Fugacidade

Fugacidade (*)

Sérgio Telles

Em algumas veredas do Ibirapuera, vindas das profundezas, as raízes das árvores emergem rompendo o asfalto. Tempos atrás, a administração do parque ressaltou aquelas fraturas com uma tinta branca, talvez para que os pedestres não tropeçassem nelas quando transitassem por ali. Reforçado com a moldura branca, o percurso sinuoso e hesitante das raízes transformou-se num grafismo estampado no asfalto. Mais ainda, tal desenho adoçou a essência áspera e inanimada do asfalto, dando-lhe um pouco de vida, assemelhando-o à pele de um imenso ser vivo, marcada por ferimentos e cicatrizes, pela qual correm veias e artérias.

Há cerca de dois meses, em minhas andanças pelo parque, ao me aproximar da ponte pela vereda que margeia o lago, deparei-me com algo que me chamou a atenção. Alguém pintara no chão largas tiras sinuosas coloridas, acompanhando as rachaduras feitas no asfalto pelas raízes e suas molduras brancas ou com elas fazendo um contraponto. Sobre cada tira estava cuidadosamente escrita uma frase. A beleza visual da disposição colorida das faixas pintadas no chão e o surpreendente teor poético das frases tiveram o poder de deter minha caminhada, fazendo-me ler o que estava escrito.

Fiquei admirado com a propriedade do que via. O conjunto transcendia a pichação e mesmo o grafite, configurando-se como uma original e criativa instalação. Havia, em primeiro lugar, a feliz escolha do local – a ruela ao lado do lago, o asfalto rompido pelas raízes fornecendo a metáfora da vida em rebeldia contra os rígidos constrangimentos que lhe são impostos, as formas sinuosas marcadas no chão. Quem realizara aquilo havia captado não só a poesia da sublevação das raízes contra o que as sufocava, como a beleza formal das linhas bêbadas que elas abriam, ampliando-as com suas faixas coloridas e escritas. Não só houve um aproveitamento adequado desses elementos, como foram eles recriados em novas linhas, palavras e cores, desvendando sua oculta transcendência. Pensei que o teor poético da escrita produzia em mim um efeito semelhante ao das raízes, ao fincar fundo em minha mente suas imagens. O que ali se me apresentava cumpria bem, sim, com o conceito de instalação, bem melhor do que o que muitas vezes vemos em exposições, umas contrafações cerebrais e artificiosas cujas propostas só a muito custo e sem prazer engolimos.

Mesmo sabendo das complicações ligadas às distinções de gênero no que diz respeito à criação artística, a delicadeza da construção me fez atribuir a autoria do projeto a uma sensibilidade feminina. E é possível que minha intuição esteja correta, pois, numa das frases, o sexo de quem a escreveu se revela – “Distraída passo pela vida, sem ser subtraída”.

Desde aquele dia tenho passado por lá regularmente e fico tocado ao constatar que a desatenta maioria percorre o caminho sem ver as faixas, que já desbotaram, fazendo com que algumas frases ficassem ilegíveis. Percebendo que tudo se esvaia, veio-me o desejo de escrever a respeito e, antes que as frases se apagassem por completo, resolvi copiar algumas delas: “Vou espalhando pelo caminho um pouco do que procuro”, “Aguardo deste lado da margem a embarcação, nela está a outra margem”, “Meu vazio tem imensidão para acolher o novo e tudo o que colecionei ao longo da vida”, “Retiro véus e me descubro nuvem”, “Todos os domingos são parques de diversões. Coro de crianças, sorvetes e pipocas, mesmo quando há silêncio em mim”, “No verão, percebo os invernos que há em mim”, “Meu deserto instalou em meus olhos alguns oásis”, “Trago em mim um pouco de cada coisa que não fui”, “Não vou a lugar nenhum que me leve para longe de mim”, “Um pouco de sol, para que clareie a mente e doure o corpo”, “Ponte que não me leva. Ponte que me atravessa”, “Ali, onde os castelos são feitos de sonhos, brumas e beijos. Onde a torre guarda jasmins e girassóis. Onde encontramos a linha do infinito cada vez que nos olhamos”.

Ao reproduzir as frases aqui, retiro-as do seu contexto, de seu humilde suporte no chão, onde, em seu leito colorido, gozava da vizinhança com as raízes. Com isso, de certa forma, desfaço a instalação complexa tal como fora concebida pela autora. Impossibilitado de remontar sua riqueza sensorial, tão bem integrada com os elementos naturais que a circundam – árvores, lago, ar livre -, atenho-me a seu teor literário. Mas é minha forma de agradecer pelo momento de beleza e brandura que a autora me proporcionou. Muitas vezes se fala do narcisismo do artista, de seu desejo de fama e glória. É injusto enfocar sua atividade exclusivamente sob esse prisma, pois fica excluída a generosidade implícita no ato de criar e doar ao mundo sua criação.

Um outro aspecto ligado ao ato de publicar as frases aqui é que, em assim fazendo, dou-lhes um pouco mais de fôlego, pois já desapareciam em seu lugar de origem. Aliás, essa é uma característica da chamada “arte urbana”, que, usando suportes fornecidos pela própria cidade, acontece fora dos circuitos oficiais e suas instituições. Exposta às intempéries, ao sol, à chuva, essa arte tem vida curta. Não pode sonhar com a permanência e a imortalidade sedutoramente prometidas pelas galerias e museus. Ao apontar para a fugacidade das coisas e de nós mesmos, ela talvez esteja mais próxima da verdade.

***

A propósito de fugacidade, impossível não mencionar Daniel Piza. Tivemos um único encontro em recente almoço dos cronistas deste jornal. Com tantos interesses em comum, imaginava que no futuro teríamos alguma aproximação. Mas a Grande Ceifadora passou antes.

* Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo”, em 07/01/2012

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