O DOM DE FALAR LINGUAS

Mãe, você é a única boca
De que eu seria uma língua.

Mother, you are the one mouth
I would be a tongue to.

“Who” – Sylvia Plath

Há certo tempo, um analisando me contou que um irmão seu, após um surto psicótico, passou a frequentar uma seita religiosa, onde adquiriu grande prestígio por “falar línguas”, o que era considerado ali um sinal do mais alto privilégio divino, dom concedido a poucos.

A meu pedido, explicou o que era este “falar linguas”. O irmão entrava numa espécie de transe e, neste estado, ficava pronunciando uma serie infindável de sons desconexos que pareciam palavras desconhecidas, como se falasse uma língua estrangeira. Voltando a seu estado habitual, ao ser interrogado sobre o que lhe tinha acontecido, o irmão dizia ter sido possuído pelo Espírito Santo. Referia-se ao conhecido episódio relatado nos Atos dos Apóstolos. (1)

Tal material apareceu num contexto muito específico, no qual o analisando relembrava e revivia na transferência aspectos de sua ligação mais primitiva com a mãe, da qual a imagem do irmão psicótico, que se mantinha “concretamente” na órbita da mãe, era mais uma representação.

Esses elementos me fizeram levantar uma hipótese sobre a glossolalia, vinculando-a a uma problemática fundamental na constituição do sujeito humano, que é sua relação com a linguagem.

Incidentalmente, tenho sabido, talvez em função da proliferação das seitas fundamentalistas, que tal fenômeno – a glossolalia – não é incomum. Com frequência, fiéis, tomados pelo Espírito Santo, com grande júbilo, conversam entre si falando “linguas”.

A aquisição da linguagem, processo cuja transcendência e importância dificilmente se poderia exagerar, não é o mero aprendizado de um código de comunicação para usos imediatos e pragmáticos, possibilidade que os homens compartilham com outros animais. Trata-se do ingresso no mundo simbólico, que caracteriza o essencialmente humano, o que funda a cultura, marca o limite com a natureza.

Para que se tenha uma idéia da relevância deste processo, será necessário lembrar dois fatos característicos do nascimento do ser humano. O primeiro é que o corte do cordão umbilical que o liga ao corpo da mãe, e que caracteriza seu nascimento físico, não corresponde a seu “nascimento” psicológico, psíquico, pois por longo tempo a criança não terá uma identidade própria que a caracterize como um sujeito humano, senhor do seu próprio desejo. Em seus primeiros tempos, a criança encontra-se fundida com a mãe, sente-se confundida psiquicamente com ela, acredita fazer com mãe um todo indivisível. É somente no final de um longo processo que vai tolerar se ver separada psicologicamente da mãe, assumindo sua incipiente subjetividade. Para tanto, é fundamental a instauração do complexo de castração, que leva à resolução do complexo de Édipo.

O segundo fato, é que, ao nascer, a criança é mergulhada no universo linguístico dos pais, num encontro definitivo, irreversível. Uma vez dentro da língua materna, a criança dela não mais poderá sair. A mãe fala e, através da linguagem, introduz a criança no mundo simbólico.

Como foi dito acima, durante longo tempo a criança se sente visceralmente ligada à mãe e não se reconhece como um ser independente e diferente dela. A tarefa mais importante com a qual ela se depara é realizar esta separação, perder a fantasia desta união fusional. Para tanto, as palavras jogam um papel fundamental, pois, na medida em que representam e simbolizam toda a realidade do mundo externo assim como a realidade interna de sentimentos e relações intersubjetivas, a linguagem – como não poderia deixar de ser – vai representar também aquela que é a relação primordial e constitutiva da criança, aquela que lhe é a mais importante: a relação materna. As palavras vão representar a mãe, vão simbolizá-la e assim permitir sua introjeção, processo necessário para que a criança admita “perdê-la”.

