Antropofagia e um pouco de Pina

Antropofagia e um pouco de Pina (*)

Sérgio Telles

Acompanhei a recente troca de farpas entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz em torno do livro Vereda Tropical, de autoria do primeiro. Por isso me interessei pela brochura Antropofagia, publicada recentemente pela Penguin/Companhia das Letras, na qual estão enfeixados alguns trechos daquela obra de Caetano, que, quando publicada em 1997, apesar da curiosidade que me despertou, não me animei a ler por ter-me parecido excessivamente copiosa. Agora, de uma sentada só devorei as 70 páginas divididas em quatro capítulos – o encontro com os poetas concretos, com Chico, a vanguarda e antropofagia -, temas não focalizados diretamente na polêmica entre o crítico e o cantor-compositor, mas que me suscitaram lembranças e algumas ideias.

Na leitura logo ficam patentes a acuidade da mirada de Caetano, seu alto grau de informação e o absoluto domínio da língua. Mas surpreendeu-me o estilo no qual vazou o texto, em tudo diferente do que eu poderia esperar. Ao contrário de sua produção na música e nas inspiradas letras de suas canções, em que opta por uma linguagem mais solta, inventiva e inovadora, Caetano parece mostrar uma reverência compenetrada ao se embrenhar no campo da prosa, adotando uma dicção clássica, escorreita, convencional.

O texto sobre Chico Buarque me levou de volta aos tempos de faculdade e às turbulências políticas do movimento universitário, quando Chico e Caetano eram nossos ídolos. A disputa entre eles, decorrente de projetos artísticos divergentes, logo nos dividiu em dois grupos. Chico era o wunderkind da música popular brasileira. Era sua continuidade moderna, elegante, bem nascida e cultivada, banhada e perfumada, que ainda por cima era de esquerda, produzindo letras ambíguas nas quais ficávamos pescando alusões e insinuações que teriam passado despercebidas pela censura dos militares. Chico era o prosseguimento atualizado, engajado e informado do samba. Caetano era a deliberada ruptura com tudo isso. Sua posição na esquerda não se apoiava na conservação de formas estabelecidas, estava aberto para as novidades e a assimilação de modelos musicais internacionais. Caetano era o suprassumo do prafrentex, palavra de grande circulação na época, muito apropriada para dar conta das mudanças de comportamento que começavam a aparecer e ainda não tinham nome, e caía como uma luva naquela coisa maravilhosamente nova chamada Alegria, Alegria. Por tudo isso, ele era tido como “alienado” pelos mais extremados, que não entendiam a radicalidade de sua proposta.

Eu, que era um caetanista de carteirinha, muito me diverti com a alfinetada de Caetano ao cantar de forma debochada e depreciativa a Carolina do Chico. Mas o que importa é que respeitávamos e amávamos os dois na diferença que expressavam. De alguma forma, eram nossos modelos e sentimos profundamente quando a Ditadura os obrigou a sair do País, deixando-nos aqui entregues à nossa própria sorte.

Em seu livro, compreensivelmente Caetano põe panos quentes, procurando não exacerbar as antigas querelas. Meio a contragosto, admite ter cantado Carolina de forma “estranhável”…

O capítulo sobre antropofagia, que dá título ao livro, narcisicamente me remeteu ao artigo sobre canibalismo que escrevi na última crônica, fazendo-me lembrar dos aspectos que não pude nele incluir por falta de espaço e que abordo agora. A antropofagia (ou canibalismo) – que tem abundantes registros na mitologia, na história, na religião – viu sua importância potencializada na época dos descobrimentos, quando passou a ser considerada como o indicador mais expressivo de selvageria e de barbárie dos povos do Novo Mundo. Em 1566, o papa Inocente IV considerou-a um pecado maior e, como tal, passível de ser punido pelas armas. A rainha Isabel de Espanha baixou decreto autorizando a escravização de nativos, desde que fossem eles praticantes de canibalismo. É claro que a partir daí ficou muito conveniente declarar que determinado povo era canibal (ou antropófago), pois isso garantia a autorização da Igreja e do Estado espanhol para atacá-lo e escravizá-lo.

A grande ironia histórica é que, com a desculpa de eliminar o canibalismo e impor valores civilizatórios cristãos, os colonizadores terminaram por “canibalizar” os colonizados, apropriando-se de suas riquezas e recursos, deixando-os à míngua, quando não os exterminando pura e simplesmente. Os colonizadores projetaram nos povos “primitivos” uma violência e uma selvageria (simbolizadas pela antropofagia) que eles mesmos exerceram com uma destrutividade muito mais potente, em função de sua superioridade tecnológica.

No mundo globalizado em que vivemos, as relações antropofágicas colonizador/colonizado tomaram feições mais nuançadas. Os padrões culturais e o poder dos países que detêm a primazia tecnocientífica se impõem com força talvez ainda maior, na medida em que é mais profundo o abismo que os separa dos países pobres.

A persistência da questão colonizador-colonizado se evidencia na Semana de 22 com Oswald de Andrade e sua atualidade aparece no investimento que Caetano fez do conceito por ele proposto. Numa provocação, Oswald de Andrade inverteu o paradigma e fez da antropofagia uma virtude e modelo de assimilação cultural, proposta da qual Caetano se apropriou, usando-a como um dos fundamentos para o tropicalismo.

A relação colonizador-colonizado e a antropofagia estão diretamente ligadas ao problema da identidade dos povos colonizados. Lembremos que o colonizador encontra um sistema social estabelecido e organizado com suas próprias leis e costumes, que ele ignora e destrói para impor os seus próprios valores. Aos olhos dos povos nativos, o colonizador não é o que sustenta a lei, é aquele que destrói a lei até então vigente.

Em sendo assim, pode o colonizador em algum momento ocupar o lugar de pai e portador da lei para o colonizado ou ele será sempre o estuprador invasor que ignora a lei? Pode o colonizado se identificar com o colonizador e acatar seus valores, ou esta será sempre uma “identificação com o agressor”, com toda a distorção implícita nisso?

Frente ao impasse estabelecido, sobra outra opção ao colonizado senão canibalizar o colonizador que o canibaliza?

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A forma como Pina Bausch concebe a coreografia – se é que podemos chamar assim – para a música Leãozinho, de Caetano Veloso, sintetiza bem a originalidade e largueza com que ela encarava a dança. A partir de uma gestualidade espontânea ou fixada em estereotipias mecânicas, Pina cria efeitos estéticos e uma ingênua comicidade que evoca as brincadeiras e a despreocupação da infância. O filme de Wim Wenders é uma justa homenagem a uma grande criadora.

(*) Publicado no Caderno 2 do jornal “O Estado de São Paulo” em 12/05/2012

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