Lipsky e David Foster Wallace em “O fim da turnê” (“The End of the Tour”, 2015), filme de James Ponsoldt

Lipsky e David Foster Wallace em “O fim da turnê” (“The End of the Tour”, 2015), filme de James Ponsoldt

Sérgio Telles

Em 1999, o escritor e jornalista David Lipsky, que trabalhava na influente revista Rolling Stone, escreveu uma longa matéria relatando suas impressões ao acompanhar David Foster Wallace nos últimos dias da turnê publicitária de lançamento de seu livro Infinite Jest (Graça Infinita, Companhia das Letras), que naquele momento começava a receber grande aclamação da crítica e que se transformou num clássico moderno. David Foster Wallace alcançaria rapidamente o estrelato literário e se suicidaria 9 anos depois, em 2008.
O filme O fim da turnê (The End of the Tour, 2015) , dirigido por James Ponsoldt e com roteiro de Donald Margulies, premiado autor teatral e professor de Yale, baseia-se no livro Although of course you end up becoming yourself: a road trip with David Foster Wallace, que Lipsky escreveu sobre os cinco dias que conviveu com DFW, viajando de carro e avião para as cidadezinhas onde ele lançaria o livro e daria autógrafos. Apesar da explícita admiração de Lipsky e sua disposição em manter uma amizade com DFW, os dois nunca mais se viram.
O filme está centrado na relação tensa e difícil que se estabelece entre os dois homens.
Lipsky é então um escritor pouco divulgado e mais novo (embora a diferença de idade entre eles fosse de apenas 4 anos) e DWF já é um escritor bastante conhecido e a um passo de atingir o status de ícone do mundo literário. A desigualdade de posições estimula, por um lado, a rivalidade e a inveja por parte de Lipsky e, por outro, a superioridade condescendente em DFW.
O encontro se estabelece em função de interesses profissionais comuns. Lipsky pretende fazer uma entrevista que lhe daria mais projeção e DFW espera que a entrevista ajude a divulgação de seu livro. A proximidade forçada torna difícil manter um relacionamento estritamente profissional, a entrevista necessariamente mobiliza aspectos da intimidade tanto do entrevistado como do entrevistador. A ambiguidade da situação se evidencia logo no início, quando DFW insiste para que Lipsky fique em sua casa ao invés de ir para um hotel, e persiste durante todo o tempo em que convivem.
Para DFW, é um momento muito delicado, pois sabe que seu prestigio, que até então se circunscrevera a um espaço mais restrito, estava se ampliando. O próprio fato de estar sendo acompanhado por um repórter da Rolling Stone que escreveria uma matéria extensa sobre sua pessoa é uma evidência disso, o que o encanta e assusta. Sente-se atraído pelas benesses da fama mas se preocupa com a exposição de sua vida privada, tentando controlar o que Lipsky escreveria sobre ele, impedindo que ele entreviste seus pais e uma antiga namorada. Tem plena consciência do poder da mídia e de como ela molda a cultura de massa, justamente um dos temas de seu livro. Teme ceder a seu apelo e se transformar em mais um produto de consumo.
Em discussões nas quais um toque paranoico não está de todo ausente, DFW desconfia que Lipsky tenta seduzi-lo para colher mais dados sobre sua pessoa, pensa que ele o manipula para transpor os limites imposto aos temas da entrevista. Teme estar, ele mesmo, dando uma impressão equivocada ao entrevistador. Levando em conta a fragilidade psíquica do escritor que culminaria com seu futuro suicídio, as dúvidas que ele expressa no contato com Lipsky talvez expressem as angústias e inseguranças em relação a sua própria identidade, reveladoras de uma estrutura egóica fragmentada.
Lipsky, por sua vez, tem dificuldades em entender as oscilações de humor e instabilidade de DFW, talvez em função da idealização que dele fazia. Também ele está às voltas com problemas relativos à sua identidade. Em determinados momentos, não se discrimina de DFW, como quando as responsáveis pela turnê se dirigem a DFW e ele responde como se as perguntas lhe fossem dirigidas. Em outros se sente apequenado e humilhado frente a grandeza de seu entrevistado.
Lipsky hesita em abordar temas que julga serem difíceis para DFW e precisa da pressão de seu editor para indagar sobre sua tentativa de suicídio aos 20 anos e se o uso de heroína teria tido alguma influência no episódio. Corriam boatos nesse sentido, talvez porque o personagem principal de seu livro fazia uso de heroína e sofrera uma internação. A pergunta, que incialmente gera grande desconforto, mesmo assim possibilita um momento de intimidade e exposição por parte de DFW. Ele não só insiste na diferença entre realidade e ficção, discriminando o personagem de seu autor, como afirma que a televisão era a única droga na qual era viciado na ocasião. Diz que a tentativa de suicídio se deu por estar deprimido e que esse estado se assemelhava ao desespero de não ter saídas, tal como um sujeito que, no vigésimo andar de um prédio em chamas, se depara com duas únicas e inviáveis opções – permanecer no prédio e morrer queimado ou se jogar pela janela.
Ao se despedir, Lipsky toma coragem e dá um exemplar de seu livro com seu endereço de e-mail, mas DFW, apesar de dizer que não quer perder o contato, não retribui o gesto, não lhe dá seu próprio e-mail, e evita o abraço que Lipsky tenta lhe dar. Dias depois, Lipsky recebe um pacote em Nova York enviado por DFW, que abre com grande expectativa. Mas dentro havia apenas um sapato que havia deixado na casa dele, acompanhado de um seco bilhete que dizia – “é seu, não?”.
O filme é uma meditação sobre a condição de escritor, o desejo de fama literária, a solidão do gênio, as pressões em torno da criação artística. Aponta também para a impossibilidade da plena satisfação do desejo. Lipsky deseja ser como DFW e este o adverte contra tal equívoco. O suicídio posterior de DFW dá uma boa medida dessa impossibilidade, ele que tinha conseguido tudo o que Lipsky poderia almejar – fama, dinheiro, pleno reconhecimento de seus pares. Mas não fora o suficiente.
(abril 2017)

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