Freud ilustrava este processo de representação e simbolização da separação da mãe através da observação do jogo de uma criança (2). A criança brinca com um carretel que está amarrado com um cordão. Ela joga fora de seu berço o carretel e simultaneamente grita um som que os familiares entendem como sendo proveniente da palavra alemã “fort”, que significa “saiu”, “foi-se”, e, com grande satisfação, recolhe o carretel pelo fio gritando “da” (“eis aqui”). Ou seja, a criança representa a separação da mãe e sua volta através do carretel e através das palavras “fort” e “da”. O jogo, além do mais, é uma tentativa sua de controlar ativamente algo que sofre passivamente – as dolorosas separações da mãe. Podemos dizer que com o desenvolvimento, precisará menos da brincadeira em si e mais da palavra, da linguagem.

É nesse sentido que Pontalis (3) fala da “melancolia da linguagem”, a linguagem como substituto do objeto amado perdido, a mãe. As palavras tornam presente uma ausência, ou ausente uma presença, são como que “presenças-ausências”, as da para sempre perdida mãe fusional, aquela com quem não era necessário falar, pois dela se fazia parte. Por este motivo, as palavras, a fala, se vinculam inextricávelmente ao desejo insatisfeito de estar naquela situação fusional anterior, naquele momento mítico onde criança e mãe eram uma Coisa (Kaufmann, Lacan – 4) maravilhosa e inominável, para sempre desfeita e perdida.

A linguagem não só é “melancólica”, mas também é intrinsecamente “estranha”, “estrangeira”, pois ela é a marca da distância e da separação entre a criança e a mãe. Vem de fora, do Outro que é a mãe enquanto sujeito diferente e separado da criança e, ao mesmo tempo, é a “lingua da mãe”, é o que há de mais próximo, íntimo e familiar, aquilo que se confunde com a própria criança. Acredito que aí esteja uma outra raiz da sensação do “unheimlichkeit”, do “estranho familiar” descrito por Freud (5). Sendo assim, as palavras, o discurso, constituirão sempre uma lingua estrangeira, imposta à criança, imposição dura e, no entanto, indispensável ao estabelecimento das bases de seu psiquismo, a seu advento como sujeito humano. A estranheza da linguagem, da qual nem sempre nos damos conta, se evidencia, por exemplo, na brincadeira infantil que consiste na repetição de uma palavra à exaustão, o que faz com que ela perca todo e qualquer revestimento simbólico, restando apenas o vazio: o real de puros sons sem sentido.

A criança “infans”, que não fala ainda, ouve, absorve, apreende, aprende a fala dos adultos, estes sons absolutamente desconhecidos, misteriosos, surpreendentes, enigmáticos, fascinantes.

Retomando agora o caso do irmão de meu analisando e dos fiéis fundamentalistas, podemos imaginar que eles, ao falarem “linguas”, estão, um em nível psicótico ou outros em nível neurótico (histérico), regredidos e identificados com a mãe, com os adultos, com os portadores da língua, os “falantes”. Revivem, assim, aqueles momentos fundamentais e constitutivos do psiquismo, em que ouviam a lingua “estrangeira”, uma algaravia incompreensível, carregada de sentidos e desejos dos adultos (Laplanche)(6), o discurso do Outro, discurso que expressa o desejo deste Outro, discurso que vai constituir o sujeito para sempre alienado de si mesmo (Lacan)(7). Estas mensagens e palavras primeiras, misteriosas, estranhas, fascinantes, estarão para todo o sempre gravadas no Inconsciente, na verdade sendo seu núcleo central (Laplanche)(8).

Não é indiferente que, nos dois exemplos – o irmão do analisando e os fiéis, isso aconteça num ambiente sagrado, religioso, onde está em jogo a presença de um deus, que tudo sabe e de quem se recebe todos os dons. A recriação de pais poderosos e protetores, em quem se pode confiar e de quem se pode esperar amparo e proteção é a base de toda religião. Assim, o milagre relatado nos Atos dos Apóstolos poderia ser considerado uma ilustração mítica do processo de aquisição da linguagem.

