Lamentações freudianas em torno do atentado em nova iorque

A silhueta do jato rasga o céu azul de um dia radiante. Ele sobrevoa Manhattan e passa perto das duas torres do World Trade Center. Ao invés de continuar deslizando pelo espaço livre do céu, ele se joga contra uma das torres, provocando uma grande explosão. O que parecia ser um terrível acidente logo se define como um atentado terrorista, pois passados alguns minutos, outro jato repete o feito na outra torre. E mais um pouco, em meio ao fogo e fumaça, os dois colossais prédios sucumbem, viram escombros fumegantes.

Todos nós vimos estarrecidos essas cenas na televisão. Era – e é – difícil deixar de olhá-las. Mal acreditamos no que vemos.

E o que vemos, senão uma assustadora mostra de até onde pode ir a loucura humana, o fanatismo, a onipotência psicótica, a consumação da destrutividade mais desimpedida, a inquietante expressão da pulsão de morte ?

Os terroristas, quaisquer que sejam as ideologias que os sustentam, consideram-se os donos do bem e da verdade, agem sempre em nome do que consideram uma inquestionável “boa causa”. O mal e a mentira ficam atribuídos a um inimigo, que, por esta razão, deve ser eliminado. Nada os demove dessa certeza delirante, que a tudo os autoriza.

Passado o grande atordoamento do choque, começamos a recuperar a capacidade de pensar, constatando que um fato de tal magnitude exige grande reflexão.

Além da indignação contra a violência, além da comiseração pelos inocentes mortos, além da solidadariedade com todos que perderam entes queridos, além do luto a ser elaborado por tudo o que perdeu-se nesse momento, além dos imprescindíveis trabalhos de investigação, prisão e punição dos responsáveis além da reconstituição material dos bens atingidos, além de tudo isso, fica um trabalho a fazer – o entender a origem dos atos terroristas, coisa imprescindível para viabilizar a própria prevenção de tais atos.

Por mais louco e desmedido, não se pode descontextualizar um ato terrorista. É preciso pensar onde ele se encaixa, em meio ao inevitável movimento de ação e reação que conduz os atos humanos.

A própria existência do terrorismo – seja ele qual for – precisa ser entendida como um sintoma. O terrorismo sempre se manifesta atacando um determinado “establishment” – seja ele qual for. Terrorismo e “establishment” têm uma relação dialética. É preciso entender essa relação. É necessário ver o que no “establishment” cria condições para o aparecimento do terrorismo.

Se o terrorista se julga o dono do bem e da verdade, e considera que o “establishment” é o mal que precisa ser combatido e eliminado, não podemos compartilhar deste mesmo raciocínio equivocado. Ou seja, não podemos achar com o “establishment” é o bem e a verdade, e os terroristas são o mal a ser combatido e eliminado.

Lamentavelmente, é exatamente assim que acontece. O Presidente Bush, no final de seu discurso após o atentado, disse: “Essa será uma monumental luta entre o bem e o mal. Mas o bem vai vencer”. Entenda-se – os Estados Unidos são o bem, os terroristas são o mal.

Essa cisão entre o bem e o mal, ficando o interessado com o bem e o mal sendo projetado num inimigo, é um mecanismo básico do funcionamento psíquico primitivo, típico do funcionamento psicótico paranóico. E, como vemos, rege ambas as posições em jogo, os terroristas e o “establishment”.

Essa situação é fruto da negação de uma realidade psíquica que nos incluí a todos: somos todos irremediavelmente uma mistura de bem e de mal, de pulsão de vida e pulsão de morte, de Eros e Tânatos. Somente o reconhecimento dessa nossa condição impedirá a continuidade da negação psicótica, que usa dos mecanismos psíquicos de cisão e de projeção, que permite a formulação de julgamentos do tipo “eu sou o bem, você é o mal, portanto posso destruí-lo” – julgamentos que tem consequências catastróficas. Essa nossa realidade psíquica se expressa a nível individual, intersubjetivo e grupal – desde os pequenos grupos até as grandes instituições sociais, como o estado.

Dificilmente alguém medianamente bem informado, diria que o “establishment” – no nosso caso, representado pelos Estados Unidos – são o “bem”. Não se pode negar que o poder do “establishment” se exerce no comando da economia mundial, que essa dá hegemonia aos valores culturais eurocêntricos e empurram para o ostracismo e para a miséria uma larga parcela da humanidade.

Uma outra fórmula usada pela media para tratar o problema é falar do embate entre “civilização” e “barbárie”. Da mesma forma como afirmei acima, ao dizer que há uma relação entre “establishment” e terrorismo, o mesmo ocorre entre “civilização” e “barbárie”. Fôsse a “civilização” tão “civilizada”, teria como prioridade máxima a superação do estado de “barbárie” de grande parte da humandidade, através da educação e da mais justa distribuição da riqueza econômica e cultural. Não é isso o que ocorre. O que vemos é que a tal “civilização” – para manter seus interesses – explora e mantém a “barbárie”.

Assim, se antes falei da loucura expressa no terrível atentado de Nova York, é necessário que se fale também da inequívoca loucura na condução da economia mundial. Também aí detetamos os mecanismos de cisão, pois fica a economia dissociada e cindida dos aspectos políticos e sociais, o que é uma perversão de consequências trágicas.

