A HISTÓRIA DA V

A Historia da V – Abrindo a caixa de Pandora – Uma ampla investigação da história, da cultura e do poder do sexo da mulher (Apresentação do livro “A História de V” de Catherine Blackledge, traduzido por José Manuel Bertolotte, Editora DeGustar, São Paulo, 2004).

A partir dos anos 60 do século XX as lutas feministas tomaram forte impulso nos países mais avançados. Em grandes manifestações públicas, as mulheres queimavam os sutiãs e clamavam por direitos iguais aos dos homens em todos os campos de atividades, inclusive o da sexualidade. Era um luta legítima, que denunciava séculos de submissão ao poder masculino, que se exercia direta e indiretamente, através de crenças e ideologias as mais variadas.

Nesses momentos de maior entusiasmo, as mulheres negavam as efetivas diferenças que existem entre os gêneros sexuais, alardeando uma impossível igualdade e adotando comportamentos paródicos que as colocavam numa posição simétrica e contrária daquilo que mais combatiam – a intolerância e a discriminação sexista.

No momento atual, as mulheres não mais negam as diferenças. Pelo contrário, partem delas para reivindicar seus direitos, cujo exercício apresenta dificuldades específicas como aquelas decorrentes da difícil conciliação entre a maternidade e a presença pública profissional, para a qual elas se mostram tão capacitadas quanto qualquer homem.

Até chegarem ao atual estágio de sua luta, as feministas passaram por instantes em que viam Freud e a psicanálise como inimigos. Essa visão baseava-se num equívoco que as fazia entender o falicismo presente na teoria freudiana como uma clara defesa do machismo.

Dado sua abrangência e importância na teoria psicanalítica, não poderei abordar a questão do falo como seria necessário sem me afastar demasiado dos escopos dessa apresentação. Mas apenas para sinalizar alguns aspectos mais importantes desse problema, explicito que o falo é o pênis imaginário que, segundo a fantasia infantil, todos os seres humanos – homens e mulheres – possuiriam. É essa a forma pela qual as crianças se explicam a diferença anatômica entre os sexos.

O que significa isso? Significa que as crianças, ao se depararem com o fato de que algumas delas têm o pênis e outras não, não entedem isso como uma diferença anatômica normal e sim como o efeito de uma mutilação, de uma castração, já que, como afirmei, elas partem do princípio de que todas as pessoas nascem com o falo, esse pênis imaginário. Se alguém não o tem, é por tê-lo perdido através de uma mutilação, a castração.

Essa visão infantil, que não entende a diferença entre homem e mulher a não ser em termos de fálico e castrada, terá amplas conseqüências no psiquismo, fazendo com que o falo seja o significante mais importante no que diz respeito à representação e simbolização do outro, do diferente, do não-eu, daquele ou daquilo sobre o que será depositado tudo o que o narcisismo de cada um não suporta ver em si mesmo.

Freud diz que o falicismo é uma forma infantil de idealizar uma completude narcísica onipotente que nega todos os limites e insuficiencias próprios da existência humana. Perder o falo, aceitar a castração simbólica, ou seja, as diferenças, é um processo indispensável que todos nós, homens e mulheres, temos que passar para superar o narcisismo, termos acesso à realidade, à vida adulta, à maturidade emocional.

Freud não valorizava o pênis ou a masculinidade em detrimento da vagina ou da feminilidade. Vê-se então que confundir com uma defesa machista do poder dos homens a importância teórica que Freud concede ao falo na estruturação do psiquismo é um erro grave.

O que Freud fez, sim, foi mostrar as conseqüências da visão infantil fálica do mundo, que persiste no inconsciente de todos e no imaginário das culturas. É ela que alimenta a valorização machista do homem e seu pênis e a atitude de desprezo e descaso frente a mulher e seu orgão sexual. É ainda ela que não entende o genital feminino em sua positividade de uma vulva e suas estruturas conexas e sim na negatividade de um pênis inexistente, por ter sido mutilado, castrado. Um genital que – por esse motivo – desperta horror, como explica Freud em “A Cabeça de Medusa” (1922-1940), para citar um entre tantos escritos onde aborda esse tema.

Toda essa abordagem freudiana sobre as consequências psíquicas das diferenças anatômicas entre os sexos é deixada de lado por Catherine Blackledge, em seu interessante livro – “A História de V – Abrindo a caixa de Pandora – Uma ampla investigação da história, da cultura e do poder do sexo da mulher”. Ela prefere abordar a sexualidade feminina sob o prisma histórico, cultural, antropológico e fisiológico. A ênfase com que articula seus argumentos em prol da valorização da genitália feminina e do direito da mulher ao gozo sexual muitas vezes dá a sua obra um tom quase panfletário, característicos de projetos politico-ideológicos.

