ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PSICANALÍTICAS A RESPEITO DAS TERAPIAS DAS VIDAS PASSADAS

De Sérgio Telles e Guillermo Bigliani. Trabalho apresentado no I Congresso Paulista de Psiquiatria – VIII Jornada Regional de Psiquiatria da Região Sul – 14/16 de Junho de 2001 – UNIFESP – Escola Paulista de Medicina.

A questão da Terapia das Vidas Passadas (TVP) chamou-nos a atenção quando um de nós recebeu via e-mail propaganda de um curso de formação em TVP para médicos e psicólogos.

Isso provocou-nos um certo desconforto, pois consideramos a TVP uma prática charlatanesca, e nos fez mandar um e-mail para um e-group da qual participamos – a Lista de Psiquiatria Brasileira, da qual fazem parte cerca de 250 psiquiatras, psicólogos e alguns outros interessados – questionando porque os conselhos regionais de medicina e psicologia não se manifestam contra tal prática.

Esta primeira comunicação desencadeou uma correspondência acirrada que envolveu quase 80 missivas no correr de três semanas e que nos surpreendeu, pois constatamos que – tirando as exceções de praxe – prevalecia uma atitude de tolerância e até mesmo aceitação frente à prática da TVP e que – ao contrário do que imaginávamos – tal prática está longe de ser algo marginal e desprestigiado dentro da classe. Ficamos sabendo que em determinadas regiões do estado ela seria bastante difundida e respeitada.

Coincidiu esse acontecimento com a proposta de regulamentação da profissão de psicanalista, realizada por um deputado pastor evangélico, proposta esta que fazia reverberar, por sua vez, uma famigerada Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil (SPOB), cujos líderes, tal como o deputado, são pastores evangélicos. A SPOB – apoiada no infraestrutura dos cultos evangélicos fundamentalistas – diz ter “formado”, em seis anos, um exército de 1.500 psicanalistas em todos os estados do país. No momento, mais 2.200 estão em “formação” fazendo uso da ausência de tal regulamentação.

A SPOB mistura conceitos da psicanálise com a prática religiosa. Um exemplo desta indigesta mistura, é aquele onde é ensinado aos jovens terapeutas como discriminar uma possessão demoníaca de um surto esquizofrênico. Esse texto, que pode ser consultado no “site” da entidade, diz:

“Mande que o transtornado diga: ‘O sangue de Jesus Cristo tem poder’. Em qualquer que seja o nível de possessão, não proferirá. Entretanto o doente mental, tão somente, pode articular, desde que a capacidade de expressão lhe esteja preservada. Neste caso (possessão) é bom ter cuidado. Se o interlocutor não tiver autoridade, poderá ser violentamente molestado pelo transtornado”.

O elemento chave no caso seria a menção do sagrado sangue de Cristo, que não faria efeito sobre o psicótico, mas exacerbaria o furor do possesso, do endemoniado.

Fica claro como há – tanto na TVP como na prática desta SPOB – uma mistura de crença religiosa com a prática da psicoterapia enquanto procedimento médico ou psicológico.

Consideramos, por outro lado, que esta confusão parece ser especialmente insidiosa e difícil de ser desfeita, na medida em que toca nos núcleos religiosos – reprimidos ou não – dos próprios profissionais da área da saúde, deixando-os presos de uma ambivalência que os impede de ter uma visão crítica do problema.

Frente a este estado de coisas, achamos que seria necessário estabelecer alguns critérios que ajudassem a evidenciar essa confusão e a desfazê-la, evitando possíveis conseqüências funestas.

Sabemos que o debate sobre este assunto é inesgotável. Sabemos que a religião acompanha a humanidade desde seus primórdios e estabelece relações com a historia, a filosofia, a literatura, a política, o estado e os costumes, formando um conjunto complexo e abrangente, impossível de ser abarcado em todas suas facetas.

Sabemos também que este é um assunto difícil de abordar sem provocar fortes reações. Do ponto de vista psicanalítico, a religião é pólo de poderoso mecanismo de identificação, tendo assim extraordinário poder de mobilização, desde que as pessoas tendem a se sentir ameaçadas em suas próprias identidades quando se discute o assunto.

Mesmo assim gostaríamos de colocar alguns pontos que nos parecem nortear a questão. Vamos seguir de perto os ensinamentos de Freud, que sempre reconheceu a extraordinária importância da religião, dedicando-lhe vários trabalhos, entre os quais “O Futuro de uma ilusão”, “O Mal-Estar na Cultura”, “Totem e Tabu”, “Moisés e o monoteísmo”, “O Ego e a Psicologia das Massas”, “A Questão de uma Weltanschauung”, “Rituais obsessivos e práticas religiosas”. Além de Freud, outros autores também a estudaram, fazendo com que a bibliografia psicanalítica sobre o assunto seja extensa.

