Dostoievski, o terapeuta

DOSTOIEVSKI, O TERAPEUTA (*)

Resenha de “Os Ensinamentos da Loucura – a clinica de Dostoievsky: Memórias do subsolo, Crime e Castigo e O Duplo”- Editora Perspectiva, São Paulo, 2014, 150pp

Sérgio Telles

É decisivo o papel do inconsciente na construção dos personagens de Dostoievsky, o que o deixa como um autor no qual as relações entre psicanálise e literatura sejam particularmente claras.
Ciente disso, Heitor O´Dwyer de Macedo, psicanalista brasileiro radicado há muitos anos na França, examina nesse livro três obras do mestre russo – “Memórias do Subsolo”, “Crime e Castigo” e “O Duplo”. Nelas sublinha a importância do trauma e salienta a compreensão de Dostoievsky sobre a dinâmica psíquica que somente décadas depois seria descrita por Freud. Macedo mostra como enquanto alguns de seus personagens, possuídos por suas paixões, distanciam-se da realidade, outros lidam com eles de forma terapêutica tão apropriada que poucos reparos mereceriam de um psicanalista.
O sugestivo título “Memórias do Subsolo” evoca a “outra cena” descrita por Freud. É de lá que o “homem do subsolo” – pois não tem outro nome – diz coisas hediondas sobre si mesmo e os valores convencionalmente estabelecidos. No primeiro capítulo, “O subsolo”, o personagem se desmerece e se autoflagela sem cessar. No segundo, “A propósito da neve molhada”, são descritos episódios ocorridos vinte anos antes, nos quais age de forma destrutiva consigo mesmo e com o outro, especialmente com a prostituta Liza. Alternando desprezo e consideração, faz com que ela acredite que poderia ajudá-la. Quando Liza se entrega e revela seu segredo mais doloroso – ter sido vendida pelo pai para uma cafetina – ele a rejeita, deixando-a aniquilada. O ter sido ele – como ela – uma criança abandonada é a fonte do ódio que o consome. Presa da compulsão à repetição, ele não se dá conta de que recria permanentemente a situação traumática de abandono e rejeição. Macedo mostra que o homem do subsolo faz com Liza o que, na infância, os pais haviam feito com ele. De certa forma, Liza entende que é por esse motivo que a trata de forma tão ignominiosa.
Na longa análise que faz de “Crime e Castigo”, Macedo também atribui a situações traumáticas de abandono na infância o assassinato realizado por Raskólnikof. Os descuidos de uma mãe perversa e um pai ausente o levam a construir defesas onipotentes megalomaníacas que o permitem sobreviver. Isso fica patente em sua tese sobre os “homens extraordinários”, que, por terem uma condição especial, estariam autorizados a fazer o que bem entendessem, sem ter de acatar os impedimentos impostos pela lei.
Aqui, segundo Macedo, a habilidade terapêutica de Dostoievsky transparece na forma como Razumíkhin, Porfiri e Sônia lidam com Raskólnikof.
Razumíkhin é o amigo, o “outro” bondoso não persecutório que lhe possibilita romper com o enclausuramento narcísico. Mas é na forma como Porfiri leva Raskólnikof a confessar o crime onde a “técnica terapêutica” de Dostoievsky se mostraria mais evidente. Sônia, agindo como continente da agressão e desagregação de Raskólnikof, consegue retirá-lo da perniciosa influência de Svidrigáilof, o “verdadeiro” assassino da história. Ao fazê-lo entregar-se à polícia e cumprir a devida pena, Sônia reintegra Raskólnikof na ordem simbólica, salvando-o da perversão e da loucura. Através da mediação de Sônia, o contato com o mundo não lhe fica tão ameaçador, a vida deixa de ser uma perpétua reatualização do trauma vivido enquanto criança nas mãos de pais incompetentes, doentes.
Quando Raskólnikof finalmente admite para Sônia a autoria do assassinato, ao contrário de rejeitá-lo, ela o abraça e diz que o ama, pois entende que a confissão é a evidência de uma profunda mudança que se processara nele – a disposição de não mais fugir da entrega amorosa por medo do abandono.
Em “O duplo”, o frágil Goliádkin tem vergonha de si mesmo, sentimento que Macedo aproxima dos adolescentes que têm de se acomodar a um novo corpo e às exigências da sexualidade. Goliádkin cria então um duplo de si mesmo, que terminará por tomar seu lugar, completando a cisão de forma trágica.
Os turbilhões psíquicos desses personagens de Dostoievsky levam Macedo a citar por duas vezes uma intrigante afirmação do psicanalista inglês Winnicott: a psicose está mais próxima da saúde psíquica do que os ideais de normalidade. Se lembrarmos que a saúde mental decorre de um bom contato com os desejos e fantasias inconscientes devido à flexibilização e porosidade da censura imposta pelos sistemas repressivos e punitivos internos, de fato ela está mais próxima da loucura, quando o inconsciente está a céu aberto e sem nenhuma censura, do que da normalidade, onde os conteúdos inconscientes estão rigorosamente censurados, reprimidos, negados, manifestando-se tortuosamente através de penosos sintomas. O aparente disparate de Winnicott fica esclarecido e se chega a uma conclusão consequente – os perturbados personagens de Dostoievsky estão, sim, longe da normalidade, mas próximos da saúde mental.
O livro supõe prévio conhecimento dos textos de Dostoievsky e da teoria psicanalítica. Visa, portanto, um público específico, que terá bom proveito com sua leitura.

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo” em 04/07/2014

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