Essa característica encantatória da fala, da linguagem, que nós analistas teorizamos, os poetas têem dela conhecimento intuitivo. Essa linguagem, que não tem apenas seu aspecto operacional de comunicação e troca de informações, mas que está para sempre ligada à perda dos objetos amados, que representa estes objetos, que está ligada à introjeção do discurso alienante do Outro, a estes significantes enigmáticos, essa a lingua materna, essa lingua primitiva, eivada de desejos e organizadora das fantasias, é essa a lingua que interessa ao psicanalista e ao poeta.

É partindo desta premissa que Mannoni explica a estranheza provocada pela poesia de Mallarmé (9). Aquele texto sonoro, rico de rimas, de assonâncias, de palavras que se agrupam num conjunto formalmente perfeito mas cujo conteúdo parece escapar, parece não existir, que não se consegue captar inteiramente, que meio se adivinha, que mantem-se num lusco-fusco que conduz a um encantamento, um maravilhamento, tudo isso que acontece na leitura de Mallarmé remeteria o leitor à evocação de vivências arcaicas infantis ligadas aos primeiros contatos com a “desconhecida” língua materna.

Se isso é particularmente evidente em Mallarmé, na verdade é uma capacidade comum a todos os poetas, que recriam, sem sabê-lo, no leitor este prazer antigo que teríamos sentido um dia ao termos nossos primeiros contatos com a lingua.

Poderíamos dizer que Mallarmé (e, por extensão, todos os grandes poetas) , tal como o irmão do paciente e como os fiéis, “fala línguas”. Mas não podemos deixar de lado uma diferença essencial. É verdade que há uma matriz comum, mas algo de radical separa tais situações, pois em Mallarmé (e em outros poetas) temos uma das mais finas e complexas produções poéticas, enquanto nos outros casos o que aparece são sintomas regressivos, formas de identificação arcaica em estado bruto, não reelaboradas estéticamente, que é o que distingue a arte do mero sintoma.

Essa distinção pode ser ilustrada com um episódio da história literária. Quando Joyce estava escrevendo “Finnegans Wake”, sua filha Lucia entrou em surto psicótico e passou a escrever na forma típica de seu distúrbio mental, produzindo uma escrita desagregada, fragmentada, sem sentido, cheio de neologismos e barbarismos. Joyce, assustado com a doença da filha, recusa-se a reconhecê-la como tal e passa a achar que a filha estaria fazendo importantes criações linguísticas estéticas semelhantes às que ele mesmo estava inventando em “Finnegans Wake”. Joyce recorreu a Jung, que delimitou a diferença entre a produção estética de um e a escrita sintomática da outra (Ellmann)(10).

Mais do que oportuna, a menção a Joyce e “Finnegans Wake” é imprescíndivel quando o assunto é linguagem e literatura. Embora produzindo numa linha diferente da de Mallarmé, Joyce igualmente tem na linguagem o centro de suas preocupações. “Finnegans Wake”, que dele exigiu tantos anos de esforço, é um marco importante por inaugurar, como dizem os irmãos Campos, “a era da textualidade, da literatura do significante ou do signo em sua materialidade mesmo” (11). Aí, longe dos realismos e dos enredos, o grande personagem é a própria linguagem. Joyce recria a linguagem enquanto magma primitivo de onde brotam todos os enredos e a própria realidade, imaginando-a num tempo primevo quando os usos e os costumes ainda não a tinham conformado e cristalizado. Ali, o significante recupera sua feição proteica. De certa forma, poderíamos pensar que também “Finnegans Wake” remete, por outras vias, a esses tempos primevos dos primeiros encontros da criança “infans” com a lingua materna. Vê-se ainda que estamos muito próximos dos neologismos e da glossolalia enquanto sintomas psicóticos, característicos principalmente da esquizofrenia. Daí a compreensível e já mencionada confusão que o próprio Joyce estabeleceu com sua filha.

Se Mannoni, como vimos, entende a forma como Mallarmé trata a linguagem como o recriar da relação primordial da criança “infans” com a mãe, num momento de apreensão e identificação, de introjeção da linguagem, não deixa de ser interessante comparar esta abordagem com a de Kucera, que vê como uma forma de ataque sádico os “maus tratos” que Mallarmé inflinge à língua mãe (12).

