A Queda de Ícaro de Brueghel

breugel-icarus-redO belo quadro de Brueghel assim intitulado surpreende quem o vê pela primeira vez.

Em clima primaveril, algumas árvores enfeitam a vista da grande paisagem na qual se descortina uma pequena baía vista do alto. Em primeiro plano, vemos um lavrador de costas, dirigindo-se da direita para a esquerda, segurando o arado que é puxado por um cavalo. Num segundo plano do terreno acidentado que desce até o mar, vemos, em um nível mais baixo do terreno arado e um tanto distante deste, um pastor com suas ovelhas, que, olhando para o alto, apóia-se pensativamente em seu bastão. Como o lavrador, também ele está de costas para o lado esquerdo. Num terceiro plano, lá embaixo, vê-se o mar com algumas ilhotas, no qual passeiam alguns navios, dois deles distantes à esquerda e um mais próximo da praia, à direita. Ainda à esquerda, depois de blocos de rochas claras e montanhas, vê-se uma cidade que se espraia à beira-mar. Tudo parece calmo, tranqüilo, o mundo girando em seus eixos, os homens trabalhando em suas humildes tarefas de subsistência. Uma cena de grande beleza estética, como era de se esperar de um importante mestre flamengo, talvez o maior deles, mas uma cena definitivamente prosaica e terrena – o dia-a-dia da humanidade da época de Brueghel. Nada mais distante de grandes e trágicos personagens mitológicos como Ícaro.

O novel observador da obra fica na dúvida, terá mesmo lido de forma correta o título? Afinal, ele conhece a lenda de Ícaro. Era ele o filho de Dédalo, o construtor do labirinto que aprisionara o Minotauro e que, por desobedecer ao rei Minos, fora ali confinado juntamente com o filho. Engenhoso como sempre, Dédalo constrói para si e para Ícaro asas com penas de aves e cera, com o objetivo de fugir voando de Creta. Ao partirem, advertiu ao filho para não voar muito baixo, para não molhar as asas no mar, nem alto demais para que o sol não derretesse a cera que lhe colava as asas. Durante o vôo, encantado com a liberdade, Ícaro alçara grande altura, aproximando-se do sol. O calor dele emanado derreteu a cera, fazendo desprender suas asas e precipitá-lo para a morte no fundo do mar, sob o olhar aterrorizado do pai, que, após resgatar seu corpo e enterrá-lo, continuou sua fuga voando para Sicília, onde encontrou asilo.

Ao lembrar da queda de Ícaro no mar, o observador, que já se dispunha a achar que havia algo de errado no título do quadro, resolve prestar mais atenção à cena que se expõe a sua frente. Vê então, no canto direito, entre a praia e o navio maior, duas pernas brancas que afundam no mar, sobre as quais esvoaçam algumas pequenas penas.

Sim, ali estava Ícaro afundando no mar.

Porque teria Brueghel construído seu quadro com uma perspectiva tão descentrada a ponto de provocar confusão no observador? Se apelarmos para a história da arte, lembramos que Brueghel foi um dos maiores mestres flamengos e, dentre eles, aquele mais próximo dos costumes populares, a ponto de usá-los como temas de suas pinturas, nas quais os registrou minuciosamente. Seu apego e valorização da realidade humana decorriam não só de um pendor pessoal, mas do pensamento próprio do Renascimento então em vigor. Assim, Brueghel ao colocar a queda de Ícaro num canto do quadro, passando quase desapercebido, talvez quisesse reafirmar tal posição, dizendo que não mais se interessava pelos grandes temas mitológicos gregos e sim pela imediata condição humana. É ela que domina a cena – o lavrador, o pastor, os navios, a dura faina pela vida, a beleza da paisagem, a primavera. É isso o que o interessa.

Por outro lado, alguns conhecedores, salientam que a perspectiva usada por Brueghel, ou seja, a cena vista de cima, poderia ser a visão de Dédalo, que continuava voando, observando impotente a queda do filho, seu mergulho fatal. Tal proposição acrescenta mais uma possível interpretação ao quadro – poderia ser ela uma imagem do desespero de um pai frente a arrogância do filho, que recusa as admoestações paternas e paga com a vida sua desobediência.

