a Revolução Francesa para a nossa história. É a partir dela que se instala a queda da autoridade paterna que desmoronou com o rei, visto como um representante de Deus. Nos séculos 19 e 20 a família patriarcal se desorganizou inteiramente e houve uma feminização, uma maternalização onde toda essa questão estrutural se alterou muito. As chamadas patologias narcísicas ganharam corpo. São filhos que acham que têm apenas direitos, sem o ônus dos deveres, que tudo é deles, onde a lei paterna não está bem estabelecida. Isso é uma patologia da sociedade narcísica. É uma falha da família atual, onde a lei não se estabelece.

São mecanismos diferentes os que levam uma pessoa criada na cultura da violência ou uma pessoa bem-nascida a matar alguém?

Para que nós nos estruturemos, é preciso a figura paterna e a materna exercendo suas funções. A função materna são os cuidados, o amor, o carinho. A figura paterna faz a introdução da lei, corta a submissão da criança à mãe e da mãe à criança e é a porta de abertura para o mundo. Bom, essas funções podem estar sendo prejudicadas, quer seja nos ricos ou nos pobres. Uma pessoa rica pode não ter condições por conta de sua própria história, em função de suas próprias carências emocionais e seus filhos podem ter vários problemas, inclusive o da violência. Já nas classes mais miseráveis, e a nossa condição social é terrível nesse sentido, muitas vezes é essa situação que impede que os pais possam exercer as suas funções. A situação econômica desorganiza de tal maneira uma família que impede o exercício das funções, com evidente prejuízo para as crianças. Essas crianças se constituirão, sim, com deficiências. Aquele filme Cidade de Deus é exemplar nesse sentido. Quase não aparecem adultos, há a formação de gangues com líderes completamente enlouquecidos, onipotentes, narcisistas e que terminam assassinados. Isso é uma questão muito séria do ponto de vista político e social. A miséria de certa maneira faz com que, por mais que se queira ser um bom pai ou uma boa mãe, não se consiga. Mesmo querendo.

Esse assassinato pode ter feito com que os pais começassem a olhar os filhos de outra maneira. Afinal, o filho é um estranho dentro de casa?

Tanto quanto os pais. É preciso ver o que os pais também fazem com os filhos, de que maneira essa relação se estabelece, se organiza. É verdade, havia muitas piadas: “Puxa, agora tranco a porta quando vou dormir.” Mas é importante que a gente entenda. No próprio mito do Édipo, ele matou o pai, mas não esqueçamos que os pais queriam matá-lo. A situação da família é importante. Se você vir só a patologia da Suzane, ignora a patologia da família. Mas é preciso entender o contexto, entender a situação. O que aconteceu nós não vamos saber, o que estamos fazendo aqui é estabelecer hipóteses.

Psicanalistas sempre culpam a família…

Não se trata de culpar a família, mas entender que nela interferem fortes determinismos inconscientes que é necessário conhecer. Nada justifica um crime como esse, mas a psicanálise tenta entender. Suzane fez um crime, tem que pagar e para mim essa menina estragou a vida dela. O importante é mostrar para as pessoas uma visão mais ampla da questão.
A família não é um mostruário de virtudes. Mas como as coisas chegam nesse ponto? Como a família pode virar um terreno fértil de psicoses?
Do ponto de vista teórico, na hora em que o complexo de Édipo dos pais se confunde com o dos filhos. Ou seja, na hora em que o pai e a mãe não conseguem exercer suas funções materna e paterna. André Carrel, um autor francês, fala em traumatose perinatal. No momento em que está nascendo uma criança, o corpo físico dos pais está no auge, a vida adulta está em pleno vigor. Mas curiosamente é um momento psíquico frágil porque os filhos fazem os pais permanentemente atualizarem o seu passado. E se você não tiver essa vida bem resolvida vai projetar maciçamente muitas coisas no seu filho.

Está cada vez mais difícil ser pai e mãe?

Está. Justamente porque vivemos um momento cultural em que a família patriarcal se desfez. Recentemente ficou ainda mais complicado, com as famílias refeitas, com dois, três casamentos, com filhos da primeira, da segunda e da terceira mulher. A família está passando por momentos críticos, de muitas mudanças. Todas essas questões da função materna e paterna são complicadas hoje em dia.

O que fazer então?

Faz-se o que se pode. Se isso traz um nível muito grande de sofrimento para as pessoas, elas precisam se tratar, tentar entender o que está se passando, as terapias de família servem exatamente para isso.

Está havendo uma catarse social com esse caso da Suzane?