Tentando resumir algumas de suas muitas idéias sobre o assunto, é importante lembrar que Freud afirmava haver – basicamente – duas formas de conceber o mundo (Weltanschauungen), formas que se opõem de maneira radical. São a forma religiosa e a forma científica.

A forma religiosa de ver o mundo implica na crença de uma verdade REVELADA. (1) Isso significa que todas as religiões, sejam elas quais forem, acreditam ser possuidoras de uma verdade, de um conhecimento que lhes foi revelado diretamente por um ser divino superior ou por um preposto seu, um representante ou mediador. Essa “verdade revelada” responde e satisfaz as angústias mais profundas do ser humano, aquelas decorrentes de seu desamparo frente às intempéries da vida e o caminhar irrefreável para a morte, desamparo esse que o remete ao desamparo original da perda do narcisismo primário. As religiões prometem a proteção ininterrupta de um deus-pai, que aponta para uma vida eterna que nega a morte. As religiões organizam e sistematizam o pensamento mágico infantil, que passa a ser visto como dogma inquestionável, “questões de fé”, certezas inabaláveis.

A forma científica de ver o mundo não acredita em verdade REVELADA. Para a ciência, a verdade é o produto do esforço humano para vencer a ignorância e o desconhecimento. É um trabalho incessante contra o pensamento mágico, tentando estabelecer o pensamento racional, usando para tanto um método que é recente, quando comparado com o pensamento religioso. Trata-se do estabelecimento de hipóteses baseadas na observação dos fatos em jogo, hipóteses que são testadas em experiências, em tentativas de acerto e erro. A verdade para a ciência é um processo em andamento, não há verdades estabelecidas, não há certezas inabaláveis. As verdades conquistadas através do método científico estão sendo permanentemente postas à prova, testadas no dia-a-dia, no embate com a realidade. Na medida em que a realidade as contradiz, elas são abandonadas como errôneas e se busca um novo paradigma, que funcionará até ser substituído por outro mais condizente com o inapreensível real.

Freud diz que a visão científica oferece para a humanidade muito pouco, frente ao que oferece a visão religiosa. Poucos são os estóicos capazes de tolerá-la. Não surpreende, pois, de forma alguma, que a religião continue mantendo seu grande poder de sedução e convencimento das massas.

A psicanálise está dentro desta forma científica de ver o mundo. Ela não parte de verdades reveladas. Ela tem uma hipótese básica referente ao funcionamento psíquico, no qual joga papel preponderante a descoberta freudiana do inconsciente. Essa hipótese explica o funcionamento normal e patológico do psiquismo, possibilitando uma compreensão até então inexistente. Essa hipótese está longe de estar fechada. Na verdade, ela abre um campo novo de conhecimento, com muito ainda a ser feito. Se muitos pontos parecem bem estabelecidos, há muita divergência numa série de outros. Mas isso não nos deve causar espécie. Essa incerteza é própria de qualquer conhecimento científico. A ciência nunca diz estar de posse de toda a verdade. Diz estar de posse da verdade possível no momento. Somente a religião tem toda a verdade, tem certezas inabaláveis.

É verdade que a psicanálise enfrenta desafios complexos para estabelecer sua própria forma de ser ciência, para criar sua própria epistemologia, distante daquela estabelecida pelos neo-positivistas. Novas teorias epistemológicas dizem não haver uma única ciência e que se deve respeitar as especificidades de cada campo de saber, especialmente aqueles antes chamados “ciências do homem”. É importante lembrar a epistemologia lacaniana, que se apóia na topologia (objetos topológicos), cuja lógica, dita “inconsistente” ou “para-consistente”, muito se assemelha à lógica do inconsciente, distante da lógica clássica, onde se apóiam os pressupostos neo-positivistas. (2) Isso leva à postulação de que a psicanálise torna possível o estabelecimento de novos paradigmas epistemológicos.

Dizendo de outra maneira: ao invés de se manter a afirmação de que a psicanálise não cumpre com os pressupostos da ciência, e portanto não pode ser considerada como tal, na verdade ela questiona tais pressupostos, revelando sua face mítica, como o da suposta neutralidade do observador frente ao objeto de sua observação.

Não devemos esquecer que foi longo o trajeto para desentranhar a medicina de dentro da religião. Nas antigas religiões, eram os sacerdotes os que curavam os doentes, coisa que ainda hoje se vê em determinadas manifestações mais “primitivas”, como as religiões de nossos índios (pajés), as religiões africanas, as macumbas, as contrafações espíritas, com seus passes e médiuns em comunicação com o além, etc.

Foi na luta para avançar do pensamento mágico (religioso) para o racional (científico), que a medicina paulatinamente separou-se da religião e se constituiu num conhecimento objetivo.