Ainda quanto à perspectiva, sabemos que foi justamente na época em que Brueghel pintou seu quadro que apareceram as primeiras representações pictóricas em anamorfose – curiosas pinturas nas quais alguns objetos são distorcidos de tal forma que se tornam irreconhecíveis, a não ser se observados a partir de um determinado ângulo, como se vê na tela “Os Embaixadores” do contemporâneo de Breughel, Hans Holbein. Lacan se utilizou dessa imagem ao discorrer sobre o olhar como objeto

Muitas vezes Ícaro é associado à condição do poeta, a suas ambições de glória literária que o distanciam das exigências da realidade e o levam a empreender vôos que o expõem a graves riscos. O quadro de Brueghel mostra a distância incomensurável entre as humildes tarefas do dia-a-dia do homem comum – que ara a terra, que cuida das ovelhas, que navega pelo mar – e as preocupações de criação literária próprias do poeta, do escritor, representados pelo vôo de Ícaro. Compreensivelmente, a tela motivou belos textos de dois grandes poetas da língua inglesa – W. H. Auden e William Carlos William.

Auden julga ver no quadro de Brueghel uma grande sabedoria ao mostrar a indiferença do mundo frente ao sofrimento individual. Todos dão as costas para Ícaro, ninguém nota sua queda, sua morte, sua tragédia.

Williams, de forma mais sucinta, aborda o mesmo tema.

A meu ver, a tela de Brueghel ilustra ainda uma outra coisa: a forma como os conteúdos inconscientes aparecem na associação livre do analisando e a são captados pela escuta descentrada do analista, tal como preconizadas por Freud.

Brueghel expõe uma grande cena na qual o lavrador com seu arado ocupam a posição central. Essa disposição levaria o observador a considerá-lo o protagonista da mesma. Sabemos ser errônea essa conclusão. O personagem mais importante não é o lavrador e sim Ícaro, que mal aparece por ser representado de forma incompleta – vislumbramos apenas suas duas pernas que rapidamente afundam no mar. De forma idêntica se porta o analisando. Em sua fala, ele expõe uma grande cena para o analista, conta uma série de episódios e fatos, sonhos e acontecimentos. É em discurso muitas vezes emocionado, mas regido pela razão consciente. O ouvido treinado do analista não despreza tal fala, mas sabe que ela não é necessariamente o que mais importa. Freud o ensinou que, contrastando com os assuntos que o paciente discorre longa e minuciosamente, o tema que mais o importa, aquilo que mais o angustia, a fonte de suas maiores preocupações e sofrimentos, muitas vezes é vivido por ele mesmo como algo casual, pouco importante, cercado de dúvidas e esquecimentos, algo do que ele não está seguro de ser fiel ao contar, uma “bobagem”. É algo que aparece em seu discurso, no dizer de Freud, “como um príncipe disfarçado de mendigo, como ocorre na ópera”. Está escondido, deslocado, obscurecido e desprezado – exatamente como o Ícaro de Brueghel.

Isso ocorre não por uma deliberada vontade do analisando de enganar e mentir para o analista e sim por mecanismos psíquicos dos quais ele não tem conhecimento e que reprimem o acesso direto à consciência dos conteúdos inconscientes conflitantes, a não ser dessa forma distorcida, deslocada, condensada.

Assim, o analista vê cada sessão como um renovado quadro de Brueghel no qual vai procurar o escondido Ícaro representante do conflito inconsciente.

Não é diferente o que diz Benjamin, ao afirmar que os movimentos de câmera do cinema são equivalentes a interpretações psicanalíticas. Quando a câmera mostra uma grande panorâmica e paulatinamente faz o close de um detalhe até então desapercebido, ela está agindo como o analista que discrimina da fala consciente do analisando o “príncipe disfarçado”, resgatando-o daquele lugar humilde e lhe dando a devida importância. Ou como o novel observador da tela de Brueghel que encontra as pernas do desafortunado Ícaro.

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