Acho que sim. O matricídio e o patricídio são os crimes máximos, os mais punidos, exatamente porque são aqueles desejados e realizados no inconsciente, e depois reprimidos, esquecidos e elaborados. É essa a explicação que o Freud dá para a tragédia do Édipo: puxa, ele matou o pai e ficou com a mãe, mas no inconsciente todas as pessoas pensaram e desejaram isso. É uma identificação e um grande alívio: ainda bem que foi ele e não eu. Porque o Édipo realizou algo que no fundo está em todos nós. Mas, lembre-se que, como o próprio Freud disse, o fato de todo mundo ter o complexo de Édipo não justifica o crime. Isso é uma coisa estrutural e em famílias medianamente estruturadas não acontece.

Suzane parece ter feito uma migração da família dela para a do namorado. A relação com o namorado ganhou uma proporção enorme em sua vida. A dela tinha problemas? O que os pais podem fazer nessa hora?

Toda família passa por uma grande crise com a adolescência dos filhos. Do lado do filho, há uma recrudescência do complexo de Édipo, agravado porque agora o adolescente tem condições físicas de matar o pai para transar com a mãe. Isto gera uma imensa angústia. Todo o afastamento, as brigas, a ojeriza aos pais, muitas vezes, são uma forma de tentar controlar o medo do erotismo revivido. Os filhos têm de fazer o luto da infância, não estão mais protegidos. Os pais ficam com ciúme da sexualidade dos filhos adolescentes, que são o primeiro sinal de velhice. Eles precisam fazer um luto do filho pequeno e da própria juventude. É uma crise sim, mas, se houver uma relação saudável, ela progride, vai para frente. Se já houver uma situação doentia, no entanto, alcança níveis dramáticos. É importante que os pais consigam fazer com que a criança se volte para o mundo e vá expressar sua sexualidade lá fora. No caso da Suzane, a saída da família poderia ser uma forma de tentar se afastar, muito embora no caso específico a família Cravinhos também deva ter algo muito grave.

Nas grandes cidades há o fenômeno do “amor bandido”, com meninas de classe média indo a bailes funks e namorando traficantes. Uma geração de jovens de boa família convive de perto com os criminosos nos bares, nas ruas. Como evitar que o filho se contamine nesse mundo tão próximo da ilegalidade?

É preciso confiar que seu filho vai para o mundo, vai enfrentar maconha, cocaína, crack e fazer escolhas saudáveis. Você não pode evitar que entre em contato com isso, tem que apostar que ele vai passar por todas essas experiências e sair o menos danificado possível. Porque querer manter o filho numa redoma dentro de casa é manter uma relação de dominação, submissão, infantilização e castração absolutamente patológicos. Os pais não podem prender os filhos e têm de agüentar a angústia.

A relação dessa juventude com o sexo em uma sociedade materialista e hedonista é diferente. Eles falam “estou casado” ou “solteiro”, quando na verdade estão namorando. Ao mesmo tempo, ficam com várias pessoas. Isso é ruim?

Seria um outro aspecto da sociedade do narcisismo, onde essa meninada toda vê a relação sob o aspecto narcísico de ter o prazer unilateralmente. Eles dizem “eu estou casado” e não “nós estamos casados”. O que importa sou eu, o meu gozo, a minha satisfação, o meu prazer imediato, ao qual eu supostamente tenho direito. As pessoas dizem: eu tenho direito a ser feliz. Sim, todo mundo tem, mas há um custo. Como resolver? Voltando para a questão da família. A família patriarcal com aquele pai terrível que mandava e desmandava criava uma série de problemas, mas também a ausência completa dessa figura criou um outro tipo de problema que é esse, um desregramento. Há uma horizontalização do poder na casa que permite situações absurdas. Você vê meninos de 5 anos que mandam no pai. Dá uma palmada na bunda do menino, manda calar a boca? Não, o menino manda e os pais não dizem nada, não exercem suas funções.

Por que não exercem?

O Freud disse e hoje acontece muito mais, que os pais revivem o próprio narcisismo nos filhos. É aquela coisa: “Meu filho vai ter tudo porque eu queria que tivessem feito isso para mim.” Claro, você sempre tem esperança de que seus filhos possam ser melhores do que você, mas é importante que isso não alimente a onipotência. Nós nascemos onipotentes, e a realidade e a lei nos enquadram. Na medida em que a lei paterna ficou diluída em que o poder se horizontalizou, isso é um equívoco lamentável. Há dois filmes que mostram bem isso, A Festa de Família (de Thomas Vintenberg, 1995) e Happiness (de Todd Solondz, 1998). A Festa de Família fala sobre a comemoração dos 60 anos do patriarca em um hotel. Na hora do brinde um dos filhos diz: “Quero dizer que quando eu tinha 8 anos, meu pai abusava sexualmente de mim e da minha irmã.” Aí a família entra em pânico. Querem calar sua boca, fazem o diabo. Toda família tem seus segredos, seus mistérios, os podres que não se falam. Esse é um fator desestruturante e ao mesmo tempo reorganizador porque todo mundo sabia aquilo e negava, com enorme custo emocional. O Happiness mostra famílias absolutamente horizontalizadas, onde um pai fala para o filho de 10 anos que teve relações pedófilas com o amigo dele. É uma das cenas mais chocantes que já vi no cinema, mas que mostra essa horizontalização patológica da família, num nível extremo. É meio isso o que acontece: o pai fumando maconha com o filho, a mãe namorando o amigo da filha. O pai deve ser o pai e não o amiguinho do filho.