Relembrar esses conceitos por todos conhecidos se faz necessário especialmente quando pensamos a respeito de nossa atividade, que lida com o psiquismo, área nobre do ser humano, a velha e sempre presente “alma” humana. Nesta área, mais do que em qualquer outra, a antiga fusão entre religião e medicina tende a permanecer. É necessário então estabelecer as diferenças.

Não se pode negar que a religião proporciona alívio à dor psíquica. Ela consola e dá conforto espiritual, diminui o sofrimento humano.

Mas é necessário discriminar o conforto espiritual proporcionado pela religião do efeito terapêutico de uma psicoterapia leiga, ditada pelos conhecimentos advindos da medicina, da psicologia, da psicanálise.

O conforto espiritual que as religiões oferecem partem do princípio que a criatura – o homem – não está mantendo um contato com seu criador tal como é ele preconizado pelos cânones exigidos pela divindade e, para restabelecer o contato, a criatura – o homem – deve cumprir com os ritos necessários: penitências, orações, etc.

A psicoterapia leiga procura trazer alívio para o sofrimento psíquico baseando-se em descobertas (científicas) que possibilitaram o estabelecimento de hipóteses sobre o funcionamento psíquico. A psicanálise entende o sofrimento psíquico como decorrente do longo processo de constituição do sujeito, do penoso abandono do narcisismo primário e o avanço para as relações objetais, cristalizando-se no embate edipiano. É um processo acidentado, do qual ninguém sai imune. Os conflitos infantis inconscientes serão reativados pela realidade na vida adulta. Sua terapêutica consiste em fazer o sujeito entrar na posse da verdade de seu desejo, assumindo a falta, a incompletude, a limitação e a consciência da morte – o que lhe permite ter autonomia e liberdade de escolha, somente assim assumindo sua grandeza humana.

A psicanálise interpreta – grosso modo – o sentimento religioso como a persistência dos vínculos infantis com figuras paternas idealizadas, a quem se deve obediência e fidelidade, recebendo em troca a proteção desejada. Entende que o conforto religioso fornecido pelas práticas religiosas reafirma a fantasia infantil e realizam seu desejo, especialmente o da negação da morte. É inegável que elas tranqüilizam, têm um efeito “terapêutico”, no sentido de diminuir o sofrimento psíquico imediato, mas com o preço da infantilização definitiva do sujeito, com o preço de se manter ele afastado da sua realidade psíquica tal como descoberto pela psicanálise.

Estabelecidos esses pontos, podemos agora falar sobre a TVP.

Em primeiro lugar, é interessante ressaltar com muito da literatura da TVP afirma não ser ela uma prática religiosa. Mas a hipótese básica que a fundamenta é a reencarnação, a existência de vidas pregressas que deixaram marcas no psiquismo gerando o atual sofrimento. Ora, tal hipótese só pode ser recolhida dentro do campo das religiões. Em nenhum outro lugar tem ela guarida. Assim, a alegação dos praticantes da TVP de não serem religiosos parece-nos mais uma evidência de sua confusão e embuste.

A TVP é um sucedâneo moderno das religiões, na medida em que sub-repticiamente usa seu grande trunfo – garante a existência de vida após a morte. Talvez por este motivo as religiões não a sentem como uma ameaça, como sempre sentiram a psicanálise.

A TVP pode ainda ser entendida como um subproduto equivocado da psicanálise, pois usa de alguns recursos técnicos advindos da mesma, mas de forma distorcida e resistencial, negando seus fundamentos sexuais. Observando alguns relatos de curas pela TVP, fica claro que ela faz uma apropriação indebta de vários procedimentos da primeira fase da prática analítica freudiana, quando os sintomas são remetidos a zonas erógenas, a acontecimentos (“traumas”) vividos pelo paciente, e que foram esquecidos. O trabalho terapêutico se liga à recuperação da memória destes traumas, o que traria o alívio necessário. A diferença é que ao invés de remeter essa experiência ao passado do paciente, é ela remetida para vidas pregressas. Além do que seus praticantes, ignorando o inconsciente, aferram-se ao conteúdo manifesto, à informação consciente, dando crédito ao delírio do paciente.

Usam o modelo da “Estudos da Histeria”, do final do século passado. Ignoram tais praticantes os desdobramentos da técnica analítica, que abandona a noção do trauma (sexual e infantil) e passa a centrar-se na transferência e, posteriormente, nas construções em psicanálise.

Vemos que a TVP é um curioso híbrido da religião com a psicanálise, tal como o que é preconizado pela SBOP.

