“A Secretária” (The Secretary, 2008), de Steven Sheinberg

“A Secretária” (The Secretary, 2002), de Steven Sheinberg

Sérgio Telles

Merecidamente o filme de Sheinberg, que aborda de forma pouco convencional uma relação sado masoquista, ganhou o prêmio de roteiro mais original do Sundance Festival e a atriz Maggy Gyllenhaal recebeu inúmeras indicações para o prêmio de melhor atriz.
Inusitada, a cena inicial surpreende o expectador e espicaça sua curiosidade. Lee, manietada num instrumento de práticas sadomasoquistas, procura exercer com naturalidade suas funções de secretária. Um corte faz a ação retroceder seis meses, quando a vemos saindo de uma internação psiquiátrica e voltando para a casa dos pais no dia do casamento de sua irmã “normal”. Logo somos apresentados a sua família disfuncional, o pai alcoólatra e abusivo, que agride fisicamente a mãe dependente e insegura. Presenciar tais ocorrências desencadeia imediatamente em Lee a compulsão para se ferir, queimar, cortar. Seu hábito masoquista se assemelha à fantasia bissexual da histérica descrita por Freud, cujo sintoma consistia em levantar a saia com uma mão (revelando uma identificação masculina, com o homem que quer despi-la) e com a outra mão baixar a saia (identificação feminina com a mulher que defende sua pudicícia). Ao se queimar ou cortar, Lee está identificada com o pai que inflige dor na mãe, ao mesmo tempo em que mostra a identificação com a mãe que sofre a dor, situação que pode remeter a fantasias mais arcaicas da cena primária, que confunde violência e sexualidade.
Visando sair do ambiente tóxico familiar, Lee busca emprego e o encontra como secretária de um advogado. Chegando ao escritório, encontra o mesmo em grande desordem e a antiga secretária saindo aos prantos. O lugar é estranho, soturno, não parece um lugar de trabalho. O advogado Gray age de modo peculiar. Frio e distante, na entrevista de admissão faz a Lee perguntas inesperadas, como se ela está grávida, se pretende engravidar, se é casada, se mora sozinha, se já ganhou concursos. Aos poucos, Gray passa a fazer exigências descabidas e críticas severas aos pequenos deslizes de Lee. Após surpreendê-la no ato de se cortar, tem uma conversa séria com ela sobre seu comportamento infantil, sua dependência excessiva da mãe, sua forma inadequada de falar e se vestir, exigindo que ela se apresente não mais como uma colegial desajeitada e sim como uma mulher sexualizada. Enciumado ao encontrar Lee com seu antigo namoradinho de colégio, toma coragem em seus avanços e a espanca nas nádegas, atitude que inicialmente a assusta e surpreende, mas que lhe propicia a descoberta de seu desejo erótico masoquista, até então expresso apenas no ato de se ferir.
O comportamento sádico de Gray é altamente conflituoso para ele mesmo. Vemos como ele se angustia e se atormenta antes e depois de exercê-lo. Faz continuadamente exercícios físicos, com o objetivo aparente de controlar as compulsões que o obrigam a tais condutas.