É ainda Mannoni quem cita uma passagem da vida de De Quincey, quando este sentia inexplicável prazer ao assistir uma missa em espanhol. Ouvir aqueles sons totalmente estranhos lhe era muito prazeiroso (13).

Essa experiência de De Quincey dificilmente ocorreria hoje em dia, quando os meios de comunicação, o turismo, os negócios, os movimentos migratórios aproximam universos linguísticos, fazendo com que todos tenham desde a mais tenra infância a experiência de ouvir outras línguas que não a materna, banalizando-se, diluindo-se e camuflando-se assim a fascinação com a língua estrangeira enquanto eco de uma vivência arcaica.

Possivelmente isso só e raramente ocorreria hoje em lugares mais remotos, distantes, com populações muito isoladas, sem contato com o mundo externo. Creio ter presenciado algo assim quando criança, fato que registrei pelo seu inusitado e até mesmo constrangimento, embora só pudesse entendê-lo anos depois.

No final dos anos 50 fui para o interior do Ceará, a uma cidade onde um tio era prefeito. Naquelas brenhas pobres, de população quase totalmente analfabeta, sem eletricidade, isolada dos centros maiores, muito poucos tinham rádio que captava a capital ou alguma outra cidade maior distante. Minha tia era professora de francês e naquele mesma época recebeu alguns amigos franceses que não falavam português.

Calhou de chegarem à casa do meu tio alguns correligionários que moravam em sítios e povoados distantes da cidade, uma gente completamente iletrada, isolada. Além do português mais ou menos regular dos mais abastados da região, aqueles homens deviam conhecer apenas seus patuás e, provavelmente, o remoto latim das missas, que talvez nem considerassem como uma língua propriamente dita e sim como uma fórmula mágica de comunicação com o divino, algo imcompreensível e inacessível.

Lembro muito bem a surpresa imensa e o júbilo daquela gente frente aos franceses. Eles ficaram num misto de encantamento e zombaria, não conseguiam se afastar deles e não paravam de rir, imitando-lhes o modo de falar. Eles quase não podiam acreditar no que ouviam. Parecia-lhes estranho, como que aquelas pessoas falavam daquele jeito?

Hoje entendo que estariam revivendo o encanto dos primeiros contatos com a língua materna ainda “estrangeira”, não identificados com a mãe e/ou adultos – como nos casos do irmão do analisando, dos fiéis, de Mallarmé e os poetas – mas revivendo diretamente a posição da criança.

Recentemente vimos nos jornais a notícia de que Fidel Castro, na cerimônia de posse de sua última “reeleição”, bateu seu próprio recorde, falando ininterruptamente por 9 (nove) horas. Esse fato levanta algumas questões. Para quem falava Castro? Qual seria seu interlocutor imaginário? Acreditaria ele que sua platéia estaria interessada e atenta durante tanto tempo? Importaria o conteúdo de sua fala? Ou o que estava em jogo, o que interessava efetivamente, era o ato de falar enquanto símbolo e manifestação direta de poder, de dominação e sujeição do outro?

Escolheria esta última hipótese como a mais provável e, sendo assim, a truculência autoritária de Castro – impensável em qualquer situação democrática, onde nenhum lider ousaria impor-se a uma platéia por tanto tempo – seria uma ilustração da truculência estrutural do discurso do Outro (mãe, adultos) sobre a criança. Discurso que se impõe à criança e a submete, alienando-a de seu próprio desejo e, paradoxalmente, constituindo-a como sujeito desejante.

Sob este prisma, o discurso de Castro seria mais uma manifestação do “falar línguas”, este estar identificado com o adulto que impõe o discurso à criança “infans”.

ADENDO – Vimos acima como a palavra transcende sua condição de mero signo comunicativo para, enquanto significante e manifestação do simbólico, expressar nossa mais pura essência. As palavras remetem sempre ao objeto perdido, daí a essencial “melancolia” da linguagem, no dizer de Pontalis. É nesse sentido que a palavra é a morte da coisa. Ou seja, é a representação e simbolização de algo que é referido e que na maioria das vezes não está presente. Essa visão sobre as palavras está muito bem captada em duas poesias.