Blackledge faz uma extensiva apresentação sobre a forma como os genitais femininos aparecem registrados na cultura desde os tempos pré-históricos, fazendo incursões na biologia e na fisiologia da sexualidade de animais e seres humanos.

A autora mostra como as representações da vulva são muito mais antigas do que as do pênis na pinturas rupestres, atribuindo esse fato ao tardio reconhecimento da importância do orgão masculino nos processos reprodutivos. Descreve antigas crenças relacionadas com a vagina, cuja exibição teria o poder de afastar o mal, proporcionar uma maior fertilidade nos animais, garantir a germinação das plantações, paralizar os inimigos – até mesmo o Diabo. Com o advento do cristianismo, houve uma grande reviravolta, o orgão feminino passou a ser visto como fonte do mal e – conseqüentemente – algo a ser reprimido. Tal enfoque permanece até nossos dias, evidenciando-se na pobreza etimológica para descrever suas várias estruturas, como o clitóris, os pequenos lábios e os grandes lábios.

Uma considerável parte do livro é dedicada à descrição da anatomia e da fisiologia dos genitais da mulher e das fêmeas de vários espécimes do mundo animal. A autora, com insistência, defende a idéia de que as fêmeas têm papel ativo no ato da concepção, senão seu controle total. Levanta dados que provam serem seus genitais não meros receptáculos passivos à investida dos machos, já que teriam a capacidade de identificar e selecionar os espermatozóides mais compatíveis, eliminando os indesejáveis, capacidade que lhes deixa como as responsáveis finais pelo sucesso do processo reprodutivo.

O livro ganha mais interesse quando Blackledge mostra os preconceitos culturais e sociais que reprimiram e censuraram por tanto tempo a sexualidade feminina, especialmente aqueles que se manifestavam através das ideologias científicas das diferentes épocas. A negação da sexualidade feminina era de tal ordem que se refletia até mesmo na observação do comportamento sexual das fêmeas dos animais, cuja poliandria era sistematicamente negada em nome de uma monogamia ideologicamente concebida.

Uma outra evidência disso é a forma como o clitóris foi abordado pelo saber médico de épocas passadas, refletindo os tabus culturais então vigentes. Como se desconhecia o papel do clitóris na reprodução, por muito tempo ele foi ignorado pelos tratados médicos. Sua qualidade de zona erógena, de orgão de prazer sexual, não podia ser reconhecida, pois isso implicaria na questão do orgasmo feminino, fato negado pelas autoridades científicas e religiosas.

Entretanto, embora denegada, a função erótica do clitóris era implicitamente reconhecida e reprimida pela prática médica. No final do século. XIX, em Londres, eram realizadas clitoridectomias (extirpação cirúrgica do clitóris) para curar histéricas. O médico Isac Baker Brown, defensor dessa prática médica, em 1865 foi eleito presidente da Associação Médica de Londres. Antes escrevera o livro “Sobre a curabilidade de certas formas de insanidade, epilepsia e histeria em mulheres”, no qual descrevia sua experiência cirúrgica. A mesma terapeutica era preconizada nos Estados Unidos em outros países da Europa.

Como lembra Blackledge, essa não é apenas uma lamentável prática do passado. Atualmente há entre 100 e 130 milhões de mulheres que sofreram a infibulação (extirpação do clitóris, parte dos pequenos lábios e/ou sutura dos grandes lábios), procedimento costumeiro em países muçulmanos. Calcula-se que cerca de 2 milhões de meninas por ano são submetidas a tais práticas de mutilação genital. Elas ocorrem em 27 países africanos, algumas regiões do Oriente Médio e da Ásia e – em função dos movimentos migratórios – aumenta na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia.

A infibulação é considerada como uma mutilação cruel dos genitais femininos, pois a ablação do clitóris, cuja função geradora de prazer não pode ser desprezada, causaria um grave deficit erógeno na mulher. Sua prática visaria controlar ou negar a sexualidade feminina, concentrando seu prazer exclusivamente na vagina. Por outro lado, é um rito de passagem que marca a identidade sexual das mulheres naquelas culturas, um comportamento milenar cuja abolição não é de fácil realização. Daí a ambiguidade com a qual esse difícil problema é abordado, mesmo pelas líderes feministas daqueles países.