Fica então claro por que junto à placa do escritório situada na rua com o nome do advogado existe uma outra, menor, onde se lê “precisa-se secretária”. A permanência desta segunda placa faz supor que ali a troca de secretárias não é um acontecimento ocasional e esporádico e sim algo sistemático. O insólito escritório de Gray, no qual cultiva flores raras (a foto Polaroid de Lee é colocada na sua estufa de plantas), é como um laboratório onde faz experiências, procurando mulheres especiais que aceitem e satisfaçam seu erotismo tortuoso ou mesmo uma armadilha para capturá-las, empreendimento no qual não é bem sucedido, a deduzir pela demanda permanente de secretarias anunciada pela placa. Essa função do escritório se reflete na atitude curiosa de Gray, que espalha ratoeiras pela casa e solta no quintal os ratos aprisionados.
Gray percebe que Lee é a mulher que procura. Ao contrário das outras secretárias, que rejeitam sua abordagem sádica e abandonam o emprego, Lee a aceita e goza com ela. Essa percepção provoca em Gray sentimentos ambíguos. Sente que gosta dela, o que o deixa assustado e culpado. Sabendo que ela o ama e tem prazer na posição masoquista, Gray deliberada e sadicamente a despede, alegando que ela não o obedece de modo satisfatório.
Lee procura acompanhantes sádicos em anúncios classificados, mas o comportamento bizarro dos mesmos a deixa indiferente. Ela se volta então para o namoradinho, que a pede em casamento. Ao experimentar o vestido de noiva da mãe do rapaz, entende que não poderia dar prosseguimento ao compromisso. Deixa a aliança e corre de volta para Gray, encontrando-o em meio às costumeiras flexões abdominais, indício de sedução de mais uma secretária. Ela declara seu amor. Gray diz não acreditar, mas ordena que ela fique sentada numa escrivaninha mantendo as mãos numa determinada posição e o aguarde até sua volta. Imediatamente liga para o namoradinho dela e observa pela janela as tentativas que ele faz para reatar a relação, alegrando-se ao ver que ela o rejeita e cumpre à risca as ordens que lhe dera. Depois disso, praticamente todas as pessoas do relacionamento de Lee vão até ela, tentando demovê-la de seu empenho em cumprir com as ordens de Gray, que a impedem até mesmo de ir ao banheiro para satisfazer suas necessidades fisiológicas, obrigando-a a se aliviar no local. A televisão vai entrevistá-la sobre sua “greve de fome”.
Essa situação culminante pode ser vista como a exigência sádica mais radical feita por Gray, que Lee responde com a submissão masoquista mais extremada.
Mas é também uma indubitável prova de amor, com a qual Lee afirma que para ela o desejo de Gray está acima de tudo e de todos. Dessa forma mostra ter entendido a pergunta inicial que ele lhe fizera – “você está grávida, pretende ter filho?” – como exigência de ser ele a prioridade máxima para ela, lugar que um filho poderia disputar.
Gray aparece e a resgata, levando-a para casa, onde carinhosamente a banha. Posteriormente vemos que os dois se casam e moram nos subúrbios, mas continuam com suas praticas sadomasoquistas: quando finalmente ocorre a primeira relação sexual, ela está acorrentada a um tronco de árvore; noutro momento Lee coloca uma barata entre os lençóis e travesseiros dispostos de forma obsessiva por Gray, uma maneira de provoca-lo sadicamente, dando seguimento de forma invertida ao jogo iniciado no escritório.
O filme termina com Lee olhando direta e enigmaticamente para o expectador.