É interessante notar que nelas as palavras não são forçadas a assumir seu aspecto proteico e multiforme, de significante aberto a infinitas significações, nem buscam o enigmático e o misterioso em cujas ambiguidades se abrigam todas as possibilidades, que são as características de Joyce e Mallarmé. Aqui elas recuperam sua feição mais convencional, se esforçam para significar algo específico e conseguem fazê-lo com grande propriedade.

Uma das poesias é de Octavio Paz. Chama-se “Conversar” (14):

Leio num poema:
conversar é divino.
Porém deuses não falam:
fazem, desfazem mundos,
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito desce
e desata as línguas,
porém não fala palavras:
fala lume. A linguagem
pelo deus inflamada
é uma profecia
de chamas, um desabar
de sílabas queimadas:
cinzas sem sentido.

A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: palavras não
são signos, são séculos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.

Os deuses não padecem, como nós humanos, das vicissitudes de tempo e espaço, instauradores da perda e da separação. Na medida em que eles são onipotentes e onipresentes, não estão longe de nada, não perdem nada, podem ser qualquer coisa.

Somos como “deuses” quando estamos em nossa relação simbiótica e indiscriminada com a mãe. Vivemos em regime de onipotência e onipresença. Não estamos separados da mãe, não a perdemos. Consequentemente, não precisamos falar com ela. “Somos” a mãe.

Nossa condição de adultos é o contrário daquela onipotência. Nossa vida é um rio que nos leva para longe sem cessar, nos afastando permanentemente de coisas, lugares, pessoas, de nossos entes queridos, de nós mesmos. Precisamos então das palavras para representar o ido e o perdido. As palavras são nossa única possibilidade de retê-los, de guardá-los.

A palavra é filha da morte sim, sendo a morte nossa maior contingência, a maior prova de nossa humanidade. As palavras são indicadores de nossa submissão ao tempo, mas são, também e paradoxalmente, nossa única mas potente forma de vencê-lo. Como dizia Shakespeare, é a única forma de afastar o tigre do tempo cuja garra ameaça a face da amada, que ficará para todo o sempre jóvem no soneto imortal.

Não é difícil encontrar remanescentes desta situação quando agíamos como deuses, quando não precisávamos da palavra por estarmos fundidos com a mãe. Vemos isso no consultório e na vida cotidiana. Nosso narcisismo nos faz lamentar ter que falar, gostariamos que nossos pensamentos e desejos fossem adivinhados e realizados sem que tivéssemos lutar para falá-los e realizá-los.

A outra poesia é de Dante Milano e chama-se “Vocabulário” (15):

Áridas palavras,
Refratárias, secas
Arestas de fragas
Secretando uma água
Morosa, suada,
Que não mata a sede.

São pedras na boca.
Rolam balbuciantes
Buscando um sentido.
Uma quer ser beijo.
Outra quer ser lágrima.

Não basta dizê-las.
Elas querem ser
Mais do que palavras.

Como captarei
A idéia sem fim
(Não sei de onde vem)
Que tenta exprimir-se…

Áridas palavras
Para as bocas ávidas,
E quando elas brotam
Não são mais que as notas
De uma extinta música…

Vemos aí, com grande beleza e clareza, a percepção do poeta, que entende a “melancolia da linguagem” e a expressa diretamente. As palavras “querem ser mais do que palavras”, querem voltar a ser coisas. Rebelam-se por serem apenas referências, sígnos, símbolos, significantes de uma “extinta música”, aquela que embalava a ligação com o objeto agora definitivamente perdido.

Bibliografia

1) “E quando se completaram os dias de Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar; e veio de repente do céu um estrondo, como de vento que assoprava com ímpeto, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, e o fogo repousou sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”.