A autora mostra como, ao contrário do Ocidente, onde a vagina é tão desvalorizada e a sexualidade feminina reprimida, a etnografia dos últimos 100 anos mostra como é diferente o que ocorre em várias outras culturas ( ilhas Marquesas, ilha de Páscoa, ilhas do Pacifico, Polinésia). Ali os genitais femininos são valorizados – é frequente que o clitóris, os pequenos e grandes lábios sejam manipulados e alongados artificialmente e enfeitados com piercings, tendo como objetivo sua maior capacitação para o prazer sexual.

Essa valorização se reflete no rico vocabulário existente para designar as várias estruturas da genitália feminina, o que contrasta com nossas civilizações ocidentais, onde a única dessas formações que tem uma designação amplamente difundida e usada é o himem, e isso devido à fetichização machista que o valoriza como garantia da paternidade da prole a ser engendrada. A repressão da sexualidade tal como realizada em nossas culturas difere da forma como ela era encarada no Havai antes da colonização ocidental – ali os genitais das crianças de ambos os sexos eram manipulados desde cedo, com o intuito de ensinar-lhes o prazer sexual.

Blackledge termina com amplas considerações sobre o orgasmo feminino, apontando para as duas vertentes teóricas que determinaram a forma como ele foi encarado até recentemente em nossas culturas ocidentais. As autoridades especulavam sobre a função do orgasmo feminino no processo da reprodução. Para Aristóteles, ele era dispensável; sustentava que poderia haver concepção sem que a mulher tivesse prazer no ato sexual. Essa tese recebeu um forte apoio posteriormente, em 1770, quando Spallanzani fez a primeira inseminação artificial numa cadela. Essa linha de pensamento ignorava ou negava o orgasmo feminino. Paralelamente mantinha-se a concepção oposta, baseada em Hipócrates, que afirmava ser o orgasmo essencial na liberação das sementes retidas em ambos os sexos. Isso implicava que a retenção das mesmas provocaria um acúmulo que desequilibraria os fluidos corporais, com efeitos danosos sobre a saúde. Daí a necessidade de provocar o orgasmo para manter a saúde das mulheres. Essas idéias se mantiveram no correr de vários séculos, o que pode ser constatado pela leitura de textos como o livro do médico francês François Ranchin, intitulado “Se se está autorizado a friccionar a vulva de mulheres em estado de paroxismo histérico”, de 1627.

Assim, diz a autora, apesar de ter-se rompido nos séculos. XVIII e XIX a ligação entre orgasmo e concepção, essa idéia se manteve até a passagem do sec. XIX para o XX. Teve seu apogeu no final do século XIX e alimentou largamente a prática médica, que preconizava as “massagens pélvicas”, extremamente freqüentes na ocasião, e que eram – nada mais nada menos – do que masturbações vaginais praticadas pelos médicos. Da mesma forma, a venda de vibradores era abertamente estimulada, fato que perdurou até os anos 20 do século XX, como se pode constatar em anúncios comerciais nos catálogos das grandes lojas.

Essa situação ilustra muito bem os mecanismos de dissociação e isolamento ao nivel do social, pois se tolerava e estimulava as “massagens pélvicas” como procedimento médico, enquanto a masturbação era fortemente reprimida.

É nesse momento histórico no qual entra em cena Freud, propondo-se a ouvir as mulheres histéricas e, ao desvendar seu desejo, termina por descobrir o inconsciente.

Ao abordar sem subterfúgios a sexualidade feminina e comprometer-se pessoalmente, ao descrever seu próprio gozo sexual, Catherine Blackledge contribui para derrubar as barreiras e repressões que ainda persistem e constrangem tantas mulheres. Ao agir assim, aproxima-se do legado de Freud, que muito fez para combater as hipocrisias e ideologias que cerceavam a sexualidade humana.

Que essas barreiras e repressões são resistentes dão provas o fato de que a autora, que demonstra tanta bravura no corpo de seu livro, não ousa escrever o título com todas as letras…

Uma palavra final sobre as fotos que ilustram o texto. As imagens de vulvas ali apresentadas constrastam com aquelas atualmente divulgadas pelas revistas pornográficas ou “masculinas”. Isso dá oportunidade para, mais uma vez, constatar como a sexualidade humana se distancia da natureza e se submete a padrões culturais, reflexão que nos ocorre várias vezes durante a leitura deste livro.

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