Necrofilia e canibalismo em em “Demônio de Neon” (“Neon Demon”, 2016), de Nicolas Winding Refn

Necrofilia e canibalismo em “Demônio de Neon” (“Neon Demon”, 2016), de Nicolas Winding Refn

Sérgio Telles

Atualmente disponível em streaming no NOW, o filme “Demônio de Neon”, de Nicolas Winding Refn foi indicado para a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, onde causou impacto e polarizou a opinião do público.
Refn cria uma visão hiperbólica do mundo da moda, ao contar o trajeto de Jesse, uma jovem inexperiente que chega a Los Angeles e desenvolve uma carreira meteórica como modelo fotográfico. A busca incessante pela beleza própria desse mundo transparece tanto no apuro formal do cenário, na iluminação e na trilha sonora como na escolha das atrizes. Tudo é esteticamente impecável, de uma perfeição quase desumana.
Uma cena no início do filme define a tese que o enredo vai desenvolver e o enfoque narrativo escolhido pelo diretor. Jesse, a jovem iniciante, chega a seu quarto num motel de periferia onde se hospedara e ali dentro encontra um puma. A presença da fera dentro do aposento afasta a narrativa do registro realista e a leva para o campo do fantástico? Não necessariamente. O gerente do motel trata com naturalidade o fato, como se fosse comum que pumas invadissem seu estabelecimento caso os hóspedes deixassem a varanda aberta, como fizera Jesse. Por outro lado, o feroz animal carnívoro anuncia a violência e a crueldade que se esconde atrás dos imperativos da beleza que rege o mundo da moda. Na verdade, a corrupção do mundo é geral, como mostra o mesmo gerente noutro momento, ao oferecer os serviços sexuais de uma menina de 13 anos ali hospedada.
Com sua rápida ascensão, deliberadamente ou não, Jesse desencadeia no mundo feminino que a circunda intensos desejos eróticos e fortes sentimentos de inveja, que fazem com que termine por ser literalmente devorada.
O narcisismo permeia as relações humanas explicitadas no filme. Fotógrafos e criadores da moda exigem submissão absoluta por parte das modelos, que vivem mergulhadas em grande competição e rivalidade invejosa entre si. Eventualmente se juntam não por afeto e sim por interesse, agindo de forma predatória para eliminar inimigos comuns.
Há um personagem que merece atenção especial por sua dimensão simbólica – a maquiadora, que se apaixona por Jesse e que não a perdoa por frustrar suas investidas amorosas. Durante o dia, ela trabalha com os grandes fotógrafos de moda, maquilando as modelos. À noite, trabalha numa funerária maquilando os cadáveres, preparando-os para o velório.
Os seres humanos não se apresentam aos outros de forma natural. Eles obedecem às convenções que estabelecem normas referentes aos cuidados corporais e a forma apropriada de se vestir para os encontros sociais. O corpo vestido que esconde a nudez original é uma abrangente e básica exigência de nossa cultura. A isso se acrescenta o desejo de se embelezar e seduzir, do que o rarefeito e artificial mundo da alta moda mostrado Refn é a expressão mais refinada.
Como mostra a maquiadora, esse desejo não se esgota com a morte. Vivos e mortos precisam de roupas e de maquilagem para enfrentar o olhar do outro.
Logo depois de ser rejeitada por Jesse, a maquiadora vai para o trabalho na funerária e usa o cadáver de uma jovem mulher para satisfazer seus desejos sexuais. A necrofilia é um exemplo radical da impossibilidade de tolerar as limitações impostas pelo desejo do outro. O cadáver é um objeto morto, sem desejo, sobre o qual a maquiladora tem pleno controle e ilimitado poder, podendo então dar livre vazão a suas pulsões sem correr o risco de ser escorraçada.
O canibalismo do qual Jesse é vítima é a forma primitiva de se identificar com o outro, de possuir o outro, de se apropriar de suas qualidades invejadas, de eliminar a insuportável alteridade que ameaça o narcisismo.
As duas modelos e a maquiadora que devoram Jesse querem destruí-la, é claro, mas querem também se apropriar de seu amor, de sua beleza e carisma. Uma delas sucumbe à culpa, mas a outra segue impassível, deglutindo até mesmo aquilo que a primeira não pudera digerir e vomitara.
É interessante que a parte impossível de digerir seja o olho de Jesse, pois o filme de Refn gira exatamente em torno da pulsão oral e da pulsão escópica. Olhar e ser olhado, exibicionismo e voyeurismo são elementos de importância central nos procedimentos da moda, com suas fotos e desfiles. O olho remete também ao mau-olhado, o olhar destrutivo próprio da inveja, assim como ao olhar persecutório, que vê o crime cometido e exige punições.
Seria também uma homenagem ao clássico “Um Cão Andaluz”, de Buñuel.
(janeiro 2017)

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