“A Secretária” mostra aspectos do masoquismo erótico feminino e do sadismo masculino em duas pessoas com evidentes dificuldades emocionais.
O filme segue a estrutura narrativa convencional da comédia romântica, na qual a personagem feminina desabrocha da imaturidade para a vida adulta e amorosa, mas Shainberg perverte a fórmula na medida em que o amor em jogo não é aquele tido como normal e sim o sadomasoquista.
Por coincidência, mais recentemente um outro filme sobre sadomasoquismo teve grande penetração popular, o “Cinquenta tons de cinza”. Ambos os filmes testemunham uma mudança da moral e dos costumes em relação ao sadomasoquismo e demais formas não convencionais de sexualidade, as antigas “perversões”, hoje chamadas de “parafilias”.
Antes objeto de grande rejeição e marginalização, os praticantes dessas modalidades sexuais se organizaram em movimentos diversos sob a sigla LGBT, exercendo, especialmente no mundo ocidental, uma agenda política definida e atuante, pleiteando, entre outras reivindicações, que lhes sejam retirados os rótulos patológicos que lhes são pespegados.
Os militantes do LGBT mostram que há três formas de tratar as diversas variantes da sexualidade. Uma é a patologização, própria do discurso médico por eles combatido. A segunda é a normatização, que procura assimilar na corrente dominante as práticas divergentes, descaracterizando-as. A terceira é a aceitação da diferença e da alteridade, o respeitá-la como tal, sem patologizá-la ou normatizá-la.
Para essa linha de pensamento, filmes como “A Secretária” ou “50 tons de cinza” seriam tentativas de normatizar o sadomasoquismo, fazendo com que desapareça sua conotação disruptiva que, na opinião de Foucault , se abre para uma nova “erotização do corpo” focada numa “dessexualização do prazer”.
Patologizar, normatizar, respeitar a alteridade da diversidade sexual. Do ponto de vista analítico, é uma questão aguda.
É possível que a maneira como se aplica na clinica a matriz teórica da castração e do Édipo leve facilmente a um viés normativo, que preconiza uma maturidade heterossexual reprodutiva.
Frente a isso, Derrida propõe uma desconstrução do falologocentrismo que impregna toda a cultura e, consequentemente, a psicanálise, o que possibilitaria uma abordagem mais apropriada da feminilidade e das sexualidades não marcadas pela castração simbolica. Um desdobramento dessa questão seria a proposta de Amber Jacobs , que postula a necessidade de novos sistemas simbólicos além do fálico, que se apoiariam não mais no parricídio de Édipo e sim no matricídio de Orestes.
Talvez por estarmos imbuídos do falocentrismo milenar, somos levados a atribuir uma gravidade maior aos sintomas ligados a identidade sexual ou de gênero, do que àqueles que se expressam numa área não sexual.
Por exemplo. Se um homem está identificado com a mãe de tal forma que isso termina por definir sua homossexualidade, essa condição tende a ser considerada mais séria do que a de um outro, heterossexual, que está identificado com o pai a ponto de repetir compulsivamente o comportamento doentio daquele, com resultados desastrosos em sua vida. Ambos apresentam importantes questões identitárias, que, num caso incide, na identidade de gênero, no outro não. Atribuir maior gravidade ao primeiro caso não decorreria de preconceitos falocêntricos não reconhecidos?
Poderíamos fazer raciocínio semelhante ao comparar sadomasoquismo e neurose obsessiva. No primeiro quadro, tem-se um sujeito torturando física ou mentalmente outro, dentro de um contrato de consentimento mutuo; no segundo, observa-se o superego a torturar sadicamente o ego masoquista. Atribuir gravidade maior ao SM que a neurose obsessiva seria preconceito contra o sintoma de ordem sexual?
Lembro Robert Stoller quando dizia que até mesmo os psicanalistas ficam chocados quando têm de lidar com a sexualidade, com os sintomas na esfera sexual .
Uma eventual problemática na identidade de gênero não invalida os recursos e capacitações intelectuais e afetivas, não indica necessariamente uma infantilização impeditiva e incapacitante, como mostram os feitos na arte, na ciência e na política de muitos homens cuja sexualidade não seguia os ditames da “normalidade”.
Hoje a questão mais premente se coloca em relação aos transexuais, um fenômeno recente que nos parece muito patológico. Entretanto, tem-se notícia de transexuais altamente qualificados e bem situados, como, para citar um exemplo, aquele nomeado pelo Presidente Obama para um importante cargo federal nos Estados Unidos.
Essa realidade nos força a pensar até que ponto temos usado de forma correta a teoria da castração e do Édipo. Sem negar sua importância, mas desconstruindo os equívocos do falologocentrismo, será que poderíamos tirar conclusões menos radicais e pensar que o acesso à realidade e ao processo secundário, o abandono do narcisismo e o acesso às relações objetais são processos que podem passar por outros circuitos que não necessariamente os da castração simbolica? Essa, quem sabe, é nossa tarefa teórica mais premente.
À luz da interpretação “dura” da teoria, o casal de “A Secretária” seria considerado inviável, pois formado por duas pessoas fixadas na sexualidade infantil, atuando patologias complementares e supostamente incapacitadas de atingir plenamente o amor objetal. No entanto, desafiando a teoria, elas se amam.
Freud anotou a observação de Charcot – “La théorie c’est bon, mais ça n’empêche pas de exister” . É um conselho ao qual deveríamos estar sempre atentos, especialmente nos dias de hoje.

Sem comentários.

Deixe seu comentário