“Estavam então habitando em Jerusalém judeus, homens religiosos de todas as nações, que há debaixo do céu. E logo que correu esta voz, acudiu muita gente, e ficou pasmada, porque cada um ouvia falar os discípulos na sua própria língua. Estavam pois todos espantados e se admiravam, dizendo: Por ventura não se está vendo que todos estes que falam são galileus? E como os ouvimos nós falar cada um a nossa língua em que nascemos?”.

“Partos, medos, elamitas e os que habitam a Mesopotâmia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frigia, a Pamfilia, o Egito, e as partes da Líbia que confina com Cirene e os vindos de Roma, também judeus, e prosélitos, cretenses e árabes, os temos ouvido falar em nossas línguas as maravilhas de Deus. Pasmavam pois todos e se admiravam dizendo uns para os outros: O que é que isso pode ser? Outros porém, escarnecendo, diziam: É porque estes estão cheios de mosto”. Ato dos Apóstolos – II – 1-13

2) Freud, S. – Além do Princípio do Prazer – pg. 25 – Edição Standard brasileira das obras psicológicas de S. Freud – Imago Editora – 1976

3) “No detalhe, no ínfimo, no passo a passo dos restos, a fala, quando nada a comanda a não ser seu próprio impulso, reconduz ao objeto perdido, para dele se desligar… Separar-se, desunir-se do objeto e de si, desligar-se do semelhante ao idêntico, medir incessantemente a distância entre a coisa possuída e a palavra que a designa, e que, ao designá-la, diz de imediato que ela não está ali.” – pg 143 – – Pontalis, J.-B. – “A Melancolia da Linguagem” in “Perder de Vista” – Da fantasia de recuperação do objeto perdido – Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro – 1991

4) verbete “Coisa” in Kaufmann, Pierre (org.) – Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – O legado de Freud e Lacan – Jorge Zahar Editor – Rio – 1996

5) Freud, Sigmund – O “Estranho” – Edição Standard Brasileira – Imago Editora – Rio – 1976

6) “Mas esse mundo adulto não é um mundo objetivo, que a criança teria que descobrir e aprender, como aprende a caminhar e a manipular coisas. Caracteriza-se pelas mensagens (linguísticas ou simplesmente semiológicas: pré ou para linguisticas) que questionam a criança antes que ela as compreenda, e às quais deve dar sentido e resposta (o que vem a dar no mesmo)” pg 118; “Pelo termo sedução originária qualificamos, portanto, esta situação fundamental na qual o adulto propõe à criança significantes não verbais tanto quanto verbais, e até comportamentais, impregnados de significações sexuais inconscientes” – pg 119 – Laplanche, Jean – Teoria da Sedução Generalizada – Artes Médicas – Porto Alegre – 1988

7) “O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito”. – pg 197 – Lacan, J. – O Campo do Outro e o retorno sobre a transferência – O Seminário – Livro 11 – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise – Zahar Editores – Rio – 1979

8) “Rapidamente constatamos que se trata de um mundo de significado e comunicação, transbordando por todos os lados as capacidades de apreensão e de controle da criança. De todos os lados afluem mensagens propostas. Por mensagens não entendo necessária nem principalmente as mensagens verbais. Todo gesto, toda mímica tem função de significante. Esses significantes originários, traumáticos, chamemo-los; “significantes-enigmáticos”, precisando o que entendemos por isso. Esses significantes não são enigmáticos somente pelo simples fato de que a criança não possui o código e que teria de adquirí-lo. Sabemos bem que a criança começa a habitar a linguagem verbal sem que lhe seja fornecido previamente um código, assim como podemos adquirir uma língua estrangeira pela prática diária. Não se trata disso. Trata-se do fato de que o mundo adulto é inteiramente infiltrado de significados inconscientes e sexuais, dos quais o próprio adulto não possui o código. E por outro lado se trata do fato de que a criança não possui as respostas fisiológicas ou emocionais correspondentes às mensagens sexualizadas que lhe são propostas; em resumo, que seus meios de constituir um código substitutivo ou provisório são fundamentalmente inadequados”.- pg 78… “O trabalho de domínio e de simbolização deste “significante enigmático” termina necessariamente em restos “fueros” inconscientes, que chamamos “objetos fontes” da pulsão”. -pg 120 – Laplanche, J. – Teoria da Sedução Generalizada e outros ensaios – Artes Médicas – Porto Alegre – 1988

