FALA, SILÊNCIO – a biografia de W. G. Sebald – de Sérgio Telles

Fala, silêncio – a biografia de W. G. Sebald

Sérgio Telles

SPEAK, SILENCE – IN SEARCH OF W.G.SEBALD, de Carole Angier, é a primeira biografia de W.G. Sebald, escritor alemão radicado na Inglaterra, onde morreu em 2001 aos 57 anos num acidente de carro. Na ocasião estava sendo cogitada sua indicação para o Nobel de Literatura.
Seus quatro livros – OS EMIGRANTES, VERTIGO, OS ANÉIS DE SATURNO e AUSTERLITZ –desenvolvem uma ficção ensaística que mistura história, reflexões sobre vida e arte, obras literárias e autores, fotografias, dados científicos, perdas, lutos e traumas, especialmente aqueles decorrentes do extermínio dos judeus pelos nazistas e do bombardeio das cidades alemãs pelos aliados.
Em sua obra, Sebald assume um compromisso ético ímpar ao lutar contra o negacionismo, reconhecer a culpa pelos crimes nazistas e assim abrir espaço para a impossível reparação desses danos irreparáveis.
Nascido num vilarejo da Baviera em família de parcos recursos, Sebald só veio a conhecer o pai aos 3 anos, no final da guerra. Até então, morava com a mãe e irmã na casa do avô materno, a quem era extraordinariamente apegado. Somente na adolescência, ao ver um documentário no colégio, tomou conhecimento dos campos de extermínio. A relação com o pai, que nunca fora boa, deteriorou definitivamente. Não perdoava seu silêncio sobre a guerra e o acusava como cúmplice dos crimes, desde que lutara no exército de Hitler.
Angier trabalhou em condições adversas. A mulher e a filha de Sebald se recusaram a colaborar e não autorizaram o uso de qualquer material escritos de sua autoria. Tais impedimentos foram compensados por um trabalho exaustivo de pesquisa, inúmeras entrevistas com pessoas que tiveram contato com Sebald nos vários estágios de sua vida como estudante na Alemanha, e na Inglaterra, onde viveu seus últimos 30 anos e se engajou numa carreira acadêmica como professor de literatura alemã.
A biógrafa investiga a fundo pessoas e fatos que deram origem a personagens e situações na obra, o que é justificável dado que vários deles estão calcados firmemente em componentes do círculo familiar e social de Sebald ou em biografias de estranhos, das quais o escritor se apropriou e usou como material próprio. Isso lhe trouxe aborrecimentos e críticas, especialmente em dois casos, o do pintor Frank Auerbach que foi modelo involuntário do personagem Max Ferber (em VERTIGO), e o material de Susie Bechhöfer, que o acusou de roubar sua biografia (em AUSTERLITZ).
O problema é mais amplo, pois Sebald se apropria não só das biografias de pessoas a seu redor, conhecidas suas ou não, como também se apropria do texto de vários escritores, fato que pode passar desapercebido ao leitor comum mas não a seus colegas especialistas e críticos literários. Sebald nunca usa aspas e mesmo quando cita de forma explícita, muitas vezes propositadamente troca o nome dos autores ou mesmo inventa citações, etc.
Essas práticas apontam uma aparente contradição. Por um lado, a estrita ética de Sebald no que diz respeito às denúncia e reparação dos crimes nazistas. Por outro, a forma descuidada, aparentemente irresponsável com a qual se apossava de trechos e textos alheios, de suas histórias e biografias, como se isso não tivesse graves implicações éticas.
A suposta contradição mostra a diferença no manejo da ética e da estética. No primeiro caso, estão em jogo os parâmetros éticos; no segundo, os estéticos. Eles não se excluem, mas se articulam de forma não linear. Angier esclarece a questão ao mostrar que a posição de Sebald decorre de uma visão “mística” de mundo, que procura evidenciar a secreta ligação que une pessoas e coisas entre si e ao universo e que almeja a fusão das individualidades numa unidade totalizante maior. Além disso, há o uso de uma técnica narrativa pós-modernista que valoriza a intertextualidade, a concepção da criação autoral como resultado de saques, colagens, mixagens, recriações. Assim como saqueou vidas e obras para construir sua obra, Sebald sabe que o mesmo ocorrerá com a sua. Por isso mesmo, aconselhava aos alunos em seus cursos de escrita criativa – roubem sempre o que puderem para construir suas próprias obras. Conselho seguido pela biógrafa, dado que o título de seu livro é uma apropriação (adaptada) do título do livro SPEAK, MEMORY (Fala, memória) de Nabokov, obra admirada por Sebald.
Os livros de Sebald entrelaçam os discursos dos personagens e os textos de vários escritores. Narrador, autores citados, personagens fictícios se superpõem e se confundem num jogo de espelhos, coincidências, repetições. A isso se acrescenta o tom melancólico, de perdas, desenraizamentos, catástrofes engendradas pela destrutividade humana. Mas, atenção. Essas características não transformam seus livros em labirintos sombrios e inexpugnáveis a serem evitados pelos leitores. Pelo contrário, o texto de Sebald é envolvente, de grande beleza e tocante profundidade, com laivos de humor e não poucas vezes provoca emoção em quem o lê. Merecidamente é hoje considerado um dos maiores escritores de língua alemã, da mesma grandeza de um Thomas Mann.

Publicado no caderno EU&FS do jornal Valor Economico