“Martin Eden”, de Jack London

“Martin Eden”. de Jack London

Sérgio Telles

De Jack London eu conhecia apenas algumas versões publicadas pela Ebal na Edição Maravilhosa. Imagino que algum tempo atrás essa afirmação pareceria críptica, compreensível apenas para algumas pessoas maiores de 60 anos. Hoje, com os buscadores da internet, em segundos, curiosos de qualquer idade podem acessar os dados sobre Ebal e Edição Maravilhosa, como, de resto, sobre qualquer outra coisa. Parece não haver mais questões sem respostas, basta perguntar ao Google, que tudo sabe. Essa onisciência ainda nos deixa um tanto desarvorados. Talvez porque confundimos o acesso instantâneo à informação com a produção de saber, processos interligados mas diversos, sendo o último necessariamente lento, reflexivo, fruto de longos anos de estudos e introspecção.

Pois bem, Jack London, que só conhecia através das revistas em quadrinhos, estava no valhala onde repousam os autores queridos que iluminaram nossa infância. Ao nos falarem de intrépidas aventuras desbravando o desconhecido, eles nos davam coragem para enfrentar o perigoso mundo que se iniciava imediatamente além da soleira da casa paterna. Logo depois descobriríamos que a ousadia e a disposição aventureira não eram suficientes para enfrentar os desafios propostos pelo mundo. A força física tinha que ser substituída pela capacidade intelectual, o inimigo deixava de ser o flamejante dragão e podia aparecer sob disfarces tão prosaicos quanto a mera rotina, o suceder tedioso de dias imutáveis, aos quais, ainda assim, não é possível dar-se o luxo de menosprezar. Seguíamos em frente, acompanhados por outros autores e livros que, em algum momento, iriam descansar no mesmo lugar onde os esperava Jack London. Não que os tenhamos relegado ao esquecimento, pois cada vez que nos lembramos do encantamento que um dia nos proporcionaram, constatamos que discretamente esses livros e autores estiveram sempre conosco, pois fazem parte de um todo que se constituiu como nossa visão de mundo.

Tudo isso me veio confusamente à cabeça quando meu filho Marcos me disse que estava gostando de Martin Eden, um livro de Jack London, com o qual em seguida me presenteou. A obra o fizera recordar de, quando criança, me ver escrevendo, mandando originais para editoras e aguardando suas respostas – a áspera faina testemunhada por familiares e amigos próximos daqueles que escrevem.

De fato, em Martin Eden, Jack London deixa de lado o mundo exótico e selvagem das aventuras juvenis e, apoiando-se em elementos autobiográficos, se embrenha em território igualmente hostil e inóspito, aquele que cerca um postulante ao título de escritor.

Trabalhando como marinheiro, Martin Eden defende numa briga um abastado rapaz e este, em agradecimento, o recebe em sua casa, apresentando-lhe um mundo que lhe era até então desconhecido. Ali Martin conhece Ruth, irmã do anfitrião, e trava conhecimento com a arte e literatura, apaixonando-se perdidamente pelas três. Desenvolve uma grande idealização do mundo burguês, acreditando ser ele constituído por seres refinados, infinitamente superiores a seus familiares a amigos pertencentes ao proletariado. Resolve abandonar sua profissão e se dedicar ao ofício de escrever, o que desencadeia generalizada desaprovação de todos à sua volta. Padecendo com miséria econômica e a incompreensão de todos, Martin sofre ainda mais com a indiferença e desprezo dos editores, que recusam sistematicamente seus originais.

Quando finalmente chegam o reconhecimento e o sucesso financeiro, Martin Eden tem uma reação inesperada e incompreensível. Ao invés de se congratular com o triunfo longamente esperado, Martin o rejeita. Não permite que aqueles que antes desprezavam sua obra agora a elogiem irrestritamente e denuncia-lhes a inidoneidade moral e cegueira crítica. Sente-se desiludido com o dinheiro e a glória literária. A antes idealizada burguesia agora lhe parece sem nenhum valor, muito aquém de sua própria inteligência, criatividade e cultura. Sente-se deslocado ali e não se adapta mais a seu meio de origem, ao qual tenta voltar. Sexo, amor, mulheres, prestígio, poder, nada mais lhe interessa ou dá prazer. Planeja uma viagem para os mares do Sul, mas não se anima a realizá-la.

Não há uma explicação lógica para a reação de Martin Eden. Ele deveria estar exultante, pois finalmente provava seu valor àqueles que por tanto tempo o desprezaram. Poderia agora dar o troco pelas humilhações e rejeições que tivera de suportar por tanto tempo. Mas não consegue. O pleno usufruir da vitória lhe é negado.

Martin Eden é um dos que fracassam com o êxito, um dos que não suportam o sucesso. Essa configuração, que parece tão improvável para o senso comum, é, no entanto, bastante frequente na clínica psicanalítica. Deve-se à culpa inconsciente e aos correlatos desejos de punição que acompanham não poucas pessoas pela vida afora. No caso de Martin Eden podemos imaginar que o longo período de humilhações sofridas pela incompreensão de seu talento e pela recusa de sua obra lhe tenha provocado intensos sentimentos de ódio e desejos vingativos contra aqueles que via como responsáveis por essa situação, sentimentos que tivera de reprimir para continuar vivendo. A percepção interna desse ódio aumenta a culpa e necessidade de punição. Quando a situação muda, não pode usufruir o triunfo por ter sido mau e desejado destruir os inimigos. O superego exige uma punição por sua maldade, e ele mesmo se aplica o castigo ao se impedir o gozo das benesses trazidas pelo sucesso. Por outro lado, o próprio triunfo é vivido como extremamente perigoso, pois com ele o ódio pode sair do controle, eliminando seus rivais ou neles desencadeando retaliações invejosas que poderiam aniquilá-lo. Nessas circunstâncias, pode parecer que o único e desesperado recurso para conter o ódio seja voltá-lo contra si mesmo.

Martin Eden é um retrato tocante e despretensioso das agruras próprias da vida de um escritor. Ao caracterizar o artista como “as águias solitárias que pairam, isoladas, no azul dos céus muito acima da Terra e do formigar do fardo gregário da vida”, Jack London estaria sendo romântico ou realista?

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo” em 16/03/2013

Sem comentários.

Deixe seu comentário