9) “Pois com suas poesias (Mallarmé) reconduziu-nos à idade em que era preciso adivinhar o sentido do que ouvíamos. Foi Baudelaire quem disse que o gênio é a infância reencontrada à vontade. Em matéria de linguagem, com Mallarmé, isso é feito mas por meio de um artifício. Ele faz-nos viver um aspecto da linguagem que, para nós, biograficamente é um aspecto arcaico. Ele tem provavelmente a chance de não o saber. Realiza-o sem teorizá-lo. Não é o único, sem dúvida, há outros poetas que o fazem, por certo, mas não de uma forma tão sistemática.” (pg 66). “Mallarmé renova para nós uma experiência infantil….Brincamos de nos perder em nossa língua materna, pelo prazer do jogo de nela nos reencontrarmos”… (pg 71) – Mannoni, Octave – Um Espanto tão intenso – A vergonha, o riso, a morte – Ed. Campus – Rio de Janeiro – 1992

10) “Joyce nutria a secreta esperança de que, quando ele saísse da escura noite do Finnegans Wake, sua filha escaparia de sua própria treva”.[…] O pai dela teve várias discussões com Jung. Quando o psicólogo indicou elementos esquizofrênicos em poemas que Lucia escrevera, Joyce, lembrando os comentários de Jung sobre o Ulisses, insistiu em que eram antecipações de uma nova literatura, e disse que sua filha era uma inovadora ainda não compreendida. Jung garantiu que algumas de suas palavras “portmanteax” e neologismos eram notáveis, mas disse que eram acasos; ela e seu pai, comentaria ele mais tarde, eram como duas pessoas descendo ao fundo de um rio, uma caindo, outra mergulhando.” Pg. 837 – Ellmann, Richard – James Joyce – Editora Globo – São Paulo – 1989

11) “O Finnegans Wake, mais ainda que o Ulisses, assinala o dissídio com a era da representação (do romance como raconto ou fabulação) e instaura, no domínio da prosa, onde se movia o realismo oitocentista com seus sucedâneos e avatares, a era da textualidade, a literatura do significante ou do signo em sua materialidade mesma (se o realismo subsiste, este será agora de natureza estritamente semiótica)”. – pg 18 – Campos, Augusto e Haroldo – Panaroma do Finnegans Wake – Editora Perspectiva – 3a. edição – 1986

12) “En tal sentido, torturó extrañamente la lengua francesa. Separa el epíteto del substantivo, colocó el adjetivo y sus complementos por delante del nombre modificado, aisló los adjetivos demostrativos, dió por entendidos los auxiliares de los verbos, suprimió las conjuciones explicativas, hizo desaparecer poco a poco los signos de puntuación que consideró como accesorios inútiles. Empleó el mismo término al mismo tiempo según el sentido propio y el sentido figurado, elevó a las preposiciones su lugar tradicional, invirtió los términos del desarollo lógico, mezcló incidentes en la frase principal sin advertir al lector por la presencia de paréntesis…(Fabureau). La crueldad y la falta de miramientos con que Mallarmé trata la lengua francesa prueba dos cosas: a la vez la cantidad de fuerzas destructivas en juego y esa tendencia fundamental hacia el aislamiento que se expressa en términos notablemente concretos”. in “Stephane Mallarmé, Kucera, Otakar (Praga) – rev. Psicoanali. (Argentina) – 7:249-94, 1949-50

13) – “Penso que essas visitas o faziam voltar aos primeiros meses de sua existência, quando sua língua materna ainda lhe era estranha” – pg 66 – Mannoni, Octave – Um Espanto tão intenso – A vergonha, o riso, a morte – Ed. Campus – Rio – 1992

14) in “A travessia poética de Paz”, de Augusto Massi, (tradutor do poema) caderno Mais! – Folha de São Paulo – pg 5 – 3/5/98

15) Dante Milano- Poesia e Prosa – Civilização Brasileira.

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