MISSA AERÓBICA

Tenho percebido que causa espécie aos católicos mais ilustrados alguns meios que a Igreja tem lançado mão para trazer de volta seu rebanho, atualmente arrebatado pelos falsos profetas pentecostalistas fundamentalistas, especialmente os televisivos, que prometem contatos diretos com o Espírito Santo, proporcionam grandes transes e arrebatamentos catárticos.

Refiro-me a dois fatos. O primeiro diz respeito ao Padre Marcelo Rossi, cuja recente festa de Natal arrebanhou 50.000 fiéis para sua missa aeróbica e seu Terço Bizantino. A outra é o anúncio, feito pelo Vaticano, de que o país terá 30 beatos até o ano 2000. São os Padres Andrea Soveral e Francisco Ferro e os 28 fiéis mortos por holandeses e indígenas nas cidades de Cunhau e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, em 1645. Trata-se pois de um fato do século XVII, algo que teria ocorrido há 353 anos (Estadão, 22/12/98).

Os que ficam um tanto escandalizados julgam ver aí manobras e técnicas de manipulação que seriam indignas dos supostos altos desígnios da Igreja, algo inusitado, nunca dantes ocorrido e que, portanto, mostraria uma decadência, uma deterioração, uma prática censurável e inaceitável.

O Padre Marcelo Rossi e suas cantorias seriam um retrocesso, uma apelação grosseira e vulgar, uma concessão indevida que favorece a manifestação de uma religiosidade mais primitiva e ignorante. Por outro lado, a beatificação de 30 brasileiros neste momento também cheira mal, parece um oportunismo de má fé, um expediente eleitoreiro com os quais estamos infelizmente tão familiarizados.

A meu ver, tais escrúpulos não têm muita razão de ser. Mais revelam um esquecimento ou desconhecimento da história da Igreja. Episódios como o do Padre Marcelo ou o uso político da beatificação ou santificação são procedimentos rotineiros no jogo de poder que a Igreja não cessa de exercer, quer seja contra outras igrejas, quer seja contra o poder temporal. Manipulação, intimidação, coerção, tortura tiveram evidentemente seu ponto alto com a Inguisição, mas é importante lembrar que ela era apenas a exacerbação de práticas corriqueiras e consideradas legítimas na defesa e na difusão da Fé.

A Igreja Católica como todas as outras – sempre foi exímia nas técnicas de marketing, como mostram seus rituais, seus sacramentos, suas festas. É verdade que ela chegou tarde ao meio mais poderoso atual, que é a televisão, descoberta em suas potencialidades religiosas nos anos 50 pelos pastores norte-americanos.

Os católicos mais ilustrados sentem-se constrangidos com o Padre Marcelo e com o oportunismo da beatificação por considerá-los desvios equivocados da Igreja. Penso o contrário. Acho que o mal-estar que tais fenômenos lhes causam dá-se não por serem eles um erro ou um equívoco e sim por revelarem de forma muito clara a verdadeira face do fenômeno religioso, forçando uma desidealização da igreja.

Não lhes é fácil constatar a vertente política temporal oportunista da Igreja nem a real expressão do sentimento religioso proporcionado por Padre Marcelo. Com ele caem as finas elaborações filosóficas e teológicas da religião, expondo seu núcleo central irracional, sua dimensão emocional primitiva decorrente do desamparo infantil que exige a presença de figuras idealizadas paternas protetoras, que alimenta o desejo de perder-se na multidão, de abdicar da penosamente adquirida identidade para fundir-se com um deus-pai num sentimento oceânico, numa negação de uma completude para sempre perdida.

Fica ali claro porque Freud dizia que a religião é nosso delírio socialmente compartilhado.

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