Mas na família da Suzane ocorria o contrário, não?

Não se sabe. É muito provável que várias coisas tenham acontecido ali, embora não se saiba o quê. Imagine o irmão dela, que perdeu o pai e a mãe dessa forma, ainda ter que admitir as mazelas de sua família? Não vai dizer nunca.

Segundo os promotores, Christian voltou a depor para assumir a culpa pelo assassinato de Marísia depois de levar um puxão de orelha da mãe, Nadja Cravinhos, que fez um depoimento emocionado. Só agora o freio maternal está funcionando?

O freio maternal não funcionou, pois, justamente como vimos, se os freios maternal e paternal tivessem ocorrido no seu devido tempo, eles jamais teriam realizado os crimes. Os Cravinhos não tiveram. Em todos os três, Suzane, Daniel e Christian, podemos pressupor falhas estruturais na personalidade, no psiquismo, do controle da agressividade, do ódio. Em relação ao estudos de família, além do Édipo ampliado, existe o que alguns autores mais recentes têm falado, o chamado transgeracional, a história da família. Toda família tem as suas vergonhas, a sua tia louca, o fulano que roubou não sei quem. Toda família tem traumas e vergonhas na sua própria história e essas vergonhas e traumas passam de uma geração para outra, contadas, faladas. Mas tem uma outra história, não-verbalizada, que passa transgeracionalmente pelo inconsciente como um buraco, que vai produzindo sintomas. É muito importante entender a história da família para ver como ela foi condicionando o que acontece com a geração atual.

O ambiente não influencia?

Muito pouco. Quando a pessoa é influenciada pelo ambiente não é o ambiente que é forte, mas a pessoa que é fraca. Se você já não tem uma estrutura de base, a influência externa vai te moldar.

Muita gente diz: a mãe dos Cravinhos não tem culpa dos filhos que tem. Afinal, os pais têm culpa ou não?

Ela não tem e nem os pais da Suzane. Culpa implica deliberada e voluntária ação. Estamos falando do inconsciente, então o efeito que uma mãe vai ter sobre um filho não depende do que ela quer ou deixa de querer, é algo que está no inconsciente. A visão da psicanálise é um pouco dramática nesse sentido, porque somos condicionados pelo inconsciente. Freud diz que houve três grandes feridas narcísicas do ser humano. Uma quando Copérnico disse que a terra não é o centro do mundo. Um segundo golpe com a descoberta de que não nascemos de Deus, viemos do macaco. E a última é que não somos senhores na nossa própria casa. A consciência é como um cavaleiro em cima de um cavalo potente que mal pode se equilibrar para não cair. E essa é a grande revolução da psicanálise. Ela descentra o sujeito. Todo o pensamento filosófico até Freud era a convicção no poder da consciência: “penso, logo existo”. Freud diz: olha tem uma outra dimensão no psiquismo que é o inconsciente, que está permanentemente influenciando a conduta de todo mundo. Não se pode culpar a mãe do Cravinhos nem os pais de Suzane. Olhando de fora parece que houve uma folie à deux, ou folie à plusiers, uma loucura a dois ou a mais. Se a pessoa está louca e encontra uma outra frágil, pode convencê-la a participar. Sei lá quem resolveu matar e de repente os três embarcaram juntos, numa psicose, numa perda de limite, de crítica. A maneira como as duas famílias se constituíram, como elaboraram o Édipo, como se constituíram como pessoas, necessariamente se reflete na conduta com os filhos.

Mas por essa lógica, rigorosamente um pai homicida só teria filhos homicidas…

Não necessariamente. Os processos de subjetivação são muito singulares. Se um pai é assassino, isso é uma marca definitiva para o filho, mas ele poderá ser, exatamente por isso, um policial. Há uma certa autonomia, o determinismo não é completo, senão teríamos apenas clones dos pais. Além disso, a maneira como cada filho ocupa um lugar na fantasia da mãe e do pai é diferente. Muitas vezes, apesar de ser da mesma família, as relações são muito diferentes. Isso tudo também não elimina os fatores genéticos de cada um. Não necessariamente uma família com pai ladrão só terá filhos ladrões, mas o significante ladrão vai ter um peso específico para essa família. O filho poderá ser o oposto de ladrão, mas o referencial é ladrão. É muito comum um pai de direita ter um filho de esquerda. Na adolescência, os filhos precisam ser diferentes dos pais, para se desgrudar deles eles muitas vezes vão para o lado oposto. Mas o referencial é o mesmo. A forma como cada um vai lidar com isso é muito singular.

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