Recentemente li no “Estadão” que profissionais liberais desempregados e sem mercado de trabalho estavam disputando restos de comida com demais mendigos nas latas de lixo nas ruas de Buenos Aires. Essa é apenas mais uma evidência – talvez mais angustiante pela proximidade conosco – das distorções loucas do dito “mercado”.

Ao “establishment” econômico, regido por uma lógica própria, importa o lucro, dissociado de qualquer outra consideração humana. Isso é louco.

É verdade que no ato terrorista – com a qual não se pode compactuar e se deve condenar em princípio – há um tom de recurso último desesperado, que pode advir quer seja da onipotência delirante dos terroristas, que não se dobram frente as evidências da realidade e preferem a morte e reconhecer as limitações de suas pretensões; quer seja da arrogância do “establishment” em ouvir queixas que denunciam suas distorções e injustiças.

Em momentos como esses, fica para mim evidente o que Jacques Derrida afirmou em seu discurso nos “Estados Gerais da Psicanálise” em Paris: para a construção de uma nova democracia, de novos padrões de relacionamento social entre pessoas e estados, para a revisão dos projetos políticos, jurídicos e éticos que regem tais relações, é imprescindível que sejam eles vistos à luz dos conhecimentos psicanalíticos. É preciso contar com a pulsão de morte, que gera a destrutuvidade e a violência nas relações humanas, e entender que ela transcende a lógica racional.

Não se trata de ingênua ou megalomaniacamente pensar que a psicanálise é a panacéia que vai curar todos os males da humanidade.

É reconhecer que, na elaboração dos discursos que reagem o social, não se pode mais ignorar a descoberta freudiana do inconsciente, de como ele permeia e distorce o conhecimento consciente. A psicanálise ensina como funciona o psiquismo humano, mostra a existência do irracional, do infantil, a força do inconsciente, a presença da pulsão de morte, da agressão, da violência, da destrututividade própria a cada um de nós, e como tal ela nao pode nem deve ser eliminada. Ela faz parte estrutural de nosso modo de ser. Temos que apreender a viver com isso, que se manifesta individualmente e em grupos – em todos os grupos humanos, desde os menores até as grandes organizações sociais, como as instituições e os estados.

O saber consciente, a lógica e a racionalidade conscientes entram irremediavelmente em armadilhas e desvios, quando se ignora o funcionamento do inconsciente. Mecanismos psíquicos inconscientes básicos, como os já citados cisão e projeção, precisam ser levados em conta como características do nosso pensar a realidade.

Durante muito tempo a afirmação que Derrida agora expressa era combatida ou ridicularizada tanto por psicanalistas como por sociólogos ou militantes políticos, como uma intrusão equivocada do pensamento psicanalítico no âmbito do social. Este, deveria ser lido especificamente através do decifrar da economia, cuja lógica se escondia e disfarçava nas superestruturas por ela mesmo criada. Como sabemos, Marx desvendou por completo tal funcionamento.

Mas, como diz Derrida, as análises puramente econômicas se esgotaram. Não é mais possível acreditar só nisso. Vimos o que a “racionalidade” e o “planejamento” da

economia, fez na União Soviética – o totalitarismo, a falência total pela impossível concorrência da Guerra nas Estrelas com os Estados Unidos. Vimos o crescimento do nazismo, a loucura de Hitler, que não pode ser reduzida a explicações econômicas. Vemos a loucura atual do “mercado”.

“Nada é mais aneconômico (não econômico) que a pulsão de morte” – diz Derrida. Ela subverte desde as economias psíquicas do mundo interno como as macroeconomias do mundo externo.

Assim, é importante lembrar que se nos horroriza a destrutiva loucura do ato terrorista, não devemos esquecer a loucura destrutiva de uma economia dissociada do social, dos milhões de seres humanos despojados de qualquer esperança, à margem da história, alijados das confortos e facilidades que o progresso proporciona.

Se a loucura econômica do “establishment” é mais pervasiva, mais diluída, mais insidiosa, mais homeopática, a loucura dos terroristas é absolutamente espetacular.

Por isso mesmo mais dramática.

Vemos um belo jato rasgar o ceu azul radiante de uma cidade cujo perfil nos é tão conhecido, pois ali estão as tôrres gêmeas de NY. Ficamos orgulhosos do que o homem é capaz de fazer, de criar uma máquina potente e maravilhosa como um imenso jato, ou mega-edifícios que funcionam como cidades. Jato e mega-edifício são prodígios de organização, eficiência, inteligência aplicada, apanágios de civilização, de cultura, de domínio sobre a natureza. Uma obra do Homo sapiens.

Mas eis que o jato abandona o céu azul e mergulha dentro do edifício. Com horror lembramos que também somos capazes disso, do fanatismo, da loucura, de proporcionar a destruição e a morte. Recordamos que o homem é o lobo do homem.

Essa é uma imagem que não esqueceremos.

Na verdade, não devemos esquecê-la. Devemos tentar entendê-la.

O terrorismo precisa ser combatido intransigentemente. Neste combate, é necessária a autocrítica do “establishment”. Se isso não é feito, se o “establishment” se vê com o bem ultrajado e que precisa reparação, o ciclo se fecha numa repetição da destruíção.

Bush, ao pensar apenas na retaliação, se encaminha para o assustador desdobrar da loucura maior da guerra.