Cito exemplo de Jerry Hall, onde vemos o reforço das defesas e o afastamento da realidade psíquica. Uma paciente regride a uma vida passada onde é impedida de se casar com o homem que ama e é posta num convento, onde sofre sob o sadismo de uma madre superiora, que a maltrata e corta seus cabelos. Em algum momento a paciente diz: “e ela voltou a fazer o mesmo”. A terapeuta investiga essa fala e lhe é dito que, nesta vida atual, a paciente fora impedida pela mãe de casar-se com o homem que amava e que, num determinado momento, cortou-lhes os cabelos como castigo.

O material mostra como os conflitos atuais agressivos com a mãe são projetados, negados, cindidos. Isso é “terapêutico”, na medida em que tranqüéliza a curto prazo a paciente, mas a mantém na ignorância de seus sentimentos ambivalentes em relação a mãe.

Se um analista recebe um paciente com fantasias centradas em vidas passadas, procura interpretar tais idéias como quaisquer outras idéias sobre-valorizadas ou delírios, procurando ver nos conteúdos manifesto e latente seus sentidos transferenciais.

Situação semelhante a TVP é vista no espiritismo. Em nossa observação, grande parte das pessoas que freqüentam médiuns está com dificuldades de elaborar um luto. A perda do ente querido é insuportável e procuram alívio com tranqüilizadoras noticias do além. O enlutado não entende a culpa que tem decorrente de sua ambivalência em relação ao morto. Com isso não integrará essas experiências de amor e ódio, fixando-se numa idealização do morto, negando suas complexas relações internas. Numa análise, o paciente teria compreensão de seus conflitos com o morto, ampliando com isso seu autoconhecimento.

Sob outro aspecto, a TVP pode ser entendida como uma intuição ou pré-concepção no sentido bioniano, uma forma concreta de pensar um novo conceito psicanalítico, o de “objeto trangeracional” ou “objeto de transmissão transgeracional”. Dele diz Eiguer: “O objeto transgeracional fala de um ancestral, um avô (antepassado) ou um outro parente direto ou colateral de gerações anteriores, objeto que suscita fantasias, provoca identificações, intervem na constituição de instâncias psíquicas em um ou em vários membros da família”.

Um aspecto decisivo do “objeto transgeracional” é o fato de se colocar ele como o objeto de um outro e não como objeto suporte direto da descarga pulsional do sujeito. (3)

Assim, a TVP pareceria ser a elaboração fantasmática, imaginária, de uma percepção correta, aquela que diz que sofremos sim de acontecimentos ocorridos em vidas passadas. Mas não as nossas próprias, em tempos outros. Sofremos das conseqüências de determinados acontecimentos ocorridos nas vidas de nossos antepassados diretos, nossos pais, nossos avós, nossos bisavós.

A TVP, ao falar da reencarnação, teria a intuição do “transgeracional”.

Citamos – de forma muito abreviada – um exemplo de Eiguer, onde pode ser vista a proximidade entre o transgeracional e a TVP, no sentido já exposto. No caso Geraldo, encontramos um paciente (delirante) que se considera filho de Adolf Hitler e Eva Braun. Logo vamos saber que o pai de Geraldo tinha simpatia pelo nazismo e quando criança fazia parte de um coral que tinha visitado a Alemanha e vários países europeus ocupados pelos alemães. Este pai era muito ligado à sua própria mãe (avó de Geraldo) e ao casar foi morar na casa dela, mantendo a avó de Geraldo total ascendência na casa e na educação do neto. A mãe de Geraldo perdera o pai aos 2 anos e sua mãe a deixara com sua própria mãe (a avó), que a criara. Esta senhora somente na adolescência voltara a morar com a mãe, que voltara a se casar. Identificada com uma mãe que a abandonara, a mãe de Geraldo sente-se impossibilitada de assumir a função materna e não opôs resistência à sogra, que de fato, assumiu a criação de Geraldo. Assim, os sintomas de Geraldo não decorrem de experiências em uma vida sua anterior, e sim do passado das vidas de seus pais e avós.

Para concluir, gostaríamos de deixar claro que – como não poderia deixar de ser – entendemos e compreendemos o senti mento religioso prevalente na maioria das pessoas e lhes reconhecemos o direito de exercer suas crenças e delas auferir conforto e segurança. Mas achamos importante que isso seja não seja confundido com um procedimento médico ou psicológico.

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Referências

Freud, Sigmund – A Questão de uma Weltanschauung – XXV Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise – volume XXII – Edição Standard das obras completas – Imago Editora – 1976 – pg. 194 e seguintes
Miller, Jacques-Alain – Percurso de Lacan – uma introdução – Jorge Zahar Editor – 1987 – pg. 40-54
Eiguer, Alberto (org.) – A Transmissão do Psiquismo entre Gerações – enfoque em terapia familiar psicanalítica – Unimarco Editora – 1998 – pg. 68 e seguintes.

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